Recomear
(Penny Jordan)
Ttulo original: Starting Over
Saga da Famlia Crighton - 11

Copyright (c) 2001 by Penny Jordan 
Originalmente publicado em 2001 pela Mira Books.
Copyright para a lngua portuguesa: 2002 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Digitalizao: Polyana
Reviso: Cynthia M.

RESUMO: Viver... amar... renunciar...
       Olvia almejava amor, felicidade e estabilidade familiar. E imaginara ter encontrado tudo isso no marido, Caspar. Mas incapaz de superar a infncia problemtica, 
ela renunciou  nica coisa que mais valorizava: o casamento
       Agora, separada e com a difcil tarefa de criar duas filhas sozinha, Olvia estava desesperada  procura de apoio. A oferta de ajuda, quando surgiu, veio 
de uma fonte inesperada e muito pouco desejada - seu pai, David Crighton. Mas ser que ela poderia se dar ao luxo de rejeitar ajuda? No seria a hora de Olvia reconciliar-se 
com o passado para poder, finalmente, criar um novo comeo com Caspar?
       CAPITULO I
       Sabe h quanto tempo no fazemos sexo? - Caspar notou que havia se expressado de forma errnea to logo testemunhou a reao de Olvia. Porm, precisava dizer 
o que sentia.
       - Sexo! Sexo! S consegue pensar nisso? - ela perguntou, furiosa.
       - Somos casados. Devamos fazer sexo com certa freqncia - Caspar argumentou, sentindo a raiva crescer na mesma intensidade que sua loucura.
       - Devamos fazer uma srie de coisas - Olvia pontuou. - Ontem, por exemplo, voc devia ter levado as meninas ao parque, mas preferiu jogar golfe com seu 
irmo.
       - J entendi.  disso que se trata? - Caspar a desafiou. - No haver sexo porque sa com meu irmo.
       - Seu meio-irmo, na verdade - Olvia o corrigiu, iria.
       Ela se sentia zonza, com falta de ar, sufocada pelas prprias emoes e pelo esforo desmedido de control-las. Seu corao batia, frentico, como se fosse 
pular do peito.
       A qualquer minuto ela comearia a suar e depois... depois... No se permitiria tamanha fraqueza, do contrrio, estaria muito prxima da sombra da prpria 
me e da neurose que a assolava. O perptuo ciclo de exorbitncias e, em seguida, a redeno, que dominavam sua vida e a dos outros que a rodeavam.
       Olvia e o marido haviam decidido ir aos estados Unidos para, a princpio, comparecer ao casamento de um dos irmos de Caspar, e tambm para que ele pudesse 
passar mais tempo com a extensa famlia e apresentar-lhes a esposa inglesa e as filhas.
       Para completar a cadeia de desgostos, Olvia no queria ir ao casamento, encontrava-se to atarefada no trabalho que algumas semanas de folga causavam-lhe 
um alto grau de ansiedade. Ela e Caspar haviam brigado muito por causa disso.
       O fato de ter mudado de idia no ltimo minuto no se devia ao desejo de agradar ao marido, mas sim  recusa de se juntar  famlia para receber seu pai, 
David, que voltara  cidade. O boicote explcito  comemorao familiar, incluindo o casamento recente do pai com Honor, originou uma rusga entre ela e Caspar que 
agora transformava-se em ressentimento e hostilidade.
       Por que se deixara iludir ao imaginar que Caspar seria diferente?, Olvia perguntou-se. Por que pensou que ele a teria como prioridade? Caspar era tal qual 
as outras pessoas em sua vida. Oh!, todos fingiam am-la, mas a verdade era...
       Ela fechou os olhos, trmula apesar do aquecimento do quarto do hotel. A dor de cabea parecia aumentar sobremaneira cada vez que se lembrava da expresso 
de seu tio Jon quando referiu-se ao irmo
       Recomear...
       Gmeo... o pai de Olvia.,. Como Jon podia amar o irmo depois de tudo que ele tinha aprontado?
       Dias antes, Jon lhe telefonara para pedir que voltasse logo a fim de ir  festa em Fitzburgh Place para brindar o casamento de David com a prima de lorde 
Astlegh, Honor, mas Olvia declinara o convite.
       No conseguia explicar a si mesma, tampouco podia conter a complexa turbulncia de emoes que desencadeavam rompantes de pnico. Parecia existir dentro de 
si um temor cortante, dilacerador. Tratava-se de uma horrvel sensao de deslocamento que a distanciava da raa humana.
       Caspar agora levantava-se da cama com o rosto contorcido de raiva. Havia certa vez acreditado que o amava? Parecia impossvel. Sentia-se anestesiada cada 
vez que tentava lembrar-se dos sentimentos que outrora nutrira por ele.
       - Danny nos convidou para passar o fim de semana com ele e a famlia em seu chal no Colorado. Podemos esquiar e...
       - No - Olvia o interrompeu, de forma abrupta.
       Enquanto observava o marido, sentia apenas desespero e total falta de esperana. O amor que os unira e criara as duas filhas havia desaparecido. Eram to 
estranhos que Caspar no conseguia enxergar a carga que Olvia teria de enfrentar to logo voltassem para casa.
       A presso em sua cabea intensificava-se. Durante toda sua vida Olvia tivera de lutar contra o av a fim de seguir a tradio familiar e qualificar-se como 
advogada. Como ele adoraria tripudiar sobre a neta, caso ela falhasse.
       - Tenho de voltar para casa. Meu trabalho...
       - Seu trabalho! E quanto a nosso casamento? O casamento. Olvia o fitou, distante.
       - No h mais casamento, Caspar. - A sensao de alvio que a invadiu parecia to intoxicante quanto champanhe. Podia sentir a tenso se dissipar.
       - De que est falando? - Caspar perguntou, aturdido.
       - Acho que devemos nos separar - Olvia escutou-se dizendo.
       - Separao...?
       De repente, ela descobriu que prendia a respirao, como se esperasse... o qu?
       - Sim - Olvia confirmou. - Agiremos da forma mais adequada em termos legais,  claro. _
       - Sem dvida, esse  o fator mais relevante para voc j que  uma Crighton - Caspar atacou-a.
       Olvia desviou o olhar.
       - Voc sempre se ressentiu por isso, no?
       - O que me deixa ressentido, Livvy,  o fato de que nosso casamento nunca conteve somente ns dois.
       - Voc tambm queria ter filhos - Olvia rebateu ante a acusao injusta.
       - No me refiro s meninas. Estou falando de sua famlia. Voc ainda  aquela menininha, Livvy, que vive do passado.
       - No  verdade. - Ela ficou plida. - Quem prov nossas necessidades e...
       - Estou cansado de carregar os pecados que os outros cometeram contra voc, Livvy. Cansei de ser o responsvel por tudo s porque sou como seu pai, seu av 
e Max. No agento suportar o peso emocionai que voc sempre distribui ao bancar a vtima.
       - Como ousa dizer isso?
       - Ouso porque  verdade - Caspar enfrentou-a. - Mas como j estou farto de substituir seu av, pai e primo, acho que vou escrever aquele livro que sempre 
me prometi, comprar uma Harley e viajar pelo pas para aproveitar a vida.
       Olvia o encarava como se o marido fosse um total estranho. No era o Caspar que ela imaginava conhecer; aquele homem insensvel, repleto de fantasias adolescentes, 
no tinha noo das necessidades das filhas ou da esposa.
       - No sei por que me apaixonei por voc, Caspar. Ou por que nos casamos - completou, imaginando que ele podia ouvir os estilhaos do amor e dos sonhos caindo 
ao cho.
       - No? Nesse caso, voc tem uma pssima memria, Livvy. Casou-se comigo para fugir de sua infncia - Caspar concluiu.
       Sua infncia. Quando ele saiu do quarto, Olvia fechou os olhos e sentiu a tenso espalhar-se pelo corpo.
       Havia um gosto amargo na boca. Ela nem sequer tivera uma infncia. As vezes, pressentia que j nascera sabendo no ser o filho que o pai e o av queriam.
       Por causa deles, Olvia crescera determinada a provar a si mesma o prprio valor. Por causa deles, passara os ltimos meses pressionando-se ao extremo para 
atingir objetivos a fim de se sobressair como advogada. Qualquer deslize poderia ter causado sua runa, mas tinha de faz-lo. No somente por si, mas  tambm pelas 
filhas. No permitiria que elas sofressem por serem netas desse av. Desde que David desaparecera e a verdade veio  tona, Olvia viveu assombrada, envergonhada 
e atormentada pelos erros do pai.
       E agora que ele estava de volta, ao invs de ser rejeitado, o homem era recebido com honras e glrias, enquanto ela...
       A dor de cabea agravou-se juntamente com o pnico e o desespero.
       Ficaria melhor assim que voltasse para casa, prometeu a si mesma. Quando retomasse o trabalho, tudo estaria sob controle.
       CAPTULO II
       Haslewich.
       Sara Lanyon ainda no sabia o que estava fazendo ali. Ela, sem dvida, no tencionara passar por aquela regio ao retornar de Brighton, onde visitara as velhas 
amigas da faculdade. Portanto, algum poder desconhecido a impelia a estar l.
       Haslewich... a terra da famlia Crighton...
       Os lbios delicados se curvaram em um sorriso sutil. Sara ouvira falar dos Crighton atravs da segunda esposa de seu av, a pobre Tnia.
       A mulher parecia to ferida e frgil quando seu av a socorrera e, gentilmente, devolvera-lhe a confiana e a vida.
       - H sempre duas verses em situaes como essa, Sara - seu pai lhe dissera quando, certa vez, ela explodira de raiva devido ao que os Crighton haviam feito 
a Tnia.
       - Mas, pai, ela  to vulnervel, to sensvel... No pode haver desculpas para o jeito que a abandonaram. Foi desumano e cruel.
       Os olhos verdes de Sara tornaram-se marejados e seu pai meneara a cabea, resignado.
       Na poca, ela tinha dezoito anos e talvez julgasse as situaes com certo radicalismo exagerado. Agora estava mais madura e capaz de rebater os argumentos 
de Richard Lanyon, mas, no fundo, ainda relutava em eliminar a antipatia que sentia pelos Crighton. Por mais passional que fosse, ela tinha certeza de que haviam 
sido brutalmente insensveis, motivados apenas pelo interesse em preservar o cl.
       - Os Crighton so Haslewich - Tnia lhe contara com aquela voz doce. - Todos os admiram, mas... - Ela se calara um tanto plida. - Eles me intimidavam e agiam 
como seu eu fosse indesejada. At meus filhos...
       Ento, lgrimas rolaram pelo rosto de Tnia, tal qual acontecia a Sara naquele instante, enquanto atravessava a rua principal de Haslewich.
       Era hora do almoo e ela estava faminta. Olhou ao redor e decidiu investigar uma estreita passagem.
       Uma placa na esquina indicava a direo do rio.
       O rio. Sara adorava gua. Seu pai era um excelente navegador e ela o acompanhava em aventuras martimas desde menina.
       J havia percorrido metade da rua quando avistou um restaurante. Olhou para dentro, notando a movimentao dos clientes e o aroma delicioso que vinha da cozinha.
       Mudando de idia, Sara entrou no restaurante e logo foi interpelada por uma mulher de meia-idade.
       - Sara?
       - Sim - Ela respondeu por impulso, imaginando como aquela mulher poderia conhec-la.
       - Oh!, graas a Deus - a senhora exclamou. - A agncia falhou tantas vezes, mas me prometeram que dessa vez...  por aqui. - Ela guiou Sara por entre as mesas.
       Embora achasse tudo muito bizarro, Sara a seguiu em silncio.
       To logo atingiram os fundos do restaurante, a mulher abriu uma porta e a convidou para entrar.
       - Desculpe-me a baguna - disse a senhora. - Estamos to atrapalhados com o movimento. Tentei atualizar a papelada e no consegui. Mas agora que voc est 
aqui... Oh!, o computador est funcionando novamente, graas a Deus. A novidade  que entramos como uma das opes do Michelin e,  claro, as reservas no param 
de chegar. O que seria maravilhoso, se no estivssemos lotados nos prximos trs finais de semana. - Quando ela parou para respirar, Sara vistoriou os arredores.
       O escritrio possua janelas francesas que davam para um pequeno jardim. Ao v-la observando o local, a mulher sorriu.
       - Ns acabamos de compor o jardim. Era originalmente um Caf e compramos a casa ao lado. Como o escritrio ficava na varanda dos fundos, resolvemos mud-lo 
para c.
       -  muito lindo. - Sara sorriu.
       - Sim. E se tudo correr bem, no prximo vero poderemos us-lo. A propsito, sou Frances Sorter - ela se apresentou. -Acredito que a agncia tenha lhe dito 
que eu e meu marido somos donos do restaurante. Nosso cozinheiro  to exigente que meu marido resolveu criar uma horta. No sei se a agncia discutiu os termos 
com voc.
       - Para dizer a verdade, no - Sara replicou. Agora era o momento de dizer a Francs Sorter
       que houvera um engano. No entanto, Sara escutava atentamente enquanto Francs relatava os termos generosos de seu "cargo".
       - Ser apenas por alguns meses - Francs disse, um tanto ansiosa. - Voc sabe disso, no? Mary, nossa gerente, est de licena maternidade e logo estar de 
volta, mas...
       Alguns meses... Sara havia decidido sair da escola onde trabalhara como professora substituta no final daquele ano letivo. Tinha vrias opes a considerar, 
incluindo um emprego na universidade em que seu pai lecionava.
       Ora, no havia motivos para ficar e trabalhar na cidade dos Crighton. Na verdade, existiam vrias razes para declinar a possibilidade. Ento, por que assentia 
e concordava com o salrio que Francs Sorter lhe oferecia?
       Sempre fora impulsiva, um trao que lhe causara uma srie de encrencas na adolescncia. Porm, mesmo assim, ficou surpresa ao aceitar o trabalho.
       - H somente um problema - Sara avisou, - Ainda no me instalei na cidade e...
       - Oh!, isso no  um problema - Francs garantiu. - Temos um apartamento no andar superior, o qual voc poder usar sem pagar o aluguel. Alis, se concordar, 
estar solucionando mais um de nossos problemas. A companhia de seguros insiste em manter o lugar habitado. Aparentemente, eles acreditam que uma propriedade vazia 
 uma tentao para ladres e vndalos. O apartamento  pequeno, mas os reformaram. Deixe-me mostr-lo a voc.
       Bem, Sara refletiu meio hora mais tarde ao se despedir de Francs. Naquela manh, quando saiu da casa da amiga, nem sequer pensara em passar por Haslewich, 
quanto mais aceitar um emprego na cidade. E l estava ela.
       A bem da verdade, Sara acreditava em destino e aproveitava as oportunidades que apareciam. A vida era uma aventura... ou ao menos deveria ser.
       Seus olhos brilhavam de expectativa. Quem sabe ela poderia marcar um ponto em favor da gentil esposa de seu av, colocando alguns dos Crighton em seus devidos 
lugares. Esse representava um desafio que ela teria prazer em aceitar!
       Nick Crighton suspirou. Seu irmo, Saul, e a esposa, Tullah, foram gentis em oferecer-lhe hospedagem, enquanto se recuperava dos ferimentos que ele havia 
adquirido ao visitar um de seus clientes em uma cadeia da Tailndia.
       Um dos presos havia atacado o cliente de Nick e quando este tentara ajud-lo, acabou sendo esfaqueado.
       Felizmente a faca no havia atingido os rgos internos. Porm, sua recuperao prolongava-se sobremaneira devido a uma infeco que se desenvolveu no ferimento. 
Estava fora de perigo agora, mas o mdico lhe prescrevera repouso absoluto at que o ferimento estivesse completamente cicatrizado.
       Sim, Saul e Tullah foram amveis ao insistir que Nick ficasse com eles, mas comeava a entediar-se ante a intensidade de cuidados que recebia.
       Afinal, era um homem maduro, acostumado a viver ao ar livre, fazendo o que adorava: escalar, velejar, esquiar... enfim, qualquer esporte que envolvesse altas 
taxas de adrenalina.
       Quando realizou sua ltima consulta mdica, ele tentou convencer o mdico de que estava recuperado e pronto para voltar ao trabalho. Afinal de contas, como 
advogado, Nick nem sempre tinha oportunidades de correr riscos.
       - Entendo - o mdico dissera. - Permanecer sentado em seu escritrio ou no tribunal no causar nenhum dano uma vez que a ferida est cicatrizando.
       - timo! Posso voltar a trabalhar? - Nick lhe perguntara, animado.
       - No seja ridculo, Nick - o mdico foi direto. - Pode ser advogado, mas sei que seu trabalho  braal. Voc administra um negcio que envolve todos os tipos 
de riscos, aos quais nenhum homem em s conscincia se submeteria.
       Nick calou-se, sem argumentos. Ele trabalhava para pessoas que eram pegas pelo sistema legal em outros pases, portanto colocava-se com freqncia em situaes 
de extremo perigo ao negociar os direitos dos clientes. Em certas ocasies era necessrio negociar com governos corruptos para "comprar" a liberdade de seu cliente 
e, por conseqncia, articular fugas rpidas pela fronteira para no ser morto.
       To logo se formou como advogado altamente qualificado, ele se oferecera para libertar a irm de um velho amigo de faculdade, que se encontrava presa no Oriente 
por porte de drogas.
       Aps ter ganho o processo, Nick fora requisitado por outras famlias a fim de trabalhar em causas semelhantes.
       Mesmo agora, quando a maioria dos viajantes incautos estava ciente dos perigos, era comum testemunhar o uso de jovens inocentes para a distribuio de drogas.
       Ele tambm realizava os tramites burocrticos, claro, o que lhe permitia tempo para viajar. Para Nick, o trabalho era uma maneira de obter um fim, e no o 
fim em si.
       - Reservei uma mesa no novo restaurante dos Sorter - Tullah anunciara naquela manh, aps o caf. - Eles entraram no Michelin e estou ansiosa para experimentar 
suas novas iguarias. Voc vai amar, Nick.
       Sim, ele iria amar, mas... mas o que almejava naquele momento era algo bem mais aventureiro que um jantar na companhia do irmo e da cunhada.
       O clima era aconchegante, contudo no servia para Nick. O instinto de formar uma famlia parecia ter afetado todos os homens Crighton. Nick no era contra 
o casamento, s no queria comprometer-se nem agora nem nunca! Valorizava demais sua necessidade de liberdade.
       - Acha que ele vai gostar? - David perguntou  esposa, enquanto ambos admiravam a sute do loft, localizado acima do velho celeiro, a qual tinham acabado 
de arrumar.
       - Ele vai adorar - Honor garantiu, sorridente e vida por um beijo caloroso do marido.
       - Vocs dois! - a filha mais velha do primeiro casamento de Honor queixara-se na ltima visita. - Nunca conheci um casal to apaixonado quanto vocs.
       - Est apaixonada por mim? - David perguntara-lhe depois que Abigail voltara a Londres.
       - Claro que no - Honor negara antes de acrescentar: - Estou loucamente apaixonada por voc!
       Estavam casados h poucas semanas e se conheciam fazia menos de um ano, mas Honor nunca tivera dvidas quanto  deciso que tomara. Sabia do passado de David 
com suas sombras e vergonhas, e admirava a gloriosa ressurreio que o fizera renascer para a vida. Agora sentia-se ansiosa para receber o homem que ajudara naquele 
renascimento, padre Ignatius, um missionrio irlands que se encontrava na Irlanda. David e Honor ficaram radiantes ao convenc-lo a sair da Jamaica e morar permanentemente 
com eles.
       - Quando ele ir chegar?
       - Seu vo sair de Dublin amanh - David respondeu. - Eu queria encontr-lo no aeroporto, mas ele no me deixou. Disse que tinha uns assuntos
       para resolver.
       - Eu sei - Honor assentiu, paciente.
       - Ele tambm disse que queria vir sozinho para no me obrigar a dirigir at Dublin para busc-lo.
       Honor sorriu outra vez.
       - Espero que ele seja feliz conosco.
       - Ele ser - ela assegurou ao marido, abraando-o. - E por voc que ele est vindo, David.
       Honor conhecera o padre na Jamaica, quando ela e David se casaram. Em pouco tempo descobrira que o religioso era tudo que o marido havia descrito e muito 
mais. Compartilhavam compreenso, uma crena na dignidade humana e respeito pelo mundo.
       - Est certo. - David riu. - Estou fazendo uma tempestade em um copo d'gua.
       Houve dias em que ele precisou se beliscar para ter certeza de que no estava sonhando. Por mais feliz que estivesse, no se sentia merecedor de tamanha bno. 
Confessara tal sentimento a Jon, mas seu irmo discordara, veemente.
       David recebera ddivas preciosas nesta qinquagsima dcada de sua vida. A amizade com o padre, o amor de Honor e a aceitao da famlia.
       Contudo, havia um membro da famlia que no o aceitava: Olvia, sua filha. Ela tinha motivos legtimos para rejeit-lo. David entendia isso. No fora um bom 
pai e Olvia se vira forada em tenra idade a responsabilizar-se pelo irmo mais novo e pela me. David a negligenciara, enquanto o filho de Jon, Max, era aclamado 
por todos. Por isso, Olvia agira de forma to hostil em relao ao pai que falhara com ela.
       Mas o sofrimento que a filha vivia preocupava-o. Havia se transformado em um David muito distinto daquele que virara as costas para a famlia por no ter 
sido capaz de arcar com as conseqncias das prprias atitudes. Agora entendia o poder emocional negativo que havia magoado seus entes queridos. E Olvia estava 
sofrendo muito.
       - D-lhe tempo - Jon aconselhara.
       E tambm havia o filho de David, mas Jack tivera o benefcio de ser criado por Jon e Jenny, j que David e a ex-esposa, Tnia, no puderam faz-lo. Ao contrrio 
de Olvia, Jack era seguro de si, feliz consigo mesmo. Ele fitava o pai com certa estranheza, mas no manifestava a fria ou o medo que Olvia demonstrava.
       A recusa em v-lo ou falar com ele era compreensvel. O retorno de David fora um choque para Olvia. Afinal, jamais lhe dera razes para ser amado ou respeitado. 
Mas esperava que a filha cedesse um pouco e comparecesse  festa de casamento que ele e Honor haviam organizado em Fitzburgh Place. Estava desesperado para fazer 
algum tipo de reparao, conversar com ela, explicar, desculpar-se...
       Ele no tinha o direito de esperar amor da parte de Olvia. No entanto, era a amargura da filha que o fazia sofrer. A dor e a prpria culpa o dilaceravam.
       Cada vez que olhava para Max e via em que o filho de Jon se havia transformado, David reconhecia que o sobrinho tivera uma infncia saudvel. Olvia, por 
sua vez, passara maus bocados quando criana e a responsabilidade se devia somente ao egosmo de David.
       Quando Honor notou a tristeza no olhar do marido, deduziu que ele pensava em Olvia. No podia imaginar-se sendo rejeitada por uma de suas filhas a ponto 
de elas no desejarem a me em suas vidas. A possibilidade a fazia estremecer.
       Honor era uma boa ouvinte e havia escutado muito acerca de Olvia atravs dos outros membros da famlia. Mas ningum a criticava ou fazia fofocas. No, os 
Crighton eram leais entre si. O que Honor ouvira era quo preocupados todos os parentes estavam com Olvia.
       - Ela estava to feliz quando se casou com Caspar - Jenny dissera. - E quando as meninas nasceram... E, de repente, a felicidade desapareceu.
       - Ela trabalha demais - algum comentara. Dentre tudo o que escutara, Honor chegara a uma interpretao significativa: a vida de Olvia tornara-se sombria 
e infeliz.
       - s vezes, ela parece ter medo de relaxar e se divertir... - Tullah, a esposa de Saul, havia declarado com os lindos olhos repletos de tristeza.
       Houvera, Honor supunha, danos suficientes na infncia de Olvia para ela desenvolver a necessidade de controle e de impor-se metas quase impossveis. E, acima 
de tudo, ter adquirido uma frgil auto-estima.
       Aproximando-se do marido, Honor sussurrou:
       - Vamos para a cama.
       - O qu? - David fingiu espanto. - Estamos no meio da tarde!
       - Est na hora da sesta. - Honor sorriu, sedutora. De mos dadas, eles caminharam pelo gramado que separava a casa do celeiro.
       Animada com a chegada do velho amigo e mentor de David, Honor parou para acariciar o arbusto de lavanda e inspirar seu perfume.
       Ela planejava cultivar uma larga variedade de ervas no jardim para assim fabricar suas poes naturais.
       Olvia lembrava o aroma de lavanda... resistente, mas to sensvel que um mero toque poderia danific-la.
       CAPTULO III
       Bobbie, a mulher de Luke Crighton, foi o primeiro membro da famlia a saber, por acaso, da separao de Olvia. Ela resolveu visit-la to logo soubera que 
Olvia, Caspar e as meninas haviam chegado dos Estados Unidos. Estava vida por ouvir histrias da viagem e oferecer-se para fazer compras, caso Olvia necessitasse 
de alguma coisa.
       - Mame est l em cima - Amlia informou a Bobbie ao abrir a porta.
       - , ela est fazendo as malas do papai - Alex acrescentou, inocentemente.
       - Papai ficou na Fila... na Amrica - Amlia emendou, e as duas irms a fitaram com olhar de tristeza. Bobbie sentiu o corao se apertar.
       - Olvia - ela chamou ao p da escada. - Sou eu, Bobbie. Posso subir?
       Ao v-la no topo da escada, Bobbie chocou-se com a aparncia de Olvia. Ela havia perdido peso e estava plida, sem o brilho vivaz nos olhos. Pareceu-lhe, 
na verdade, que, alm das filhas, Olvia precisava de consolo.
       - As meninas lhe contaram? - Olvia deduziu.
       - Elas disseram que Caspar permaneceu na Filadlfia - Bobbie confirmou, pesarosa.
       - Pode subir, Bobbie - convidou-a. - Caspar e eu estamos nos separando - ela informou quando Bobbie adentrou o quarto. -  o melhor para todos ns. O casamento 
j no ia bem h algum tempo e... ele no  mais o homem com o qual me casei, Bobbie. E eu... - A voz de Olvia falhou e seus olhos tornaram-se marejados.
       Quando Bobbie fez meno de abra-la, Olvia recuou.
       - No. No lamente. Tenho conscincia do que fiz. Na realidade, estou aliviada. Nosso casamento no estava dando certo. Creio que, passado o impacto inicial, 
Caspar tambm ficar aliviado.
       Ao escutar o timbre de dor na prpria voz, Olvia ficou espantada. Por que deveria sofrer? No mais amava Caspar. Era uma tranqilidade no t-lo sobre os 
ombros, queixando-se devido ao tempo abusivo que ela despendia no trabalho, ao invs de aproveitar a companhia do marido e das filhas. E agora que seu pai voltara, 
as pessoas a observariam com mais ateno,  espera de alguma falha... ou fracasso.
       - Sei que alguns casais passam por fases difceis que parecem sem soluo e...
       - Fases difceis? - Olvia a interrompeu, rindo com ironia. - No se trata disso, Bobbie. A ltima vez em que Caspar e eu fizemos sexo foi h meses...
       Se o problema era apenas a vida sexual dos dois, ento haveria de existir uma soluo. Porm, quando Olvia continuou a se explicar, Bobbie percebeu que se 
enganara.
       - Eu no conseguia... Caspar pensava que era somente provocao de minha parte, uma espcie de punio. Mas a distncia foi aumentando - Olvia desabafou. 
Suas mos tremiam visivelmente. - Tnhamos brigas terrveis por causa disso. O clima era destrutivo demais para as meninas. Tentei, mas Caspar...
       - Vocs chegaram a consultar um terapeuta de casais? - Bobbie perguntou, carinhosa.
       O desespero de Olvia parecia palpvel, tal qual uma terceira presena naquele quarto. Em geral, era uma pessoa calma, controlada, to contida que Bobbie 
assustou-se diante de tamanha mudana.
       - Terapia! - Olvia exclamou. - Como minha me que passou a vida inteira se tratando? Desculpe-me. - Fitou Bobbie, infeliz. - Eu sei que... - Ela levou as 
mos aos lbios, como se pretendesse silenciar a si mesma. -  tarde demais para isso. O casamento acabou.
       - O que Caspar vai fazer? - Bobbie indagou.
       - Ele est de licena na universidade para fazer pesquisa. Diz que vai viajar pela Amrica em uma Harley-Davidson.  um sonho que ele tem desde a adolescncia.
       Para prpria surpresa, Olvia descobriu que estava chorando sem ao menos saber por qu.
       - Oh! Livvy - Bobbie comoveu-se. Mas quando se aproximou para abra-la, mais uma vez Olvia esquivou-se.
       Havia tanto a fazer, tantas decises deveriam ser tomadas. Ela queria estar no escritrio segunda-feira, antes das oito, quando recomearia a trabalhar. Assim, 
teria uma hora a mais para estudar o processo que a esperava... e se o levasse para casa aps o expediente, poderia adiant-lo durante a noite, depois que as meninas 
fossem dormir. Pelo menos agora Caspar no estaria presente para critic-la por causa de excesso de trabalho.
       - H algo errado - Bobbie disse a Luke naquela noite, aps relatar a conversa com Olvia.
       - Claro que h - Luke concordou. - Ela deixou Gaspar.
       - No, alm disso... H algo errado com Livvy - Bobbie insistiu. - Ela me pareceu diferente...
       - Est triste.  uma reao natural.
       Bobbie suspirou. Por mais que amasse o marido, havia momentos em que pareciam estar em sintonias distintas. Outra mulher teria entendido imediatamente o que 
ela quisera dizer.
       - Ser que Jenny j sabe? - Bobbie perguntou. - Deve saber. Ela e Olvia sempre foram muito ntimas.
       Jenny era a esposa de Jon e tambm fora a me substituta para Olvia durante a penosa infncia que ela tivera. Olvia agora era scia da firma de advocacia 
que pertencia a Jon.
       Aflita, Bobbie pegou o telefone e ligou para Jenny.
       - O que houve? - Jon perguntou a Jenny, quando est entrou no estdio, preocupada..
       - Bobbie acabou de telefonar. Ela foi  casa de Livvy hoje  tarde. Eu devia ter ido, mas tinha uma reunio no comit Mes e Bebes. Livvy e Caspar se separaram. 
Ela voltou sem ele.
       - O qu?!
       A reao de Jon espelhava o choque de Jenny. Ele meneou a cabea.
       - Pensei que eram felizes juntos.
       - E eram - Jenny afirmou. - At David aparecer. - Embora se esforasse, ela no conseguia esconder o tom acusatrio.
       Ficou evidente, atravs da expresso de Jon, que tais palavras o magoaram. Jenny sabia que eram injustas, mas no podia mais retir-las.
       Jon havia mudado desde o retorno do irmo. Parecia viver, respirar e pensar apenas em David naqueles dias. A dedicao era tanta que Jenny sentia-se excluda 
da vida do marido, um sentimento ridculo, claro. Estavam casados havia trinta anos e os ltimos anos de casamento os aproximaram muito, trazendo uma nova profundidade 
 relao, ao amor. Em suma, foram anos dourados, sem a presena de David.
       Mas agora David estava de volta e Jon no vivia somente para ela. Era meu irmo isso, meu irmo aquilo. Jenny conseguia ver o amor que Jon sentia por David 
atravs do olhar e da voz cada vez que ele pronunciava o nome do irmo.
       - David no  responsvel pelo fim do casamento de Livvy. Seria impossvel - Jon objetou,
       - Talvez no seja - Jenny concedeu. - Mas  responsvel pelo que Livvy , Jon. Voc afirmou tal fato inmeras vezes.
       - Livvy no teve uma infncia feliz - Jon concordou. - Mas no se deve apenas a David...
       Jenny soltou um suspiro impaciente.
       - Antes de David retornar, voc me disse que estava muito preocupado com Livvy porque ela trabalha demais.                                  ,             
-
       - Sim,  verdade.
       Perturbou-o descobrir, enquanto Olvia encontrava-se na Amrica, a quantidade de trabalho extra que ela realizava quase desnecessariamente. Se houvesse dito 
que precisava de ajuda, Jon teria providenciado assistncia  sobrinha. Mas Olvia alegara no precisar de nada e mostrara-se ofendida ante a sugesto. Por isso, 
o casamento estava desgastado. O.advogado que Jon havia contratado para cobrir a ausncia de Olvia no fora capaz de cumprir todos os compromissos, obrigando Jon 
a encarregar-se de alguns processos e dividir o resto entre Tullah, que trabalhava meio perodo, e sua filha Katie, que tambm seguia a tradio da famlia.
       Quando Jenny se retirou sem se incomodar em beij-lo como sempre fazia, ele hesitou. Queria perguntar-lhe o que a aborrecia, porm ela j havia desaparecido.
       Desde que David voltara, Jon encontrava-se to envolvido com o irmo que parecia ignorar a existncia dela, Jenny refletiu ao sair do estdio sem esperar 
pelo abrao carinhoso que partilhavam com freqncia.
       Sabia quanto ele amava o irmo gmeo. Poderia Jon sentir inveja de David? Comparava o prprio casamento confortvel com o relacionamento passional que David 
e Honor vivam? Honor era, sem dvida, mais glamourosa e sensual que Jenny.
       - Pare com isso - resmungou consigo mesma a caminho da cozinha. Anos atrs, sentira-se inferior  primeira mulher de David, cujo apelido era Tiggy, a exuberante 
modelo, mas no havia meios de repetir a histria.
       A enorme cozinha parecia muito vazia agora que as crianas haviam crescido.
       Dos quatro filhos apenas Joss, o caula, ainda morava com os pais, mas logo seguiria os passos de Jack rumo  universidade.
       Claro que Maddy e os filhos, seus netos, sempre a visitavam. Era raro no v-los, mas...
       Devia ser a sndrome do ninho vazio, como costumavam chamar, quando a mulher comeava a sentir saudade dos filhos j crescidos.
       Resoluta, Jenny lembrou-se de quo afortunada era em comparao  sobrinha.
       Pobre Livy. O corao de Jenny sofria por ela.
       - Maddy, voc est bem? - Max ficou ansioso ao v-la ofegante e protegendo o ventre com as mos.
       - No  nada - Maddy assegurou-o. - Senti um pouco de nusea.
       - Sente-se - Max a instruiu, apesar dos protestos dela.
       A quarta gravidez, que ambos receberam com tanta felicidade, consumia a energia de Maddy mais que as trs anteriores, um fato que o fazia recriminar-se por 
ter permitido outro filho quando ela j cuidava de trs crianas e de seu av.
       Ele precisava conversar com a me e pedir-lhe que observasse Maddy para garantir que ela no exagerasse nos afazeres.
       - Livy voltou hoje - Maddy comentou. O mal-estar havia sumido, graas a Deus. No queria ver Max preocupado. - Sei que ficaram fora por apenas algumas semanas, 
mas tantas coisas aconteceram que o tempo pareceu se prolongar - ela continuou.
       - Sei.
       - Pergunto-me como ela ir lidar com a volta do pai. Honor me disse que David est desesperado para reatar com a filha, mas sente que no deve pressionar 
Livy.
       - D tempo ao tempo - Max aconselhou-a. - A volta de David chocou a todos ns, em especial Olvia.
       A preocupao de Maddy no se limitava somente  relao entre Olvia, a prima de Max, e David. Estava tambm perturbada devido s mgoas que Caspar certa 
vez lhe confessara sentir. Mas, quando fez meno de falar, foi dominada por outra onda de nusea.
       No havia de ser nada, disse a si mesma. Devia marcar outra consulta pr-natal, j que havia faltado  ltima porque Ben passara mal naquele dia. Os tornozelos 
inchados e o fato de que ela vivia cansada no eram motivos de alarde. Por que deveriam ser? No tivera problemas com as trs gestaes anteriores.
       - Voc fez o qu? - O pai de Sara riu quando ela contou-lhe por telefone o que havia acontecido.
       - Voc nunca vai adivinhar - Sara prosseguiu. - Alguns membros do cl Crighton reservaram uma mesa para hoje  noite. Portanto, irei conhecer os "inimigos" 
de camarote.
       - Eu j lhe disse que voc ouviu apenas um lado da histria, Sara.
       - No me importo. Se metade do que vov Tnia me disse for verdade, ento eles a trataram muito mal.
       Do outro lado da linha, Richard Lanyon suprimiu um suspiro. Sua filha tinha a tendncia de defender causas perdidas e cachorros sarnentos. S esperava que 
a vida no lhe roubasse tantos ideais e iluses. Em segredo, ele considerava a segunda esposa do pai um tanto infantil e totalmente egosta. O av de Sara adorava 
a mulher e a protegia, mas s vezes achava-a irritante e insuportvel.
       - Eu sugiro que no comece derrotando tantos drages - ele aconselhou.
       - Serei cautelosa, pai. Mas  hora de algum ensinar uma lio aos Crighton. Aproveite o feriado - Sara completou, afetuosa.
       Richard era arquiteto, e ele e a mulher possuam uma casa em um luxuoso condomnio no Caribe, o qual ajudara a projetar. Sara podia estar com eles e aproveitar 
o feriado prolongado, no entanto, era orgulhosa e independente demais. Havia escolhido a carreira de professora porque almejava ajudar as pessoas e, para ela, a 
educao significava uma das ddivas mais preciosas a oferecer. Mas a realidade do mundo moderno corroia seus ideais e sonhos.
       Atualmente, comeava a reconsiderar a escolha profissional. O curto perodo em que estaria trabalhando em Haslewich lhe daria tempo para ponderar como tambm 
alfinetar aqueles que fizeram mal  vov Tnia.
       Sara no negava que os Crighton haviam maltratado Tnia a despeito do que o pai dizia.
       Aps arrumar seus pertences no adorvel apartamento que Francs Sorter lhe oferecera, Sara retornou ao restaurante, onde a proprietria a saldou com um sorriso 
afetivo.
       - No esperamos que comece a trabalhar logo hoje, mas se estiver disposta gostaria de lhe mostrar o que  preciso ser feito.
       - No me importo de comear agora - Sara-respondeu, sincera, antes de escutar o som constrangedor de seu estmago.
       - Meu Deus, deve estar faminta! - Francs exclamou. - Normalmente, os funcionrios realizam as refeies quando terminamos de servir os clientes, mas posso 
providenciar algo nutritivo para voc comer no escritrio.
       - Um sanduche  o suficiente - Sara pediu-lhe, modesta.
       - Um sanduche! - Francs ficou horrorizada. - Este restaurante recebeu vrios prmios. :- Ela sorriu, matreira. - Que tal salmo grelhado com legumes?
       - Oh! vou adorar - Sara aceitou, sorridente. Iria gostar de trabalhar ali. Francs possua senso de humor mesmo parecendo estar cansada naquele momento.
       Uma hora depois, Sara tirou os olhos do computador para ingerir a ltima garfada da deliciosa refeio. Mantivera-se to entretida no trabalho que o salmo 
acabou esfriando. Na verdade, Francs enviou-lhe uma poro to farta que poderia alimentar duas pessoas.
       Franziu a testa quando o computador recusou-se a dar a informao de que ela necessitava para completar a tarefa. Precisaria conversar com Francs a respeito 
disso.
       Abriu a porta do escritrio e percorreu o curto corredor que dava acesso ao restaurante. Hesitante, ela avanou alguns passos.
       Francs lhe dissera que estaria circulando pelo local, mas Sara no conseguia v-la em lugar nenhum. O restaurante estava repleto de clientes e em plena atividade.
       - Bobbie me ligou hoje - Tullah disse a Saul, enquanto o garom lhes servia vinho. - Livvy voltou, mas Caspar no veio com ela. Ele ficou na Amrica e, de 
acordo com Livy, o casamento acabou.
       Tullah permaneceu pensativa. Em certa ocasio, Saul e Livy foram muito prximos, e Saul admitira que, na poca, sentira-se atrado pela prima em segundo grau. 
Mas o sentimento agora pertencia ao passado. Tullah era esposa de Saul.
       - Lamento pelas meninas - ela continuou.
       - E difcil para as crianas quando os pais se separam.
       Saul tinha trs filhos do primeiro casamento, e Tullah ainda se lembrava de quo frgeis os quatro pareciam quando ela os conheceu.
       A primeira mulher de Saul abandonara o marido e as crianas, alegando que no existia lugar para. o filho e as filhas no segundo casamento com um homem que 
no tinha apego  famlia.
       No fora fcil para eles quando Tullah e Saul se apaixonaram e casaram-se, mesmo embora as crianas a aceitassem totalmente. Um filho de ambos havia completado 
a famlia, porm Tullah sentia um amor protetor pelos rebentos de Saul, em especial por Meg, e doa-lhe o corao s de pensar em Amlia e Alex.
       - Se querem saber, acho que os homens e as mulheres deveriam permanecer separados, exceto em momentos puramente recreativos - Nick argumentou, divertindo-se 
com a expresso indignada de Tullah. Como todos os Crighton, Nick era charmoso e bem apessoado, mas tinha um certo ar de perigo e uma masculinidade desafiadora que, 
s vezes, surpreendia Tullah.
       - Voc  incorrigvel, Nick.
       - No, querida cunhada. Estou apenas determinado a nunca cair na armadilha de permitir que as emoes estraguem minha vida - Nick afirmou, convicto.
       Saul nada disse. Conhecia bem a antipatia do irmo caula em relao a casamento e compromisso. - Um dia, voc vai mudar de opinio - Tullah avisou-o. - Conhecer 
uma mulher e se apaixonar por ela... O que foi? - ela perguntou, ao ver Nick contorcer o semblante.
       Uma garota encontrava-se ao lado da cadeira dele, completamente ruborizada. Era bvio que ela havia esbarrado em Nick por acidente quando cruzava o estreito 
espao entre as mesas.
       Tratava-se de uma jovem muito bonita, Tullah notou, divertindo-se ao ver que Nick recebia o pedido de desculpas um tanto admirado. Ele podia ser contra casamento 
e compromisso, mas o cunhado no era avesso  companhia feminina. Longe disso. At onde Tullah sabia, os "relacionamentos" de Nick limitavam-se a mulheres que tambm 
faziam questo de preservar a liberdade.
       Morta de vergonha, Sara pediu desculpas ao homem no qual trombara sem querer. Entretanto, o constrangimento foi substitudo por indignao quando ele resmungou 
algo incompreensvel ao invs de aceitar as desculpas.
       Ela ainda tentava encontrar Francs e quando a avistou do outro lado da sala, precipitou-se por entre as mesas, atenta  proprietria e no ao que estava 
a sua frente.
       Seria sua culpa?, perguntou-se ao enfrentar o olhar enfurecido do homem. Ele estava sentado  mesa, mas sua cadeira encontrava-se quase no meio da passagem 
dos garons.
       - Voc parece plida. Est tudo bem? - Francs indagou quando Sara conseguiu alcan-la.
       - Tive um entrevero com um dos clientes - Sara admitiu. - Esbarrei nele, mas ao tentar me desculpar...
       - Qual deles? - Francs a interrompeu.
       - Ele est naquela mesa. - Sara mostrou o homem a Francs.
       - Oh!, -a mesa de Tullah e Saul Crighton. Os Crighton!
       No mesmo instante, Sara encarou o trio. Por sorte, Tullah e Saul estavam sentados de costas para ela. No entanto, o homem em quem esbarrou...
       A respirao de Sara tornou-se sfrega quando ele ergueu o rosto e a fitou.
       - Pobre Nick - Francs dizia. - Ele no anda bem ultimamente.
       - Refere-se ao mau humor que ele expressa, suponho - Sara replicou, ainda irritada.
       - Querida, ele a aborreceu mesmo, no? - Francs olhou-a, curiosa. - Na verdade, Nick envolveu-se em um acidente infeliz. Tal qual a maioria dos Crighton, 
ele  advogado, mas realiza um trabalho especializado e frequentemente perigoso. - Em poucas palavras, Francs explicou-lhe como Nick ficara ferido. Porm, Sara 
recusava-se a ficar impressionada.
       - Talvez ajude se ele carregar uma placa alertando as pessoas para se manterem a distncia - ela sugeriu, irnica.
       Francs no teceu nenhum comentrio. Sara era uma jovem linda e Nick, um belo rapaz solteiro. Portanto, parecia lgico a Francs que ambos se sentissem atrados. 
Como me de jovens adultos, ela reconhecia os sinais da atrao mtua disfarada de hostilidade.
       - So nove horas. Voc trabalhou a noite toda. - Francs sorriu para Sara. - Por que no encerra o expediente?
       - Ainda no - Sara recusou a sugesto. Munida da informao que Francs lhe fornecera, tinha certeza de que podia resolver o problema com o recalcitrante 
computador.
       Francs observou Sara retirar-se e passar bem longe da mesa dos Crighton. Havia gostado da jovem desde o primeiro instante, pressentindo a corajosa determinao 
aliada a um fabuloso senso de humor. Era evidente que a boa aparncia causaria um furor!
       - Nick - Tullah chamou-o, enquanto observava a forma sinistra com que o cunhado encarava a mulher determinada a evitar a mesa deles.
       - Querida cunhada - ele brincou sem desviar a ateno da mulher. - Voc reparou no olhar que ela lanou para mim?
       - Vi o jeito que voc olhou para ela - Tullah rebateu.
       - Exato - Saul concordou. - Voc no foi nada gentil com ela, Nick. Alis,  uma linda garota - acrescentou e riu quando Tullah o beliscou.
       - Linda mesmo - Nick murmurou. Contudo, no sabia por que reagira to negativamente a ela. O senso comum lhe dizia que a dor que sentira no instante em que 
ela colidiu em seu ferimento ainda por cicatrizar fora um mero acidente. Logo, alm de aceitar as desculpas da moa, deveria ter se esforado para causar uma boa 
impresso a fim de deix-la  vontade.
       Por que no o fizera?
       Com certeza, no foi por causa da onda sensual que sentiu, tampouco devido ao frisson que o dominou quando ambos os corpos colidiram. Afinal, j experimentara 
desejo fsico por vrias mulheres.
       Desejo fsico, sim, mas no a repentina sensao de perigo, a sbita conscincia instintiva...
       - Tem razo - ele anunciou, embora Tullah e Saul nada houvessem dito.- Comportei-me muito mal. Portanto, devo me redimir. Pergunto-me aonde ela foi.
       - Francs deve saber - Tullah arriscou. - Ela conversava com a moa.
       Por ser um cavalheiro, Nick levantou-se.
       - Sara? - Francs respondeu  pergunta de Nick. - Ela est no escritrio. Eu a contratei para substituir nossa gerente.
       Pensativa, Francs observou-o caminhar entre as mesas, em direo ao escritrio.
       Sara exclamou de satisfao quando, enfim, o computador obedeceu-lhe. Nick a escutou ao abrir a porta do escritrio. Ela fitava o monitor com os olhos cintilantes 
de triunfo. Era mais que bonita, Nick notou, sentindo o corao bater acelerado.
       Pressentindo a presena de algum, Sara virou-se e prendeu a respirao quando percebeu quem era o intruso.
       - Francs me disse que eu a encontraria aqui - Nick explicou. Reparou que o corpo tornou-se tenso e a expresso, hostil.
       Imediatamente, seu corpo e emoes reagiram.
       - Devo-lhe desculpas - ele comeou.
       - E verdade. Mas voc  um Crighton e, como tal, nunca pede desculpas, principalmente s mulheres...
       Atnito, Nick a encarou. A reao foi to inesperada e extraordinria que o pegou de surpresa.
       - O que... - Para incrementar sua fria, notou que Sara o ignorava, concentrando-se na tela do computador como se Nick no existisse.
       As mulheres nunca ousavam ignor-lo. Jamais! Enquanto uma parte dele assimilava o choque, a outra enfurecia-se ante tamanho atrevimento.
       - Escute aqui - ele esbravejou. - No tem o direito de fazer esse tipo de declarao sem maiores explicaes. A medida que falava, Nick se aproximava da mesa. 
Quando ele chegou bem perto, Sara pde sentir o calor da ira que exalava do corpo msculo. De fato, o homem transmitia somente virilidade. Alto, musculoso, de olhos 
to escuros que podiam ser negros, e no azuis como na realidade eram.
       Excitao e medo a envolviam. A cautela lhe dizia que havia ido longe demais. Mas Sara no estava disposta a ouvir a voz da razo. No, j escutava o canto 
traioeiro da sereia ordenando que desse a Nick o que ele merecia.
       Mais uma vez, Sara o ignorou e continuou a trabalhar.
       Era o suficiente. Irritado, Nick precipitou-se a ela a fim de segurar-lhe as mos para que Sara parasse de manusear o teclado. Porm, no instante em que os 
dedos se tocaram, um poder sensual percorreu-lhe as veias, eliminando as sensaes que o primeiro contato causara.
       - Solte-me - Sara vociferou, to plida quanto no momento em que esbarrou nele no restaurante. No entanto, os olhos mostravam a intensidade do sentimento.
       E o que ela estava sentindo era... Por instinto, Nick sabia que Sara percebera a qumica sexual que flua entre ambos.
       Para um homem acostumado a controlar as emoes, o que ele experimentava era totalmente incompreensvel.
       - Vim at aqui para me desculpar - Nick repetiu. Colrica, Sara empinou o nariz e o encarou. Mas
       a rplica sarcstica que pretendia dar morreu em seus lbios quando, por uma razo inconcebvel, ela se viu mergulhar naqueles olhos azulados.
       Ao mesmo tempo em que observava os prprios atos, Nick estava ciente das aes e de sua incapacidade de det-las. Pareceu-lhe uma eternidade, embora soubesse 
o contrrio, ultrapassar a diminuta distncia que os separava e cobrir os lbios de Sara com os dele.
       A boca macia era quente e doce. Conforme a explorava, Nick aumentava a intensidade do beijo.
       Os sentidos de Sara tornaram-se mais afinados. Aquele beijo representava a realizao de um sonho adolescente. Era o tipo de homem... o tipo de imediatismo 
sensual que no podia ser controlado ou contido. Por instinto, ela se entregou.
       De repente, escutaram uma risada no corredor.
       A realidade os interrompeu, quebrando o encanto. No mesmo momento em que ela o empurrou, Nick a soltou. Confusos, ambos se entreolharam. Eram dois pares de 
olhos que refletiam ressentimento e desejo ardente.
       - Agora est tudo bem? - Tullah perguntou a Nick, quando ele retornou  mesa. Como Saul houvesse sado para pagar a conta, somente ela testemunhou a expresso 
de assombro do cunhado.
       - E claro - Nick mentiu, enquanto conduzia Tullah at a porta, onde Saul os esperava.
       Os Crighton! As emoes de Sara eram um turbilho catico, e seu corpo encontrava-se em estado semelhante. Tnia tinha razo a respeito deles.
       CAPITULO IV
       Bom Deus, no sabia que era to tarde! - Frederick de Voysey exclamou ao verificar o relgio. - No fazia idia. Nem me lembro de quando usufrui de um jantar 
to excelente como este - ele agradou Honor.
       - Vou lev-lo at Fitzburgh Place - David se ofereceu. De propsito, evitara ingerir bebida alcolica com o intuito de transportar o primo de Honor.
       A princpio, tivera certo receio de convidar Freddy para jantar no mesmo dia em que o padre estava chegando. Mas, como sempre, a intuio de Honor provou 
ser aguada j que os dois homens, ambos com setenta anos, deram-se muito bem. Na verdade, a empatia foi tamanha que lorde Astlegh convidara o padre para um jogo 
de xadrez na semana seguinte.
       - Em termos de religio, eles pertencem a plos opostos - Honor comentara quando David confessou seu receio. - Mas, em se tratando de ajudar ao prximo, so 
muito semelhantes e certamente isso  o mais importante.
       E assim aconteceu. Pelo tom da conversa de Freddy, David suspeitava de que no tardaria ao padre envolver-se em outra "misso". Contudo, agora era visvel 
o cansao do bom homem. Afinal, ele tinha chegado da Irlanda havia poucas horas.
       -  Creio que seja hora de me recolher - padre Ignatius anunciou.
       A porta da frente, Honor beijou o primo com extrema afeio.
       -  Tenho planos para melhorar o pomar - ele avisou-a. - Quando puder, v me visitar.
       - Farei isso - Honor garantiu.
       Aps fechar a porta, ela sorriu ao padre.
       - Gostaria de esperar David voltar ou prefere ir direto para cama?
       - Direto para cama, se no se importar - Ignatius confirmou.
       Fora uma longa jornada desde a Irlanda, mas o cansao transmitia uma certa paz. Ele havia ido quele pas com o objetivo de retornar ao local onde sua trajetria 
religiosa comeara. Agora podia estabelecer-se na regio de Cheshire. Padre Ignatius encontrava-se no lugar onde seria seu ltimo lar na Terra.
       Permitiu que Honor o acompanhasse at o apartamento que tinham preparado para ele. Os cmodos possuam o teto rebaixado, um detalhe que ele sabia ser proposital. 
Teria sido idia de Honor ou de David? No importava. Sentia-se confortvel ali. E fora gentil da parte de ambos ter a sensibilidade de proporcionar tal conforto 
a ele.
       Os livros organizados em uma estante simples foram idia de David, e Ignatius o teria deduzido mesmo que Honor no lhe tivesse confidenciado que o marido 
passara dias percorrendo antiqurios para escolher os volumes.
       Tratava-se de livros sobre a Jamaica. Ele selecionou um, acariciou a capa de couro e o abriu, inspirando o odor familiar das pginas. Havia edies como aquela 
no colgio jesuta onde se educara. Quanto tempo se havia passado desde ento...
       - Acha que padre Ignatius est bem acomodado? - David perguntou a Honor, uma hora depois.
       Ambos estavam deitados na cama. Enquanto aguardava a resposta, ele acariciava a curva do pescoo da esposa com os lbios. Existia algo de adorvel e quase 
juvenil naquele gesto. Fechando os olhos, David inspirou o perfume de Honor. Tinha sorte e fora, sem merecer, abenoado.
       - Ele s est cansado - Honor assegurou-o. - Com certeza, divertiu-se na companhia de Freddy.
       - Certo, eu admito. Voc tinha razo quando disse que eles se dariam bem. - David riu.
       - Olvia e Caspar voltariam hoje, no? - Honor indagou.
       - Sim - David respondeu, solene.
       No mesmo instante, Honor se virou e o encarou.
       -  D tempo a ela, David. Sei que est ansioso para mostrar quo importante Olvia  para voc, mas...
       - Minha filha me odeia, Honor - David interveio com tristeza. - Posso senti-lo.
       - No  voc que ela odeia - Honor afirmou sabiamente. -  a si mesma. Pobre Olvia.
       - Sou o responsvel por tanto sofrimento.
       - Em parte, .
       - Fui um pssimo pai - ele reconheceu.
       - Sim. Voc foi um pssimo pai, David.
       -  Quero corrigir meus erros, porm Olvia no me deixar chegar perto dela.
       - D tempo a ela - Honor repetiu.
       Ela podia enxergar a dor e frustrao nos olhos do marido.
       - De alguma maneira,  mais fcil com Jack - David prosseguiu. - Ele ...
       - Homem? - Honor completou.
       - No - David negou de pronto.
       - Mas  isso que Olvia ir pensar, David. A responsabilidade no recai somente sobre voc. Seu pai... - Ela se deteve.
       - Olvia  minha filha. Eu devia t-la protegido dos preconceitos de meu pai. - David fechou os olhos, angustiado. - Ora, voc no precisa escutar tudo isso.
       - Claro que preciso - Honor o contradisse. - Faz parte do amor compartilhar tristezas e felicidades.
       Sorrindo, ela o segurou pelo rosto e, docemente, comeou a beij-lo.
       -  Mais... - David murmurou, e tomou-a nos braos.
       Jenny verificou a lista de compras. Parecia breve, mas agora, afinal, necessitava de mantimentos apenas para duas pessoas. Joss havia viajado para a Amrica 
a fim de visitar a tia de Jon, Ruth, que l morava com o marido americano. Seria a ltima oportunidade do rapaz de viajar antes que os exames escolares comeassem.
       Joss e Ruth eram muito amigos. Jenny sorriu ao lembrar-se do filho e da tia do marido juntos. Possuam um temperamento especial, serenidade e sabedoria que 
afetavam qualquer um que os conhecesse. 0 telefone tocou e ela foi atend-lo.
       - Jen, sou eu - Jon disse. - No me espere para jantar. David pediu-me para ir a Fitzburgh Place a fim de visitar lorde Freddy. Ele quer discutir negcios 
comigo.
       -  David ir com voc? - Jenny no conseguiu evitar o tom amargo.
       - David? - Jon parecia confuso. - No sei. Talvez. Por qu?
       -  Por nada. - Jenny podia imaginar como Jon reagiria, caso ela se queixasse, tal qual uma criana, da ausncia do marido. Naquela tarde, por exemplo, Jon 
havia sado para jogar golfe e ela o esperava em uma hora ou mais.
       Na volta das compras, Jenny decidiu, passaria na casa de Olvia para ver se poderia ajudar a sobrinha.
       - Mame... mame... Acorde. Estou com fome. Olvia abriu os olhos ao ouvir a voz de Alex. O
       corao disparou to logo verificou o relgio. Eram dez horas. Sempre levantava s seis. Podia sentir o familiar arrepio glido, enquanto o medo flua pelas 
veias. A pele tornou-se fria.
       Mais que tudo, ela desejava permanecer onde estava, na cama, cobrir-se com o edredom e esquecer os problemas. Mas no podia. Tinha responsabilidades, deveres, 
duas filhas e um trabalho.
       Mentalmente, comeou a listar as tarefas do dia. Havia roupas para lavar, o uniforme das meninas, as notas referentes ao caso que advogava... suprimentos 
para comprar... comida a preparar... a casa necessitava de uma faxina. O corao batia ainda mais disparado agora que sua ansiedade aumentava.
       -  Mame - Alex persistia. - Estou morrendo de fome!
       Olvia pressentia o grito que se formava em sua garganta, mas no podia proferi-lo. No era culpa de Alex o fato de ela sentir-se assim. Alis no tinha o 
direito de estar daquele jeito. Era uma mulher, me, esposa... Agora no mais.
       Caspar... De sbito, seu corpo inteiro comeou a tremer.
       - Me! - Alex j estava chorando e Olvia percebeu o medo da filha.
       Mais que todos, as crianas precisavam de segurana e amor. E Olvia sabia disso muito bem.
       - Estou acordada, querida - disse  filha. - Vou me levantar agora. V para baixo e espere por mim.
       Caspar... Caspar... Por que ele no havia entendido? Por que no  ajudara? Por que no a amava? Ningum jamais a amara...
       Ao entrar no banheiro, ergueu a mo trmula e enxugou as lgrimas.
       Lgrimas! Mas Olvia nunca chorava...
       Eram cinco horas da manh e o cu continuava escuro. Caspar ergueu a cabea. A seu lado jazia um brinquedo para Alex. Ele o encontrara depois que a filha 
partiu. Gentilmente, tocou o objeto com os dedos. Doa-lhe o peito de tanta saudade que sentia das filhas - e da esposa? Olvia ainda era sua mulher, mas no mais 
representava a pessoa com quem havia se casado, aquela pela qual se apaixonara e que tambm o amara.
       Teriam de sentar e conversar. Caspar no pretendia bancar o pai somente nos finais de semana, mas agora...
       Naquele exato momento, trancada na garagem da casa de seu meio-irmo, onde passava a noite, estava a brilhante motocicleta Harley-Davidson que ele comprara 
no dia anterior. To logo amanhecesse, pretendia iniciar a jornada que havia prometido a si mesmo realizar: atravessar a Amrica de costa  costa.
       - Vai fazer o qu? - seu pai perguntara, incrdulo. - Caspar, um homem de sua idade no pode pilotar uma moto dessas. E para garotos.
       Moveu-se desconfortvel na cama que parecia ainda maior e vazia sem a presena de Olvia a seu lado.
       Muito tempo havia se passado desde a ltima vez em que partilharam alguma intimidade.
       Fechou os olhos e tentou lembrar-se de quando fora essa ltima vez, certamente antes de Alex nascer. Ela fora um beb irritadio, obrigando Olvia a levantar-se 
vrias vezes durante a noite a ponto de faz-la dormir no quarto da criana. Ambos concordaram que seria injusto com Amlia se levassem o bero de Alex para a sute 
deles. E depois disso?
       Depois disso, Olvia dedicou-se tanto ao trabalho que quando se deitava, exausta, era apenas para dormir.
       Foi naquela poca que o sexo deixou de ser um prazer para os dois, transformando-se em uma troca relutante para Olvia a qual Caspar precisava barganhar?
       Amar uma pessoa no inclua somente sexo. Mas Olvia no queria o amor dele, tampouco seu corpo. Desolado, Caspar fechou os olhos.
       - Jon!
       Jon sorriu ao ver o irmo gmeo receb-lo quando saiu do carro em Fitzburgh Place.
       - Vim pegar algumas plantas da estufa para Honor e resolvi ficar para esper-lo - David explicou depois que se abraaram. - Olvia e Caspar devem ter voltado 
ontem, certo? - A pergunta de David deixou Jon compadecido. - Imagino que ela tenha passado em sua casa para visitar Jenny e contar da viagem.
       Jon respirou fundo.
       - No, ela no passou em casa. - No havia uma maneira fcil de contar ao irmo o que acontecera.
       - Livy voltou, David, mas Caspar ficou na Amrica. Eles se separaram.
       - O qu?
       Jon pde ver a expresso de choque no rosto de David.
       - E srio - reforou. - Mas no sei de maiores detalhes.
       - Preciso v-la - David decidiu. -  minha filha... sou... - Ele se calou, mergulhado em tristeza.
       - Pretendia dizer que sou o pai dela, mas  claro que no mereo esse papel.
       - Sei como deve estar se sentindo - Jon o consolou. - Por que no espera at Jenny conversar com Livy?
       - Voc sabe se minhas netas vieram com ela?
       - Sim, vieram - Jon confirmou.
       David soltou um suspiro profundo. Estava ansioso para se aproximar das meninas, ser para elas tudo que no pde ser para a filha. S de observar Jon com os 
filhos de Max e Maddy sentia uma necessidade doda de abraar as netas. Naquele momento, sofria da mesma urgncia em relao a Olvia, embora fosse adulta.
       - A propsito, devo avis-lo de que papai no est contente por ter convidado padre Ignatius para morar com voc - Jon informou, contrariado.
       - Eu sei, ele me disse. - Mas no acrescentou que Ben o subornara, alegando que, se David e Honor fossem morar com ele em Queensmead, Ben passaria a propriedade 
para o nome de ambos.
       - Queensmead! Voc prometeu a propriedade a Max - David lembrara seu pai. - Maddy despendeu uma fortuna de tempo e esforo para manter o lugar e...
       - Tolice dela. Nunca pedi nada - Ben retrucara, rabugento.
       Honor havia ficado indignada quando David lhe contara o que o pai dissera.
       - Quando penso no jeito amoroso com que Maddy cuida de Ben - ela desabafara -, percebo quo egosta e chauvinista ele .
       - Isso e muito mais - David concordara, contendo a fria. - O que foi? - questionara Honor ao notar o semblante srio da esposa.
       - Embora seja relativamente saudvel, Ben tem problemas de corao. Ele me disse isso e confirmei o fato com Maddy.
       - E muito grave? - David perguntara.
       -  No tenho certeza. Mas no  recomendvel que se exceda tanto fsica quanto emocionalmente. Ben j passou dos oitenta anos, David - Honor havia acrescentado, 
cuidadosa.
       - Entendo. Mas o fato de ter problemas cardacos no lhe d o direito de magoar os outros, em especial algum como Maddy.
       - Ben no pode magoar Maddy - ela afirmara, veemente. - Est protegida pelo amor de Max.
       No, Ben no podia ferir Maddy, mas havia magoado Olvia, que deveria ter tido o amor do prprio pai como proteo.
       -  No vou entrar na casa com voc, se no se importar - David disse a Jon, de repente.
       No mesmo instante, Jon deduziu que o irmo pretendia confabular com Honor acerca do que acabara de saber a respeito de Olvia.
       David encontrou Honor na cozinha com padre Ignatius, que descascava batatas para o jantar.
       - Fui  missa esta manh - o padre lhe contou. - Gosto de sua igreja.
       Paciente, David esperou que o amigo terminasse para se dirigir a Honor.
       - Vi Jon em Fitzburgh Place. Olvia e Caspar se separaram.
       - Oh! David! - Honor exclamou e o abraou.
       - Quero v-la, Honor, conversar com ela, ajud-la...
       - No creio que...
       - Ela no quer me ver. Jon j me disse isso - David adiantou-se.
       -  Talvez eu pudesse ir falar com ela - padre Ignatius se ofereceu.
       David riu e meneou a cabea.
       - Olvia se mostrar to relutante para receb-lo quanto o faria comigo. Voc est marcado por ser meu amigo. Sinto muito - ele se desculpou com os dois. 
- Sei que estou exagerando.
       Honor teve vontade de aconselh-lo a esperar um pouco mais, porm, sendo intuitiva, pressentia que Olvia no tinha tanto tempo. Compadecia-se com a mulher 
que agora era sua enteada e almejava poder ajudar Olvia e, por conseqncia, David.
       Tal qual o padre, ela tambm possua uma misso: curar e reparar os danos que a vida infligia a seus entes queridos. Contudo, suspeitava de que Olvia estava 
prestes a se fechar para qualquer ajuda.
       CAPITULO V
       Mas no posso ficar no hospital. Tenho famlia, trs filhos, um marido e minha casa... - O desabafo de Maddy perdeu-se no silncio do consultrio mdico.
       - Creio que no exista outra opo. No no estgio em que se encontra - o obstetra explicou-lhe. - Sua presso sangunea est alta e h protena nos testes 
que fizemos.
       O mdico e a enfermeira trocaram olhares.
       - Pena voc no ter podido vir  ltima consulta. Teramos descoberto o problema antes que se agravasse.
       Maddy mal acreditava no que estava ouvindo. Era evidente que engordara mais nesta gravidez que nas anteriores e ainda sofria a valer com tornozelos e pernas 
inchados. Entretanto, saber que comeava a mostrar sinais de pr-eclampsia e que, para sua sobrevivncia e a do beb, teria de permanecer no hospital a fim de monitorar 
a presso sangunea a deixou em estado de choque.
       -  Por que no telefona para seu marido? - a enfermeira sugeriu, cuidadosa.
       Max achava-se no meio de uma reunio com a procuradora de um cliente quando o celular tocou.
       Enquanto Maddy tentava relatar o acontecido, Max pde perceber o medo e a dor na voz da esposa. Ela estava muito doente... sua Maddy, e tambm assustada.
       - Lamento - ele disse  advogada. - Mas tenho de encerrar a reunio. Minha mulher no se sente bem.
       A procuradora, uma mulher sofisticada e de altssima reputao, cerrou os lbios. Havia pego o primeiro avio de Londres para comparecer quele encontro e 
no estava acostumada a lidar com colegas que priorizavam as esposas.
       Por outro lado, havia algo mais que irritao profissional. Max era um homem atraente e bonito. Ela no costumava envolver-se com charmosos associados, mas 
pensara em sugerir a Max um jantar aps a reunio. At considerara comprar um vestido que vira em uma butique elegante a caminho do escritrio de Max. No entanto, 
agora no precisaria de nenhum traje sedutor para vestir naquela noite.
       Max levou vinte minutos para chegar ao hospital. Encontrou Maddy sentada no leito em um quarto particular.
       Ele se aproximou e, quando a tomou nos braos/ Maddy caiu em prantos.
       -  O que aconteceu? O que ? - Max indagou, ansioso, tirando os cabelos do rosto que tanto amava sentindo o corao bater em disparada.
       Maddy era to preciosa para ele, representava o alicerce sobre o qual sua vida fora construda.
       A medida que ela lhe explicava a situao, Max tentou imaginar como conseguiria viver caso a perdesse. Todos os pecados que cometera no passado vieram  tona, 
tratava-se de seu mais profundo temor, o medo de que o mesmo destino que lhe dera tanto e perdoara muito preferisse, maldosamente, puni-lo atravs do que ele mais 
amava.
       E, em sua vida, no havia ningum que mais amasse alm de Maddy.
       De modo racional, sabia que tais temores eram infundados e ilgicos, mas a mesma fora que lhe mostrara os erros e abrira a porta de seu corao para o amor, 
tambm fizera surgir nele o pavor de perder aqueles que amava.
       Ele escutava Maddy dizendo-lhe algo.
       Para alm das batidas frenticas de seu corao, Max ouvia a voz de Maddy. Determinado, concentrou-se no que ela dizia.
       O obstetra informara que Maddy estava sofrendo de pr-eclampsia, uma condio que, caso no fosse tratada, ameaaria a vida dela e a do bebe. O tratamento 
ideal, portanto, seria mant-la no hospital, onde o progresso poderia ser monitorado. Sendo assim, ela no teria permisso de voltar para casa at que o mdico estivesse 
certo de que haveria melhora.
       Uma enfermeira apareceu no quarto e avisou Maddy que precisava manter-se calma.
       -  Posso ver o Dr. Lewis? - Max perguntou  mulher.
       - Ele est com outra paciente no momento e no sei quando estar disponvel.
       -  Vou esperar - ele informou em um tom que no admitia protestos.
       - Oh! Max, estou to apavorada - Maddy confessou. - E sinto-me culpada. Se eu no houvesse faltado  ltima consulta pr-natal, o mdico teria descoberto 
o problema a tempo de poder reverter o quadro. Mas Ben estava mal e...
       Seu av! Max fechou os olhos a fim de controlar a raiva.
       - Voc vai ficar bem - tentou tranqilizar Maddy. - Voc e o beb.
       Dez minutos mais tarde, depois de pedir-lhe para no se preocupar e prometer ligar para Jenny, pegar as crianas na escola e trazer uma maleta de roupas ao 
hospital, Max beijou a esposa e seguiu a enfermeira que o levaria at o obstetra.
       - No h nada que possa fazer?
       - No sentido de fazer com que tal condio desaparea, no - o mdico respondeu. - Mas manter o quadro sob controle, sim. Nosso prioridade  baixar a presso 
sangunea de Maddy e, para tanto, temos de intern-la no hospital. To logo a presso esteja controlada, ela poder voltar para casa. Porm, no dever cometer excessos 
de nenhum tipo.
       - E se voc no conseguir baixar a presso? - Max arriscou.
       O mdico levantou-se e caminhou at a janela do pequeno consultrio, ficando de costas para Max.
       - Isso  inconcebvel.
       - Mas e se acontecer? - Max persistiu. Houve uma longa pausa antes de o Dr. Lewis responder.
       -  Se a condio seguir seu curso at o final do terceiro ms de gravidez, a placenta ir se deteriorar e, obviamente, afetar o beb. Na maioria dos casos 
- ele encarou Max -, quando isso acontece, a me sofre convulses, as quais, na pior das hipteses, danificam o crebro da me e do beb levando  morte de ambos.
       Plido, Max fitou o mdico sem nada dizer.
       - Hoje em dia, o risco de isso acontecer  mnimo - prosseguiu o obstetra. - Como lhe expliquei, agora que detectamos o problema, poderamos levar a presso 
sangunea de sua mulher ao normal e mant-la estvel.
       -  Voc disse poderamos - Max interveio. - E se no puder? - perguntou, temendo a resposta.
       Novamente, houve um profundo silncio antes de o mdico manifestar-se.
       -  Se existir qualquer tipo de ameaa  vida de sua esposa, ento teremos de discutir a possibilidade de interromper a gravidez.
       - Maddy est sabendo disso tudo?
       -  No. A essa altura, no acredito que seja necessrio ou construtivo incrementar a ansiedade de Maddy. E devo enfatizar que me refiro  pior das hipteses.
       -  No admitirei, de forma alguma, colocar em risco a vida de Maddy - Max anunciou ao obstetra.
       - Mesmo que isso signifique... sacrificar o beb. O mdico o fitou, solidrio.
       -  Aconselharemos voc e sua esposa quanto ao melhor curso das aes referentes ao desenvolvimento da gravidez.
       Desesperado, Max fechou os olhos. Sabia como Maddy reagiria. Era o tipo de pessoa que sempre colocava a necessidade alheia em primeiro lugar, ainda mais em 
se tratando do prprio filho.
       Em pensamento, Max amaldioou a si mesmo pelo fato de ela estar grvida. J haviam formado uma famlia de trs filhos. Viu-se, de repente, desejando que a 
quarta criana nunca fosse concebida dado o perigo que a gravidez representava para Maddy. Odiou-se ainda mais por viver tal sentimento. Sem dvida, o melhor que 
poderia acontecer seria interromper aquela gravidez.
       No seria uma atitude natural, visando o bem-estar de Maddy, eliminar o perigo que a ameaava?
       A culpa queimou-lhe a alma ao dar-se conta de um pensamento to cruel. A morte do prprio filho que nem sequer havia nascido.
       - Se a vida de Maddy estiver em risco, vocs podem agir - ele argumentou, mas o mdico negou, veemente.
       - S recomendaramos o trmino da gravidez se a vida de sua mulher estivesse gravemente ameaada, mas teramos de consult-la primeiro - disse o Dr. Lewis.
       Ele lamentava por Max, porm a vida de seus pacientes representava sua primeira preocupao. E, nesse caso, os pacientes eram Maddy e o beb ainda em formao. 
E havia outro problema que ele precisava revelar a Max.
       -  Sua esposa est com dezoito semanas de gestao - o mdico comeou de forma brusca. - Vinte semanas  o prazo mximo para efetivar o trmino da gravidez. 
Depois disso...
       - Depois disso, o qu? - Max podia sentir o gosto amargo do medo em sua boca. - Nesse caso, restam apenas duas semanas para baixar a presso sangunea de 
Maddy.
       - Estou ciente disso - o obstetra concedeu. - Foi uma infelicidade Maddy ter faltado  consulta pr-natal. Do contrrio, poderamos ter detectado o problema 
e alterado o quadro. - Dr. Lewis respirou fundo antes de continuar. - Imagino como deve estar se sentindo, mas tenho bebs prematuros sob meus cuidados que sobreviveram 
ao nascimento com vinte e trs semanas. Abortar... - Ele se calou ao divisar as turbulentas emoes que Max tentava controlar.
       - Maddy nunca concordar em sacrificar o beb
       - Max desabafou. - Preferir sacrificar a si mesma. - Como o mdico nada dissesse, ele protestou:
       - Pelo amor de Deus, sou eu quem deve tomar a deciso e arcar com a responsabilidade. Ela  minha mulher. J temos trs filhos.
       Max podia sentir o calor das prprias emoes queimarem-lhe os olhos. Seria ento o destino que o punia? Ao celebrar a unio, reafirmando as juras de amor, 
ele quase que literalmente semeou a morte de Maddy?
       -  Estamos falando de uma situao que talvez no chegue a ocorrer - Dr. Lewis lembrou-o. - Se Maddy responder bem e rapidamente ao tratamento, ela e o beb 
estaro fora de perigo. E necessrio, claro, que ela no seja submetida a nenhum tipo de aborrecimento ou presso. - Ele encarou Max. - Espero ter sido claro.
       Max assentiu. Sabia que o mdico o alertava para no discutir a situao com Maddy, muito menos expressar o prprio sofrimento.
       - Entendi. Preciso buscar as crianas na escola, mas quero sua permisso para traz-las aqui a fim de verem a me.
       -  Sim, voc tem minha permisso - Dr. Lewis concordou, aps uma pausa.
       -  E quero passar a noite aqui com ela - Max prosseguiu.
       Com um suspiro profundo, o mdico assentiu.
       - Mas se eu vir qualquer sinal de aborrecimento ou tenso em sua esposa, serei obrigado a pedir que voc e seus filhos se retirem.
       Atormentado, Max baixou o rosto.
       O celular de Jenny tocou no momento em que ela saa do supermercado com a inteno de visitar Olvia. Ao atender, escutou a voz de Max.
       - Me...
       - O que houve, Max? - Ela pressentiu a tenso no filho.
       - Estou no hospital.
       - Hospital? - Jenny apertou o telefone. - O que aconteceu... Ben?
       - No,  Maddy. Ela est sofrendo de pr-eclampsia. Ainda no sei o que vai acontecer - ele continuava, ignorando as perguntas ansiosas de Jenny. - Mas o 
mdico quer mant-la aqui. Esse  um dos motivos pelos quais estou ligando para voc. Poderia ir a Queensmead e verificar Ben? E, me, precisaremos de sua ajuda 
com as crianas tambm.
       - No se preocupe - Jenny assegurou-o. - Sabe que o ajudarei em que precisar.
       - Estou indo busc-las na escola. Pretendo traz-las at o hospital para ver Maddy. Se puder vir peg-las, passarei a noite aqui com Maddy.
       -  claro - Jenny concordou de pronto. - Vou at Queensmead agora para ver Ben.
       Ela sentiu o alvio na voz de Max quando este lhe agradeceu. Ao ligar o motor do carro, Jenny notou que as mos tremiam. Todos eles adoravam Maddy, sua natureza 
suave, a calma gentil, a habilidade de encontrar lugar em seu generoso corao at para pessoas intolerantes e difceis como Ben.
       Com esmero e pacincia, Maddy havia transformado o casaro frio e sem vida de Queensmead, o centro nevrlgico da famlia Crighton que ningum gostara de visitar, 
em um lar caloroso. O trabalho que realizava para a instituio Mes e Bebs era de valor incalculvel. Ela surpreendera a todos, inclusive a si mesma, no s com 
seu talento administrativo, como tambm angariando fundos. Por mais ocupada que estivesse, Maddy sempre achava tempo para os necessitados.
       Max a amava profundamente e se algo acontecesse a ela... Jenny sabia quo sria era a condio da nora e estava ciente do perigo que ela corria.
       Segurou com fora a direo do carro. A primeira coisa que fez ao chegar em Queensmead foi telefonar para Jon, mas o celular do marido caa somente na caixa 
postal. Agastada, Jenny jogou o telefone na bolsa sem deixar uma mensagem.
       Ben dormia em sua poltrona quando ela entrou na biblioteca. Acordou-o devagar.
       - Onde est Maddy? - ele indagou, irritado. - Estou com fome. Deve estar passeando com Max, suponho. Ela tinha de ficar aqui cuidando de mim, agindo como 
se esta casa fosse dela. Preciso tomar providncias.
       Reprimindo a indignao, Jenny explicou ao sogro o que havia acontecido. A famlia inteira fazia concesses para o sempre irascvel Ben, que jamais aceitou 
a morte do irmo gmeo. E, para piorar, ele vinha fazendo comentrios maldosos e irnicos a respeito de Maddy e Max e do futuro daquela casa,
       - David prometeu que, se papai deixar Queensmead para ele, imediatamente passar a escritura da propriedade para seu nome - Jon tentara assegurar Max.
       No entanto, Jenny sabia que Max sentia-se bastante preocupado a ponto de comprar um terreno do outro lado da cidade, no qual esperava construir uma casa para 
si, caso Ben levasse adiante suas ameaas e o deserdasse.
       Quando Jenny entrou no hospital, encontrou o filho e os netos na sala de espera. Ele correu para abra-la.
       -  Posso v-la? - Jenny perguntou, aps beijar as crianas.
       - Ela est dormindo agora - Max avisou-a. -  tudo minha culpa - acrescentou, emotivo.
       O sofrimento estampado nos olhos do filho cortou o corao de Jenny. Em silncio, ela o abraou na tentativa de consol-lo, mas estava to assustada quanto 
ele.
       - A medicina est to avanada hoje em dia - Jenny comentou, esperanosa.
       -  Eu devia ter presumido... Sabia que ela no andava se sentindo bem. - O voz soava rouca. - Onde est papai? - ele indagou, de repente. - Pensei que ele 
viesse com voc.
       -  Seu pai est em Fitzburgh Place. Pelo jeito, David ligou para ele enquanto jogava golfe e disse-lhe que lorde Astlegh queria v-lo.
       Jenny forou um sorriso. Diante da agonia que o filho estava vivendo, a ltima coisa que queria era mostrar-lhe quo enciumada se sentia.
       - Vou levar as crianas para casa e no se preocupe com mais nada. Ficarei em Queensmead com elas e as levarei  escola amanh de manh.
       Da janela da pequena sala que usava como escritrio, Olvia podia ver Amlia e Alex brincando no jardim. Por enquanto, pareciam felizes em aceitar que Caspar 
ficara na Amrica, mas em breve sentiriam falta do pai e fariam perguntas.
       Ficariam tristes, claro. Elas adoravam Caspar. No entanto, estariam melhor vivendo somente com a me em uma atmosfera saudvel a suportar o tipo de sofrimento 
que Olvia conhecera quando criana sabendo que os pais eram infelizes juntos.
       A agitao aumentou e o corao disparou com aquela familiar intensidade. Olvia odiava o medo que ameaava cindi-la, detestava a sensao de perda de controle 
que ele trazia.
       Puxou os cabelos para trs e esfregou a nuca com o intuito de aliviar a dor de cabea. Passara a ltima hora lendo as anotaes que fizera antes de viajar. 
Porm, em vez de acalm-la, diminuir a ansiedade, o trabalho apenas aumentara o incomodo.
       Pensou em Jenny e olhou, aflita, o telefone. A tia no ligara para ter notcias. Mas por que o faria? Olvia era somente a sobrinha. Jenny tinha filhos e 
filhas que eram mais importantes que Olvia. E havia tambm os netos... os quais a tia amava mais que a Amlia e Alex.
       Teimosa, Olvia engoliu a dor que a raiva causava-lhe na garganta.
       Tnia, sua me, jamais vira as netas.
       - Querida, eu adoraria ver o beb - ela anunciara ao telefone aps o nascimento de Amlia. - Mas no h meios de eu voltar a Haslewich... - Olvia lembrava-se 
de ter imaginado o tremor do frgil corpo da me ao proferir tal palavra. - E mesmo que eu pudesse, sei que meu adorado Tom no permitiria. Ele no acredita quo 
cruel seu pai foi comigo. E receio que no possamos convid-la para vir at aqui. No temos espao...
       E era bvio que sua me no queria criar espao. Olvia soubera disso na poca, mas para amenizar o sofrimento havia Jenny, pronta para receb-la de braos 
abertos e tornar-se a adorvel av substituta para as meninas.
       Ento,-um aps o outro, os filhos de Jenny se casaram e produziram netos para ela, e Olvia teve de se distanciar um pouco devido ao instinto maternal de 
proteger as filhas do abandono que ela prpria havia sofrido.
       A toda parte, Olvia parecia no ser to valorizada quanto as outras pessoas. Nem mesmo os prprios pais a tinham amado de verdade. E Ben, seu av, elegera 
Max o seu preferido s para espezinh-la.
       No trabalho, ela tentara provar que podia dar duro como qualquer homem. At Gaspar, que ela pensava amar, escolhera estar com a prpria famlia e no com 
a esposa.
       Do lado de fora o sol brilhava, radiante. Mas tudo que Olvia podia ver era o futuro cinzento que se estendia a sua frente.
       Jon achou estranho encontrar a casa vazia. Onde estaria Jenny? Sabia que ela havia planejado visitar Olvia, mas imaginara que voltaria cedo.
       O aroma familiar do jantar de domingo no invadia a imensa cozinha, tambm deserta como o resto da casa onde no reverberavam os rudos das crianas e dos 
amigos. Com remorso, lembrou-se de quantas vezes, quando os filhos eram adolescentes, desejara momentos de quietude. Instantes em que ele e Jenny pudessem ficar 
a ss. E agora que tinham tempo... Preocupado, Jon franziu o cenho.
       Se o incio do casamento fora difcil, os ltimos anos revelaram-se mais que compensadores devido  felicidade e ao amor que havia recebido. A descoberta 
de que Jenny, com quem se casara acreditando que ela jamais o amaria, investira tanta dedicao ao casamento trouxera uma nova vida  relao tambm em termos sexuais.
       Agora, no entanto, Jenny parecia no desej-lo mais. Jon gostava de v-la entretida com tarefas importantes. Apesar de ter vendido sua parte no antiqurio 
para o scio Guy Cooke, ela agora desempenhava um papel fundamental da instituio Mes e Bebes que sua tia Ruth havia fundado. Encontrava-se envolvida com a comunidade 
local tanto quanto dedicava-se aos filhos e aos netos.
       Ainda intrigado, Jon discou o nmero do celular de Jenny. Em se tratando da esposa era incomum chegar em casa sem um bilhete informando onde estava ou a que 
horas iria voltar.
       - Jenny?
       Ao atender o celular, ela esquadrinhou a cozinha de Queensmead a fim de ter certeza de que as crianas comiam o jantar que havia preparado.
       - Onde voc est? - Jon perguntou.
       - Em Queensmead.
       - Sei... e a que horas vai voltar? Rapidamente, ela lhe explicou o que acontecera.
       - Preciso permanecer aqui at que Maddy esteja recuperada.
       Jon ficou perplexo com a notcia.
       -  Irei at a - ele disse, e acrescentou: - Por que diabos no me telefonou imediatamente?
       - Tentei - Jenny retrucou -, mas voc no atendeu. Creio que o encontro de negcios que David marcou entre voc e lorde Astlegh era to importante que no 
permitia interrupes.
       Ao escutar o comentrio afiado, Jon suspirou. Odiava qualquer sinal de desarmonia entre eles e magoava-lhe saber que Jenny, a quem amava profundamente; no 
estava to contente com o retorno de David como ele.
       - Sim, desculpe-me, acho que deixei o celular no carro - Jon contou. - Freddy abomina esses aparelhos, de acordo com David.
       Jenny ficou tensa. Mesmo agora, diante do problema de Maddy, Jon insistia em priorizar David.
       - Tenho de desligar - ela avisou e interrompeu a ligao antes que Jon pudesse objetar.
       - Mame, este no  o caminho da escola - Amlia protestou.
       - Sei que no , querida. - Olvia avaliou o trfego. - Quero ver tia Jenny antes de levar vocs duas  escola.
       Na verdade, precisava pedir a Jenny que fosse buscar as meninas na sada da escola e, se possvel, permanecer com elas at que Olvia voltasse do trabalho. 
Sem dvida, teria de contratar algum para ficar com as filhas, mas isso levaria tempo e, por enquanto, necessitava desesperadamente da ajuda de Jenny.
       Frentica, tentou listar as tarefas que deveria cumprir. A escola precisava saber que Jenny pegaria as crianas, claro. A instituio administrava uma creche 
no perodo da tarde na qual Olvia podia matricular as meninas, se necessrio. E, at encontrar uma bab satisfatria, Jon talvez permitisse que ela levasse trabalho 
para casa.
       Tais encaminhamentos requeriam uma mudana em sua agenda. Alguns de seus clientes s tinham disponibilidade para v-la aps o expediente de trabalho, por 
isso ela chegava tarde em casa tantas vezes.
       Olvia suspeitava de que Jon j sabia da separao entre ela e Caspar. Podia imaginar como seria recebida por certos membros da famlia. Para aumentar sua 
angstia, Ben certamente a compararia a Max. Era evidente que Max possua o casamento perfeito, tal qual era perfeito em tudo mais.
       -  Mame! - Amlia gritou a tempo de Olvia divisar o ciclista e desviar dele e no o atropelar.
       - Esperem no carro - ela instruiu as meninas quando estacionou diante da casa de Jon e Jenny.
       Depois de atravessar o gramado o mais rpido que podia, uma tarefa complicada j que usava salto alto e saia, ela abriu a porta da cozinha.
       - Jenny! Sou eu, Olvia.
       - Livvy!
       Olvia estranhou ao ver Jon atarefado na cozinha e no Jenny.
       - Eu estava a caminho do escritrio -justificou-se na defensiva. - Queria saber se Jenny poderia pegar as crianas na escola hoje  tarde.
       -  Que pena, querida. Ela est em Queensmead - Jon contou-lhe.
       Queensmead. O corao de Olvia disparou. Levaria mais de dez minutos para dirigir at o casaro. Mas tinha de ver Jenny. Sem deixar que Jon dissesse mais 
nada, ela correu at o carro.
       Jon suspirou quando Olvia saiu. No teve chance de explicar-lhe o que ocorrera. J estava atrasado para encontrar um cliente quela manh. No havia dormindo 
bem pois sentira falta de Jenny na cama.
       Aflita, Olvia acelerou o carro. Iria chegar atrasada no escritrio, um fato que Jon j devia ter notado. Era um grande comeo para sua nova vida de solteira, 
pensou, irritada.
       A conscincia da prpria vulnerabilidade incrementava a raiva defensiva. Aps ter feito malabarismos para livrar-se do trnsito intenso e chegar a Queensmead, 
ela se viu em um estado de furiosa ansiedade.
       Parou o carro, apressou-se at os fundos do casaro e abriu a porta.
       Na cozinha de Maddy, Jenny tentava responder ao interrogatrio dos netos a respeito da ausncia da me deles.
       - Livvy! - ela exclamou ao ver Olvia entrar. A culpa a invadiu ao perceber que no tivera tempo de ligar para a sobrinha devido  preocupao com Maddy.
       Ao olhos de Livvy, a cena na cozinha de Maddy, onde a av preparava o caf da manh para os netos, representava a real diferena entre aquelas crianas e 
as de Olvia.
       - Lamento no ter telefonado para voc, querida - Jenny desculpou-se. - Mas, como pode ver... - Ela parou quando escutou o neto caula chorar no andar superior, 
pedindo a me.
       A sensao de que era indesejada parecia-lhe palpvel. Acuada, sem ter com quem contar e vida por amor maternal para as prprias filhas, Olvia perdeu o 
controle e explodiu.
       - Sim, posso ver como est ocupada, tia Jenny... . to ocupada que no teve tempo para mim!
       A intensidade dos sentimentos a fazia tremer.
       - Desculpe-me t-la incomodado. Claro que percebi que voc tem coisas mais importantes para fazer que me ajudar. - Sem dar a oportunidade  tia de explicar-se, 
Olvia precipitou-se para fora, batendo a porta ao sair.
       Impotente, Jenny ficou observando-a, dividida entre a vontade de ir atrs da sobrinha e atender ao enlouquecido choro no andar superior. Mas Olvia j havia 
manobrado o carro e agora seguia em disparada.
       Ao acelerar o automvel, Olvia tremia de raiva e amargura. Nutria uma forte ligao com Jenny, no s pela ajuda prtica, como tambm por ela ser uma aliada, 
algum em quem podia confiar seus segredos. Porm, Jenny no tinha tempo para ouvi-la.
       As emoes ameaavam sufoc-la, mas tinha de levar as filhas  escola e precisava trabalhar. O que esperava que Jenny fizesse, tomasse-a nos braos e lhe 
dissesse que tudo iria acabar bem?
       Uma lgrima rolou sobre a face plida. Revoltada, ela a enxugou. Nada dava certo em sua vida e nunca daria!
       Na escola, enquanto as meninas se juntavam aos colegas, Olvia procurou a professora para tentar matricular as filhas na creche.
       Eram quase nove horas e, em geral, ela costumava estar sentada a sua mesa mais cedo. Agora a conhecida sensao de ansiedade enrijecia-lhe o corpo inteiro.
       - Livvy, minha querida...
       Jon espantou-se quando Olvia afastou-se dele.
       - Lamento o atraso. Tive de deixar as meninas na escola.
       - Santo Deus, Livy, eu nem sequer esperava v-la hoje. Ficamos sabendo da separao. Sinto muito.
       - Por qu? - ela o questionou, feroz. - O casamento no estava dando certo. Foi uma deciso mtua.
       Jon ficou ainda mais preocupado. Ela estava visivelmente mais magra e o rosto, plido. Contudo, foi a atitude hostil que o deixou alarmado. Imaginava encontr-la 
aborrecida... sabia quanto ela lutava para manter perfeito cada aspecto de sua vida e quo sensvel era. Mas aquela agressividade explcita no se parecia em nada 
com a doce Olvia que ele conhecia.
       Dez minutos depois, quando Olvia entrou em sua sala, o telefone j estava tocando. Ela o atendeu de pronto. Um de seus clientes queria marcar uma reunio 
com urgncia. Tensa, pegou a agenda.
       Meneando a cabea, Jon caminhou em direo  prpria sala. Em circunstncias normais, sua primeira atitude seria ligar para Jenny a fim de discutir o assunto 
e, com ela, encontrar um meio de ajudar a sobrinha. Mas Jenny estava em Queensmead e ele no queria preocupar ainda mais a esposa.
       No obstante, o olhar hostil de Olvia o assustou. Ela agira como se Jon fosse um inimigo. Devia estar imaginando coisas, disse a si mesmo. Era natural que 
a sobrinha se comportasse de forma incomum. O fim do casamento corroborava a angstia que ela vinha sentindo devido  volta de David.
       Era triste v-la to antagnica em relao ao pai. Jon entendia,  claro, o ponto de vista de Olvia, mas a situao agora era diferente. David havia mudado 
e almejava reparar os erros que cometera no passado. Infelizmente, Olvia parecia ter construdo uma potente barreira entre ela e o pai.
       O telefone tocou assim que a secretria lhe trouxe a correspondncia e uma xcara de caf.
       - David! - ele exclamou, feliz em escutar a voz do irmo gmeo.
       - Acabamos de saber que Maddy encontra-se no hospital - David disse. - Como ela est, Jon?
       - No sabemos ainda, mas o mdico quer mant-la em observao at que o quadro sofra alguma alterao. Jenny est em Queensmead com as crianas e Ben.
       - Isso responde  minha prxima pergunta. Honor se disps a ajudar no que for preciso.
       - Bem, se ela puder criar uma poo mgica para manter papai na linha, seria timo - Jon brincou.
       Houve uma breve pausa, antes de David indagar, hesitante:
       - E Livvy... como vai ela?
       Jon no podia mentir para o irmo.
       -  Livvy est passando por um momento muito difcil, David, e, obviamente, tudo parece afet-la - foi apenas isso que Jon conseguiu dizer.
       Somente na hora do almoo, Jon voltou a cruzar com Olvia na recepo da firma.
       - Livvy, esqueci de lhe dizer hoje de manh.  evidente que vai passar mais tempo em casa durante esse perodo. Vou conversar com Mark, seu substituto, para 
pedir-lhe que fique mais algumas semanas. Assim, voc ter mais tranqilidade. Se tiver de ver algum cliente,  melhor marcar o compromisso pela manh, quando as 
meninas estiverem na escola. Dessa forma poder chegar mais tarde no escritrio e sair no meio da tarde.
       Olvia ficou paralisada. No importava o fato de que a sugesto de Jon condizia com o que ela havia programado. Pressentia certa cautela da parte dele. Seu 
tio estaria duvidando de sua competncia como advogada? Onde fora parar a proximidade entre ambos?
       -  No ser necessrio - ela anunciou, fria. - J me programei em relao s meninas.
       No era inteiramente verdade, mas com tantas agncias especializadas no seria difcil encontrar a pessoa certa para cuidar das filhas enquanto Olvia estivesse 
ocupada.
       - O tribunal entrar em recesso - Jon lembrou-a. - E se tiver algum caso em processo, voc poderia ir a Chester...
       -  Chester  do outro lado do universo - Livvy retrucou.
       Abismado, Jon observou-a retirar-se a passos duros. No gostava de v-la to defendida. Sempre fora uma garota adorvel, embora tmida e decidida a mostrar 
o prprio valor. Este era o resultado da presso que Ben e os pais dela haviam imposto, sem dvida.
       Mas, aps a adolescncia, to logo sara do casulo, Olvia mostrara-se alegre. E Jenny, Jon tinha certeza, possua um lugar especial para a sobrinha em seu 
corao.
       - Livy, como vai?
       Pelo tom de voz de Tullah, Olvia deduziu que ela j sabia da separao. A bem da verdade, Olvia gostava de conversar com Tullah, mas naquele momento s 
conseguia pensar em quo afortunada ela era por ter um marido como Saul, que a amava, valorizava e respeitava.
       - Estou bem - Livvy respondeu, distante e sem vontade. Quando fez meno de se afastar, Tullah a interpelou novamente.
       - Conversou com Jenny hoje?
       - Muito rapidamente - Livvy respondeu, mais uma vez tentando sair da recepo e refugiar-se em sua sala.
       - Ela comentou algo sobre Maddy? Ou por quanto tempo o mdico ir mant-la no hospital? Max est enlouquecendo...
       -  Maddy est internada? - Olvia, dessa vez, no conseguiu esconder a emoo.
       - Est, sim. No sabia? - Tullah parecia confusa. - Quando ela foi ao hospital para uma consulta de rotina, disseram que ela tinha de ser internada porque 
est sofrendo de pr-eclampsia. Saul telefonou para Max, por acaso, e foi assim que ficamos sabendo. Tentei ligar para Jenny, mas no consegui.
       Olvia no mais se concentrava nas palavras de Tullah. Atarantada, lidava apenas com o choque e a culpa que a invadiam. Jenny cuidava dos netos porque Maddy 
encontrava-se doente no hospital, e ela havia dito...
       A lancinante sensao, somada  ansiedade desmedida, agora travava-lhe a garganta e a fazia esquecer-se do prprio desespero e infelicidade.
       - No sabia - Olvia murmurou. - O que o mdico disse? Quanto tempo...
       - No estou a par dos detalhes - Tullah a interrompeu, e ambas trocaram olhares cmplices como mulheres e como mes, partilhando os sentimentos por Maddy, 
a amiga e parente que tanto amavam.
       - Tentei falar com Jon antes de ele sair - Tullah confessou. - Mas no consegui pois estava ocupada com um processo. E, como supus que voc houvesse estado 
com Jenny, imaginei que teria notcias de Maddy.
       - Foi uma visita rpida... hoje de manh, quando eu vinha para c - Olvia justificou-se, constrangida.
       Ela parecia to angustiada que Tullah arrependeu-se de ter tocado no assunto.
       Durante a tarde, enquanto devia estar concentrada no trabalho, Olvia ponderava acerca da atitude que tomaria a fim de remediar a situao. Sabia o que queria 
fazer. Desejava ir diretamente a Queensmead e implorar o perdo de Jenny, suplicar para que a tia a compreendesse.
       Mas e se Jenny a rejeitasse? E se estivesse to indignada, to desgostosa por causa do comportamento egosta de Olvia, a ponto de negar-lhe o pedido de desculpas 
e a explicao? Ela teria todo o direito de agir assim... Livvy estava ciente de que fora egocntrica e rude.
       Sentiu-se estonteada de culpa ao relembrar as palavras acusatrias que havia proferido contra a tia.
       E quanto a Maddy? Como ela devia estar se sentindo? Olvia fitou o telefone sobre a mesa.
       Antes de mudar de idia, pegou o aparelho. Em menos de dois minutos, entrou em contato com o hospital.
       - No temos autorizao de passar a ligao para o quarto da Sra. Madaleine Crighton - a voz inspita da telefonista informou educadamente. - A senhora  
parente prximo da enferma?
       - Na verdade, no - Olvia respondeu. - Sou sua prima por casamento. Ela... - Quando a ansiedade comeou a oprimi-la, a voz falhou.
       - Ela est descansando no momento - a mulher disse com calma. - Se quiser deixar um recado, ns o daremos a ela.
       - Diga-lhe que estou pensando nela, por favor - Olvia pediu, aps fornecer o prprio nome.
       Ajudaria a Maddy saber que Olvia pensava nela ou isso s incrementaria seu sofrimento?
       Ao desligar o telefone, Olvia estava trmula de vontade de falar com Jenny. Respirou fundo e discou o nmero de Queensmead.
       -  Jenny est hospedada em Queensmead para cuidar das crianas - Tullah havia dito.
       Como somente a secretria eletrnica respondesse, Olvia desistiu.
       Por piores que fossem seus problemas, nem sequer se comparavam aos de Maddy e ao que os mais prximos a ela estavam passando.
       Nick suspirava enquanto dirigia por Haslewich. Por mais que apreciasse a companhia e a hospitalidade de Saul e Tullah, no via a hora de retomar sua vida 
e voltar para casa.
       - Nem pensar, irmo - Saul negara, veemente, quando Nick aventara a hiptese. - Eu o conheo. Com mame e papai longe, no instante em que voc chegar quela 
sua residncia remota, voltar ao trabalho. E Deus sabe que tipo de riscos estaria correndo sozinho naquele lugar...
       - Est certo - Nick rendera-se.
       A pequena fazenda galesa localizava-se em um local ermo, a quatro quilmetros de uma estreita estrada sem nenhum vizinho. Saul tinha razo, em alguns dias 
estaria de volta  ativa.
       Antes do acidente, Nick estivera prestes a assumir um caso fascinante. Uma jovem ameaava processar os prprios pais por a terem livrado de um culto .sinistro 
no qual comeava a se engajar. Um amigo da famlia havia procurado Nick para pedir conselhos.
       Porm no era no trabalho que a mente de Nick se detinha naquele momento. Era em Sara!
       Tinha total conscincia de que seu comportamento no restaurante - para ser mais especfico, no escritrio - no representara um exemplo de cavalheirismo. 
No importava o fato de ter sido provocado. Precisava readquirir controle sobre a situao. E outro pedido de desculpas significava ordem e educao. Ou, ao menos, 
era assim que ele pensava.
       Naquele incio de tarde, Francs fechava a conta de alguns clientes que terminavam de almoar quando ele entrou no restaurante.
       - Eu poderia conversar alguns minutos com Sara? - Nick pediu, aps cumprimentar Francs.
       - Oh!? lamento, ela no se encontra no momento. Est em horrio de almoo. Insisti para que ela sasse a fim de aproveitar esse raro dia ensolarado. Quer 
que eu lhe transmita algum recado?
       Declinando a gentileza, Nick saiu do restaurante. Era verdade que o clima estava quente e agradvel. De longe, divisou o brilho dourado da superfcie do rio. 
Nick amava gua. Em sua fazenda havia uma colina de onde se podia ver o mar da costa de Pembrokeshire.
       No possua um barco, mas, s vezes, navegava com um amigo que comprara um pequeno veleiro. Por impulso, comeou, a caminhar em direo ao rio.
       Sara parou para observar a atividade de alguns patos que mergulhavam com o intuito de se alimentar. A distncia, na margem, avistou cisnes que flutuavam, 
elegantes na superfcie. Tal qual um navio, os animais cortavam a gua sem nenhum esforo. Ela era a nica presena humana no rio e, graas  insistncia de Francs, 
podia usufruir daquele instante.
       -  No acredito que j tenha feito tudo isso - Frances comentara ao ver o trabalho de Sara. -  maravilhosa, Sara. Sou to grata a voc.
       Naquele mesmo dia, Sara havia recebido um telefonema da agncia. Constrangidos, eles explicaram que a mulher a qual pretendiam enviar tinha desistido do emprego. 
No importava, Sara lhes dissera, pois o cargo j fora preenchido. Por que decidira ficar? Ela gostava de Francs, mas...
       De sbito, a imagem de Nick Crighton surgiu-lhe  mente. No estava em Haslewich por causa dele!, ralhou consigo mesma. Ele era arrogante, mal-humorado, competitivo 
e... pior! Furiosa, respirou devagar a fim de recobrar o flego.
       Nick avistou Sara antes que fosse visto. Ela ria da movimentao dos patos que observava, enquanto os cabelos sedosos e brilhantes, devido aos raios de sol, 
voavam com a brisa. Sara usava uma blusa de malha justa que realava a suave curva dos seios. Nick logo sentiu a imediata reao primitiva de seu corpo ante tamanha 
feminilidade.
       Quando ela o viu, a expresso tornou-se hostil.
       Nick fez meno de aproximar-se, mas Sara recuou, deixando, de propsito, alguns metros de distncia entre ambos antes de iniciar o trajeto de volta.
       - Sara...
       Ao escutar Nick cham-la, ficou tensa. No era idiota o suficiente para fingir que ficara impressionada com o beijo, e tampouco faria alarde a respeito disso. 
No entanto, tinha conscincia de como ele a afetava e de quo estrondosa fora a experincia de beij-lo.
       Deduzira atravs dos comentrios de Francs que, para os padres dos Crighton, Nick representava a ovelha negra da famlia. Sara nada dissera quando Francs 
lhe contara que ele valorizava a prpria liberdade e evitava qualquer tipo de envolvimento permanente. Contudo, ao se apaixonar, tudo mudaria.
       - Os Crighton so homens de uma mulher s - ela informara a Sara, sorrindo ante a incredulidade da jovem. - Desde que encontrem a mulher certa.
       - Mas gostam de experimentar vrias antes de encontrar a ideal - Sara sugerira, crtica.
       Para uma mulher de sua idade e origem, Sara acreditava ter uma experincia sexual razovel, mas admitia que o beijo de Nick havia superado seu conhecimento 
no assunto. Portanto, ela precisava estar alerta para que tal rompante no se repetisse.
       Nick significava problemas, um homem que ela no queria em sua vida. Sara aproveitava a liberdade e adorava saber que possibilidades ilimitadas encontravam-se 
a sua frente. No pretendia envolver-se com ningum, muitos menos com um dos Crighton.
       - Sara, espere! - Nick gritou. Desconfiada, ela esperou.
       - Sinto que lhe devo desculpas.
       - Outra vez?
       No mesmo instante, Sara notou que cometera um engano. O rubor nas faces de Nick no era constrangimento, era raiva.
       - Pelo amor de Deus! - ele exclamou. - Isso  ridculo. No vamos perder tempo com picuinhas. Somos adultos e ambos sabemos o que houve. Mas, neste exato 
momento, no estou disponvel para um relacionamento.
       Sara o encarou. A declarao a espantou e, por um minuto, ficou tentada a fingir que no havia entendido. Mas estava ocupada demais tentando ignorar a sensao 
de desapontamento que tais palavras causaram.
       - Que timo, porque tambm no estou em posio de iniciar um relacionamento - ela mentiu. - Alis... - Olhou o dedo da mo esquerda, embora parte de si desaprovasse 
o que pretendia fazer. Ignorou o aviso, j que o perigo e a excitao percorriam suas veias, incitando uma desconhecida rebelio.
       - Voc  casada - Nick concluiu, chocado.
       - Ainda no - Sara admitiu.
       O que diabos ela estava fazendo? Porm, era tarde demais para retroceder.
       - H algum em sua vida? - Nick insistiu.
       - Sim - Sara confirmou, cruzando os dedos sem que ele percebesse.
       - Entendo. - Nick tentou controlar os sentimentos. A raiva, a aguda sensao de posse e o desejo de remover qualquer homem que estivesse na vida dela  fora, 
se necessrio, surgiram de uma s vez. As emoes eram totalmente ridculas e irracionais, pensou, irritado.
       De repente, lembrou-se de algo.
       - Diga-me, o que quis dizer com aquele comentrio sobre os Crighton nunca se desculparem?
       Sara deteve-se. No havia motivos para mentir ou amenizar a verdade. Por que o faria?
       - Meu av  casado com a ex-mulher de David Crighton.
       - O qu? - Nick pareceu aturdido por um instante. - Refere-se  me de Olvia e Jack... Tiggy...
       Tnia... - ele gaguejou, na tentativa de recordar o nome.
       - Tnia. Isso mesmo - Sara confirmou.
       -  Mas Tnia... - Nick comeou, lembrando-se dos boatos que escutara na famlia.
       - Ela o qu? - Sara perguntou, beligerante. Nick meneou a cabea. No havia meios de descobrir o que Sara sabia acerca do passado de Tnia.
       Quando percebeu que ele no diria nada, Sara comeou a afastar-se. Aps alguns passos, escutou-o perguntar:
       - Como ele se chama?
       - Quem? - ela indagou, virando-se.
       - O homem.
       - O homem? - Aflita, Sara procurou pensar em um nome bem msculo, enquanto Nick a observava.
       Essa foi a dica de que ele precisava.
       - No existe esse homem, certo? - ele a desafiou. Sara o fitava, sem fala. Podia sentir as faces corando.
       - Por que mentiu, Sara?
       Tamanha perspiccia a enervou sobremaneira.
       - No sei.
       - Sabe, sim - Nick a corrigiu. - Foi por causa disso, no?
       Antes que ela pudesse impedi-lo, viu-se envolvida pelos braos de Nick e por um beijo ainda mais passional que o primeiro.
       Lutou para no reagir a ele, mas cada tecido de seu corpo reverberava a intensidade do gesto sensual. Podia sentir a excitao de Nick e sabia que sua prpria 
carne almejava a dele. Era como se Nick exercesse uma poderosa fascinao a qual ela no conseguia controlar ou resistir.
       Sentia o corpo queimar de desejo e uma onda selvagem de urgncia, completamente desconhecida e louca, a invadia. Sem o controle da mente, Sara tinha certeza 
de que o prprio corpo se entregaria a Nick, caso ele a deitasse sobre a relva e completasse o que havia comeado da forma mais ntima e intensa.
       Sentiu uma dor aguda no ventre, quase to chocante quanto o beijo de Nick, De olhos fechados, as imagens dos corpos nus a atormentavam. Podia imaginar como 
ele seria, como o acariciaria, como iria sabore-lo. Oh! sim... ela queria tudo isso... ela o desejava muito.
       As palavras ainda ecoavam em sua mente, quando Nick interrompeu o beijo. Ambos estavam ofegantes, ela notou. E tambm reparou, envergonhada, que sua ateno 
dirigia-se  cintura de Nick.
       - Isso no vai acontecer - Sara afirmou.
       O rosto de Nick parecia plido, apesar da pele morena.
       - J aconteceu - ele murmurou. - E que Deus nos ajude - Sara escutou-o dizer, antes de v-lo virar-se e partir.
       De certa forma, sentiu-se consolada ao ver que Nick ficara to perturbado quanto ela. Medo e excitao - onde um comeava e o outro terminava? Ciente da pesada 
sensao do desejo e dos seios trgidos, Sara caminhou devagar em direo ao restaurante.
       Luxria! Nunca se imaginara experimentando tal sentimento, mas agora estava definitivamente atrada por Nick Crighton. Desejava-o, queria entregar-se a ele, 
almejava-o para si.
       Sara gemeu, atormentada pelos pensamentos que a assolavam.
       Jenny olhou o relgio da cozinha de Queensmead. Eram quase trs e meia. Em breve, Max chegaria com as crianas. Ele havia telefonado para avisar que pegaria 
os filhos na escola quando sasse do hospital.
       Do relgio Jenny olhou para o telefone. Devia tentar falar com Livy agora?
       Passara o dia pensando na sobrinha, preocupada com ela e Maddy. Sentia culpa devido ao que acontecera naquela manh. Sabia quo sensvel Livvy era, quantas 
vezes ela tendia a repetir as dores marcantes da infncia.
       Jon pensava em Livy e Jack, agora que se dedicava a David?, Jenny refletiu.
       Precisava conversar com Olvia e resolver aquela pendncia. Ningum alm de Jenny sabia quanto o fim do casamento devia estar magoando Livvy. Mas queria faz-lo 
frente a frente e onde pudesse oferecer o tempo e a ateno de que Olvia necessitava.
       Entristecida, lembrou-se de quo feliz e animada a sobrinha estava quando se casou. Ela e Caspar formavam um belo casal, eram perfeitos um para o outro. Jenny 
os visitara no incio do casamento, o lar de ambos parecia repleto de alegria e amor, em especial quando Olvia ficara grvida de Amlia.
       Em que poca tudo comeou a dar errado e por que Olvia no lhe confidenciara os problemas conjugais? Teria ela tentado? Estaria Jenny to envolvida com outras 
pessoas a ponto de no notar?
       Os ltimos anos haviam sido turbulentos para todos, mas no podia deixar Olvia pensar que no se importava com ela.
       A porta da cozinha se abriu e Max e as crianas entraram.
       - Como est Maddy? - Jenny indagou, ansiosa, enquanto retirava as mochilas de Leo e Emma e pegava Jason dos braos do filho.
       - Os mdicos ainda esto lutando para abaixar a presso sangunea. Porm, ainda no houve nenhuma melhora na condio de Maddy.
       Consciente da necessidade de manter a segurana da rotina das crianas, Jenny as abraou e disse-lhes que serviria leite e biscoitos to logo elas tirassem 
os uniformes da escola e lavassem as mos.
       - No estou com fome - Leo declinou. Os lbios do menino tremiam e havia medo em seus olhos. Jenny sentiu o corao se apertar. Ele sempre fora uma criana 
sensvel, mais apegado  me que ao pai nos primeiros anos de vida, embora ele Max agora tivessem um estreito lao de amizade.
       -  Quando mame vai voltar? - Leo perguntou ao pai.
       - Assim que ela estiver melhor - Max respondeu.
       - Quero que ela volte agora - ele teimou, choroso.
       - Eu tambm, filho. - Max tomou o menino nos braos, abraou-o com fora e o beijou.
       - Mame vai morrer, pai?.- Leo murmurou.
       -  Claro que no, querido - Jenny adiantou-se ao perceber que Max estava dominado demais pelas emoes para conseguir responder.
       Doa-lhe a alma de me testemunhar aquele homem, o filho formidvel e forte que lhe era to caro, to vulnervel e  merc dos prprios sentimentos.
       - Desculpe-me - Max disse a Jenny, cinco minutos depois de ela acalmar Leo com o exmio talento maternal e pedir s crianas que subissem para se trocar.
       - No sei como lidar com a situao - ele continuou, desabafando. - Oh! Deus, se algo acontecer a Maddy...
       Max estava angustiado ao extremo. Jenny aproximou-se, comovida.
       -  Sei quo preocupado est, filho. Mas Maddy encontra-se em boas mos.
       Max desviou o olhar. Havia conversado com Dr. Lewis naquele dia, quando fora visitar Maddy.
       - No. Sinto dizer-lhe que ainda no houve nenhuma mudana significativa - o mdico respondera  pergunta ansiosa de Max.
       Cada dia que passava aproximava-os do prazo de vinte semanas e do perigo que a vida de Maddy corria.
       Aps falar com o mdico, Max dirigira-se ao quarto de Maddy e a escutara dizer quo culpada se sentia por estar to ociosa naquele leito. Contra a vontade, 
ele fitou o ventre da esposa, cuja pequena protuberncia escondia-se sob os lenis do hospital.
       Naquele corpo jazia uma nova vida pela qual ele era responsvel. O corao do beb em formao j batia, revelando a existncia ameaadora. Se ocorresse um 
fim espontneo para a gravidez de Maddy... Ela, sem dvida, iria sofrer, Max concluiu. No entanto, com o tempo, Maddy aceitaria o fato como obra da natureza, e no 
uma violenta interveno do homem.
       Por favor, Deus, faa com que a presso abaixe,
       Max havia orado ao segurar a mo da esposa, embora ainda fitasse o ventre.
       -  No acha que temos muita sorte? - Maddy sussurrara, levando a mo do marido ao ventre. - Todos os dias digo ao bebe que ns o amamos demais.
       - Ela sorriu, meiga. - Dizem que  impossvel para o beb ter conscincia das emoes nesta fase, mas discordo. Creio que nosso filho j sente que o amamos 
e o desejamos.
       Cada palavra parecera aumentar a culpa e o medo de Max. Mesmo que desconhecesse a reao de Maddy ante a sugesto de finalizar a gravidez, s de escut-la 
naquele momento ele saberia.
       Max sentia a tenso percorrer seu corpo. No era amor que sentia pelo beb, era...
       Maddy o observava com explcita curiosidade quando ele afastou a mo.
       - Max? - Jenny o chamou.
       - A presso de Maddy ainda no se alterou. Caso o quadro continue assim... - Max sentia a garganta se apertar, dificultando-lhe a fala. - Se ela no melhorar, 
o nico jeito de garantir sua segurana ser provocar um aborto.
       Jenny entrou em pnico.
       - Maddy sabe disso? - ela perguntou.
       - No. Dr. Lewis acha que a presso pode piorar,' caso ela fique sabendo das conseqncias. Que sentido h em deixar uma mulher como Maddy morrer
       - Max esbravejou, angustiado. - Vou voltar ao hospital - disse a Jenny, ao se controlar. - Provavelmente passarei a noite l. S Deus sabe o que nos teria 
acontecido sem sua ajuda, me.
       Jenny pensara em sugerir a Max que passasse aquela noite com os filhos para que ela pudesse visitar Olvia, mas, vendo a aflio de Max, mudou de idia. Precisava 
pedir a Jon que viesse ajud-la, decidiu, quando as crianas entraram na cozinha.
       Enquanto Max beijava cada filho, o corao de Jenny chorava por ele. Maddy era a mulher mais maternal que ela conhecia. Preferiria morrer a destruir a vida 
do prprio beb. Um arrepio glido percorreu a espinha de Jenny.
       Por favor, Deus, ajude Maddy a melhorar. Poupe-nos desse sofrimento!, Jenny rezou em silncio quando Max saiu.
       Pela milionsima vez, Annalise Cooke tirou a carta de Jack da mochila e voltou a l-la. No precisava, pois havia decorado cada palavra, mas ainda assim tinha 
necessidade de ler os dizeres, tocar o papel s para se assegurar e confortar.
       As aulas haviam terminado naquele dia e ela estava a caminho da estao para esperar Jack.
       "Vou para casa. Assim poderemos conversar melhor", ele escrevera em resposta  carta que Annalise lhe enviara. "Chegarei no trem das quatro e meia. Tente 
me encontrar na estao."
       Jamais sonhara que o final de semana maravilhoso que haviam passado juntos resultaria em algo semelhante. Jack fora to cauteloso! Annalise sentira-se to 
exultante quando viajara ao norte para estar com ele.
       Ficaram no dormitrio universitrio que Jack ocupava, e ela se achara to adulta pelo fato de jantarem fora e depois retornarem ao ninho de amor. O pai de 
Annalise ignorava as atividades da filha. Ele e os filhos haviam viajado para pescar, e Annalise telefonara a Jack para lhe dizer que, enfim, ficariam juntos.
       Jack alegara precisar esperar mais tempo antes de fazerem amor, mas aquela oportunidade se apresentara e fora a experincia mais encantadora do mundo. Perfeita 
em todos os sentidos, tudo que ela havia imaginado e mais.
       Terno, Jack fizera amor com ela como se Annalise fosse a garota mais preciosa e amada do universo, e no doera nada. Ela rira de nervoso quando o observou 
colocar o preservativo que Jack insistira em usar. Depois, ao retornar ao mundo real, Annalise questionara a eficcia do anticoncepcional.
       Para provar a segurana do preservativo, Jack a tomara nos braos novamente e, por duas vezes naquela noite, ela imaginara estar no paraso.
       Annalise no gostava de enganar o pai, especialmente quando Jack confessara que queria contar tudo ao Sr. Cooke e dizer-lhe que planejava casar-se com ela. 
Mas Annalise conhecia bem o pai, e sabia que ele jamais aceitaria que a filha de dezessete anos perdesse a virgindade.
       E, mesmo aps aquele fim de semana, a felicidade no a abandonou. A cada noite, quando se deitava, imaginava que Jack estava com ela, revivia tudo que ele 
fizera, os beijos, as carcias, as promessas de amor sussurradas e o compromisso. Porm, os sentimentos se transformaram em ansiedade, e esta em medo quando, semanas 
depois, ela no menstruara.
       Estava com duas semanas de atraso. O corao batia acelerado. Quisera telefonar a Jack, mas tinha tanto receio de que algum a escutasse que preferiu escrever, 
implorando a ele que respondesse por carta. E assim Jack o fez, avisando que voltaria para casa. E agora Annalise estava na estao de trem para encontr-lo.
       No sabia o que iriam fazer. O mundo tornara-se um lugar aterrorizante. Sentira-se to nauseada na escola... Na verdade, sentia nuseas todos os dias!
       CAPITULO VI
       O trem j se aproxima de Haslewich. Por favor, permaneam longe das portas.
       Depois de pegar a mala no compartimento de bagagens, Jack caminhou at o fim do vago. Estaria Annalise a sua espera? Ela devia ter recebido a carta.
       As letras borradas pelas lgrimas haviam tocado o corao de Jack, tornando-o ainda mais protetor em relao a ela - e temeroso por si mesmo.
       Annalise no podia estar grvida. Ele tivera o cuidado de usar preservativos com o intuito de ser responsvel pelo que faziam e preservar o amor de ambos.
       Um dia ele e Annalise formariam uma famlia, mas Jack acreditava nos valores tradicionais de seu tio Jon. Antes de ele e Annalise se tornarem pais, Jack gostaria 
de proporcionar segurana ao relacionamento. Queria casar-se ao estabelecer uma condio financeira razovel para cuidar da esposa e dos filhos.
       Naquele momento, ainda era um estudante em seu primeiro ano da faculdade de direito, e parecia-lhe impensvel que ele e Annalise, que cursava o colegial, 
pudessem se tornar pais. Mas algo sara errado e o impensvel talvez houvesse acontecido.
       Gotas de suor, devido ao nervosismo, escorriam sobre sua testa. Jack havia mentido a seu monitor a respeito das razes de voltar para casa e, embora ele no 
tivesse feito nenhum discurso, o homem pareceu no acreditar. Mas Jack precisava ver Annalise. No podia deix-la sozinha dadas as circunstncias.
       Por sorte havia guardado as cinqenta libras que David, seu pai, dera-lhe antes de partir para a universidade.
       A princpio, sentira-se pouco  vontade em relao ao dinheiro, mas lhe parecera mais simples aceit-lo a criar um clima embaraoso e ofender o pai, caso 
recusasse.
       Agora, na maturidade de seus dezenove anos, no mais um colegial, mas sim um homem adulto e apaixonado, Jack percebia quo imaturo havia sido ao sair de casa, 
anos atrs, para ir em busca do pai desaparecido.
       No entanto, David retornara  famlia e Jack, naquele momento, era capaz de julg-lo de homem para homem. Descobrira que o pai no era nem o vilo detestvel 
que sua irm, Olvia, pintara e nem o heri que ele, Jack, secretamente desejara encontrar. David era simplesmente outro ser humano. A cautelosa tentativa de um 
novo relacionamento entre pai e filho havia sido estabelecida, contudo no se comparava aos laos afetivos que Jack formara com Jon e Jenny. Eles, seus tios, criaram 
Jack como filho, mostraram-lhe o verdadeiro valor da famlia e era o casamento deles que Jack adquirira como referencial para si.
       No obstante, ele gostava do pai, e de Honor, sua madrasta. Ficou feliz com a volta dele e ainda mais contente em ver o afeto explcito entre Jon e David. 
Gostaria que Olvia fosse mais flexvel diante de toda a situao.
       Mas Jack agora tinha preocupaes mais importantes que a teimosia de Olvia em manter o pai de ambos a distncia.
       Se Annalise estivesse certa... Ele sentiu um arrepio na espinha. No eram somente Annalise e ele prprio que o preocupavam. Havia Jon e Jenny, que ficariam 
decepcionados com o sobrinho - e o pai de Annalise que era muito, mas muito restrito em relao  filha.
       Jack teria de largar a universidade a fim de procurar um emprego, algo que provesse o suficiente para ele, Annalise e o beb. Mas o que exatamente, ele no 
fazia idia. Precisariam se casar,  claro.
       Infeliz, piscou algumas lgrimas que lhe ofuscavam a viso. Mentalmente, visualizou a expresso de tia Jenny e ouviu a tristeza silenciosa em sua voz ao falar 
das jovens adolescentes que tentava ajudar na instituio de caridade de Ruth Crighton.
       - Elas amam seus bebes, mas algumas so to novas que no compreendem que o amor por si s no  suficiente.
       O corao de Jack batia acelerado. No queria que Annalise se tornasse uma dessas jovens.
       Oh! Deus, por que ele no fora mais cuidadoso? Era fcil questionar-se agora quando, durante o ato amoroso, seu corpo inteiro regozijara-se com a intensidade 
e a imensido do que ele e Annalise partilhavam, a maravilha do amor, a docilidade daquela que se tornara mulher nos braos dele. 
       O trem havia parado. Jack saltou do vago e, no mesmo instante, comeou a vasculhar a plataforma  procura de Annalise.
       De sbito, ele a avistou, uma figura pequena e desolada, em p a poucos metros de distncia.
       Houvera um momento, um segundo, em que Jack desejara rejeitar a possibilidade de ser pai quando lera a carta pela primeira vez. O pnico fora to dominador 
que ele preferira fingir que nada tinha acontecido. Naquele segundo, esquecera-se de que era um adulto responsvel por Annalise e pelo beb... quisera desesperadamente 
entregar o fardo a outra pessoa.
       Ao v-la olhando em sua direo, Jack chamou-a.
       To logo se aproximou, colocou a mala no cho e a abraou. Annalise comeou a chorar ao sentir a segurana do abrao de Jack. Somente agora podia admitir 
a si mesma o receio de ele no aparecer.
       - Aqui no - ela sussurrou. - Algum pode nos ver.
       Mas Annalise continuava colada a ele, e Jack podia sentir o tremor no corpo delicado.
       -  No aconteceu nada? - perguntou. - Voc no...?
       Vendo-a menear a cabea, Jack tentou ignorar a esperana de que, por algum milagre, ela no estivesse grvida.
       - No - Annalise respondeu. - Oh! Jack, o que vamos fazer?
       Em silncio, ambos continuaram abraados, enquanto Jack acariciava os cabelos sedosos da namorada. Ela era to vulnervel, to dependente dele. O medo o dominou.
       - No sei - Jack admitiu.
       Annalise voltou a chorar.
       - Por favor, Lise, no - Jack murmurou, desesperado. - Vamos caminhar  beira do rio. L poderemos conversar.
       - No quero que ningum nos veja - Annalise alegou, ansiosa, - Seus tios sabem que voc est aqui?
       - Ainda no. Eu queria falar com voc primeiro. J fez alguma coisa? Foi ao mdico... ou...?
       O rosto de Annalise empalideceu quando comearam a caminhar em direo ao rio.
       - No consegui. Pensei em telefonar para voc, mas no ousei. Queria lhe pedir que comprasse um teste de gravidez e o trouxesse para mim. No tive coragem 
de ir a uma farmcia da cidade.
       Irritado, Jack condenou-se por no ter pensado nisso.
       - Podemos ir a Chester para comprar um teste - ele sugeriu.
       - No posso. S no prximo final de semana. Quando chegaram ao rio, Annalise o encarou, sria e, de repente, madura demais para sua idade.
       - Andei pensando em um daqueles lugares... voc sabe, onde poderei...
       - No! - Jack exclamou, chocado com a possibilidade.
       -  Mas o que mais podemos fazer? - Annalise indagou. - No conseguiremos criar um beb, Jack, e meu pai vai me matar se descobrir.
       - Sou o nico culpado - Jack assumiu, orgulhoso. - Eu nunca... - ele se deteve. - Farei tudo da     ; forma correta, Lise, prometo. Vamos nos casar. Deixarei 
a universidade. Encontraremos um lugar para morar. Vou procurar um emprego e...
       O olhar de Annalise traduzia o peso da responsabilidade e, ao mesmo tempo, revelava a angstia e o medo de uma criana.
       - No me olhe assim - ele implorou.
       - No podemos fazer tudo isso - Annalise disse, infeliz. - Somos jovens demais. No vo nos deixar... Sua famlia vai me odiar, se largar a universidade. 
E voc acabar me odiando tambm e nosso filho...
       - No - Jack negou imediatamente. - Nunca. Por favor, no diga isso, Lise.
       No havia ningum mais  beira do rio e, por impulso, Jack tomou-a nos braos. Mergulhou o rosto nos cabelos macios da namorada e jurou am-la para sempre.
       Annalise chorava baixinho. De antemo j sabia que o amor de Jack no seria o bastante para proteg-la do que estava por vir. Com um esforo imenso, ela conseguiu 
controlar as lgrimas. No era mais uma menina ingnua... agora tornara-se uma mulher.
       - Voc contou a algum que estava voltando para casa? - perguntou-lhe.
       Jack meneou a cabea.
       -  No. Queria v-la primeiro - ele repetiu. - Precisamos planejar nosso futuro, Lise - avisou-a da forma mais gentil possvel. - Tenho de falar com seu pai...
       - No! Prometa-me que no dir nada a ningum. Ainda no. Prometa-me, Jack - Annalise implorou.
       Ela estava to desesperada que Jack no teve opo a no ser concordar.
       De sbito, Annalise transformou-se novamente em uma menina assustada, temendo a ira dos pais, e, tremula, aconchegou-se no corpo de Jack.
       - Eles no vo deixar que nos vejamos - Annalise deduziu, desconsolada.
       - No podem fazer isso. Ningum pode nos obrigar a fazer algo que no desejamos, Lise.
       - Eu no queria que fosse assim - Annalise murmurou, infeliz, desviando o olhar. -Nunca quis isso.
       Os olhos repletos de lgrimas dilaceravam o corao de Jack.
       - Tenho de ir - ela informou, de repente. - Meu pai vai voltar logo. Gostaria que tudo isso fosse um sonho ruim e que, quando eu abrisse os olhos, a vida 
voltasse ao normal. - Ela chorava de novo, soluando tal qual uma criana.
       No fundo, Jack sentia a dor, a angstia e a culpa. Ele prprio a fazia sofrer daquele jeito.
       - Jure que vai parar de se preocupar - ele suplicou. - Estamos juntos nisso. - Mas Annalise o fitava com total desesperana. No era o mesmo para ele. Como 
poderia ser?
       Enquanto a observava se afastar, o corao de Jack voltou a disparar. Ela parecia to pequena e. frgil. Gostaria de saber mais acerca do que iria acontecer 
a Annalise. Olvia havia tido duas filhas, mas Jack no prestara muita ateno ao percurso das gestaes. Tremia s de pensar em contar a novidade a Jon e. Jenny.
       No entanto, sua tia certamente entenderia. Ela estivera grvida quando se casou com tio Jon. No era segredo. O bebe havia falecido logo depois de nascer, 
Jack sabia disso.
       Esfregou os olhos. Esperava que, to logo se formasse advogado, pudesse trabalhar com a famlia em Haslewich. Mas agora no seria possvel.
 medida que caminhava  casa de Jon e Jenny, tentava pensar em um meio de ganhar a vida. O futuro parecia-lhe ameaador, mas Annalise e o beb eram sua prioridade.
       Saul ainda no sabia por que havia desviado o caminho para sua casa, e agora rumava  residncia de Livy. A secreta paixo que nutrira por ela no era o motivo. 
Tais sentimentos tinham desaparecido quando se apaixonou por Tullah.
       Mas se importava com Olvia. Ainda a tinha como a querida Livy e queria v-la, oferecer-lhe um ombro amigo, caso ela precisasse. Saul sabia que era orgulhosa 
e independente demais para pedir ajuda.
       Quando a casa de Olvia despontou a sua frente, Saul escutou sua voz interior adverti-lo quanto a discutir seus sentimentos com Tullah antes de agir. Porm, 
era tarde demais.
       A noo de que recebia uma visita surgiu quando Ally, a cachorra que Olvia deixara no canil enquanto estavam viajando, comeou a latir. As meninas encontravam-se 
no andar superior, fazendo o dever de casa e Olvia tentava, em vo, empacotar os pertences de Caspar.
       Aliviada por postergar a tarefa, ela correu para abrir a porta.
       - Saul...
       O sentimento que a invadiu, ao ver o primo alto e charmoso caminhando em direo a ela, foi o mais prximo ao que Olvia, anos atrs, chamaria de felicidade.
       Por um instante, ficou sem voz quando ele se aproximou. Para o prprio desespero e a preocupao de Saul, ela caiu em prantos. Saul a abraou, consternado.
       - Ora, o que  isso - ele murmurou, acariciando-lhe as costas.
       - Vamos entrar - Olvia convidou-o.
       Ainda abraando-a pelos ombros, Saul cumprimentou Ally e fechou a porta. Em seguida, guiou-a  cozinha e insistiu para que Livy se sentasse, enquanto ele 
preparava um ch.
       -  Fiquei sabendo sobre voc e Caspar - Saul contou-lhe.
       - Voc e toda a populao de Haslewich - Olvia retrucou um tanto spera, o que fez Saul fit-la com certa reprovao.
       - Sou eu, Livy - ele a lembrou. - No precisa manter suas defesas. Em que diabos Caspar estava pensando? - Saul perguntou, ofendido. - Foi um tolo por deix-la.
       - Eu no lhe dei muita alternativa - Olvia admitiu. - Nossa relao estava pssima, Saul. Vivamos brigando por tudo, e pelo bem das meninas... - Ela se 
deteve a fim de respirar fundo.
       Saul tinha razo. No precisava erguer grandes defesas na frente dele. Embora fossem primos de segundo grau, eram amigos ntimos e, certa vez, poderiam ter 
se tornado algo mais. Saul a desejara e ela...
       Era evidente que Saul continuava lindo e sensual, o tipo de homem que qualquer mulher desejaria sem culpa. Possua uma virilidade especial e, naquele momento, 
Olvia almejava ter um homem como Saul para consol-la, anim-la e proteg-la.
       Contudo, Saul estava casado com Tullah, lembrou-se. Ele amava a esposa e esta tambm o adorava. Portanto, Olvia no tinha o direito de fantasiar, por mais 
pena de si mesma que sentisse.
       - O que h? - Saul indagou. - E no me diga que no h nada. Se est reconsiderando a separao...
       - No  isso - Olvia o interrompeu. Respirou fundo novamente. A necessidade de desabafar era imensa. - Saul, fiz algo terrvel.
       Por um momento, imaginou que ele teceria algum comentrio zombeteiro. Mas Saul lanou-lhe um olhar penetrante e incentivou-a.
       - Conte-me.
       Embora insegura, Olvia contou-lhe.
       -  E agora no sei o que fazer - confessou. - Nem sequer imagino o que Jenny possa estar pensando de mim. Meu comportamento foi to grosseiro e infantil - 
A voz tornou-se embargada. - Estou to envergonhada, Saul.
       -  Quer que eu converse com Jenny? - Saul se ofereceu.
       -  No. Eu mesma quero falar com ela. Preciso me explicar. No posso me esconder atrs dos outros. Nem de voc.
       -  Tenho certeza de que Jenny ir entender - Saul consolou-a. - Ela conhece voc, Livy. Jenny a ama e sabe como deve estar se sentindo.
       -  Se  assim, por que ela no me telefona? -
       Olvia perguntou-se em voz alta, antes de sacudir a cabea. - Oh! Saul, sinto tanta pena de mim mesma. Acho-me to egosta. Jenny deve estar aflita por causa 
de Maddy. Voc teve notcias dela?
       - No. Pelo que sei ela ainda est hospitalizada. Tente no se preocupar - aconselhou-a. - Ligue para Jenny amanh de manh. Ela, sem dvida, ter novidades 
a respeito de Maddy e voc, ento, explicar tudo a ela. - Saul verificou o relgio. -  melhor eu ir. Tullah deve estar apreensiva com minha demora.
       Quando Olvia olhou o relgio da cozinha, ficou impressionada ao notar que havia passado mais de uma hora desde a chegada de Saul.
       -  Obrigada - agradeceu-lhe enquanto o acompanhava at a porta.
       - Pelo qu?
       - Por ser voc. E por me entender.
       Depressa, ela o beijou nos lbios e afastou-se. Sentia-se assim porque estava sozinha e vulnervel, Olvia justificou-se em pensamento, observando Saul entrar 
no carro.
       - Sr. Crighton?
       Max ficou tenso quando a enfermeira entrou na sala, onde ele aguardava para ver Maddy. No instante em que colocou os ps no hospital fora informado de que 
o mdico havia proibido qualquer visita.
       - Dr. Lewis gostaria de falar com o senhor. Por favor, acompanhe-me.
       Lutando para controlar os sentimentos, Max seguiu a enfermeira pelo extenso corredor branco at a porta do consultrio que se transformara na morada de seus 
medos e dores.
       -  Sente-se, Max - o mdico o instruiu.
       - Por que no me deixaram ver minha mulher? - Max exigiu saber.
       - A situao de sua mulher, como sabe,  muito grave e  vitalmente importante que ela no sofra nenhum estresse ou se aborrea. -> O obstetra franziu o cenho, 
preocupado. - Tenho de ser honesto com voc, Max. Ela no est respondendo ao tratamento to bem quanto espervamos.
       -  O que quer dizer? - Max sentiu a garganta apertar-se. O gosto cido do medo invadiu-lhe a boca.
       O mdico levantou-se. Caminhou at a janela da sala e l permaneceu, de costas para Max.
       -  Quando conversamos pela primeira vez, voc considerou a opo de finalizar a gravidez...
       Angustiado, Max sentiu como se um peso estivesse amarrado a seu corao.
       - Voc disse que se tratava de uma opo a qual no precisaramos considerar - ele repetiu as palavras do mdico.
       - quela altura, no - Dr. Lewis concordou e virou-se para Max. - No h uma maneira fcil de dizer isso. Sua esposa est seriamente doente e tambm muito 
prxima ao limite em que aconselho um aborto. Entendo o que estou dizendo, Max? Maddy est completando as vinte semanas de gravidez.
       - Claro que entendo - Max exclamou. - O que acontecer, se voc no fizer nada e a pr-eclampsia no for controlada?
       O obstetra o fitou, penalizado, e explicou-lhe mais uma vez o risco das convulses que privariam tanto a me quanto o bebe de oxignio.
       - Se isso acontecer...
       - Sim. Compreendo - Max o interrompeu, rude.
       - Caso consigamos, nos dias subseqentes, abaixar a presso sangunea de sua esposa a um nvel aceitvel e a mantivermos como tal, poderemos nas ltimas semanas 
de gravidez optar por uma cesariana.
       -  E se no conseguirem regularizar a presso? - Max perguntou.
       O mdico evitou olh-lo.
       -  Se o trmino da gravidez for a nica opo, devemos realiz-lo em breve.
       - Ento, est dizendo que se Maddy no mostrar sinais de melhora em menos de uma semana...
       Dr. Lewis suspirou.
       - Trs dias, Max.  o prazo que daremos a ela. O trmino da gravidez deve ser ministrado antes da vigsima semana - ele repetiu, como se falasse a uma criana.
       Trs dias.
       Impotente, Max esfregou as tmporas. Sentia os olhos queimarem e a cabea latejando.
       - J conversou com Maddy sobre isso?
       - Ainda no - o mdico respondeu. Pela primeira vez, ele fitou Max nos olhos.
       - Entretanto, se em trs dias no houver melhora nenhuma... Escute, por que no vai para casa descansar? - Dr. Lewis sugeriu. - No h motivos para permanecer 
aqui. No o deixaremos ver sua esposa. Ela pode pressentir seu nervosismo e  fundamental que ela fique calma.
       Max baixou a cabea, resignado.
       O beb j estava dormindo e Jenny terminava de ler uma histria para Leo e Emma quando Max telefonou.
       - Estou indo para casa.
       - Como est Maddy? - Jenny perguntou.
       - Agora no, me - Max retrucou, exausto. - Conversaremos quando eu chegar. Estou saindo do hospital e no devo demorar.
       - Vou esquentar seu jantar - Jenny sugeriu. No entanto, a simples idia de ingerir qualquer
       comida causava nuseas em Max. Alimentar-se para sustentar a prpria vida parecia uma forma de blasfmia depois do que havia escutado do mdico.
       Jack preparava algo para comer quando o telefone tocou. A casa tornava-se fria e sombria sem a presena calorosa de sua tia. Ele imaginava que Jenny estivesse 
em uma reunio do comit e Jon, ainda trabalhando.
       Atento  panela no fogo, Jack atendeu o telefone. Do outro lado da linha, Jenny estranhou ao escutar a voz do sobrinho. O que ele fazia em casa? Devia estar 
na universidade.
       - Jack? - ela o questionou, desconfiada.
       - Tia Jenny. - Havia culpa no tom de voz.
       - Voc est bem?
       - Estou, tia. - A resposta de Jack pareceu-lhe to insegura que Jenny comeou a ficar ansiosa. Se estava tudo bem, por que ele voltara para casa?
       - Seu tio Jon est?
       - No. Quer que eu d algum recado a ele, caso chegue antes de voc?
       - Sim, por favor - Jenny confirmou. - Diga-lhe que Maddy ainda est no hospital, e que Max ficar com as crianas hoje  noite. To logo ele chegue, voltarei 
para casa.
       Jenny no revelou a Jack que pretendia visitar Olvia, porque no sabia quem a preocupava mais, Livvy e seu comportamento bizarro daquela manh ou a perturbadora 
descoberta de que o sobrinho no estava na universidade.
       Um pensamento repentino a alertou.
       - Jack, sua visita sbita tem algo a ver com Annalise? - Ela tentou manter a voz suave e serena.
       O breve silncio que se seguiu  pergunta deixou-a ainda mais desconfiada.
       - No... por qu? Como consegui uma folga entre uma aula e outra, resolvi passar um tempo em casa. Tia, tenho de desligar porque minha comida est queimando.
       Ao colocar o telefone no gancho, Jenny fechou os olhos. Estava bvio que Jack mentia para ela e que o motivo era Annalise.
       Ambos eram jovens demais para a intensidade do relacionamento que se desenvolvia. Jon e Jenny concordavam com isso, mas tambm conheciam muito bem as conseqncias 
de uma forte decepo na adolescncia e no queriam que Jack sofresse.
       A despeito de ele tentar disfarar, Jenny havia percebido o tom de desapontamento na voz de Jack. A ltima coisa que queria era v-lo arruinar a vida por 
desistir dos estudos s para estar com Annalise.
       Jenny gostava da garota, mas se afligia por ambos serem muito novos. E Jack tinha de entender e aceitar que no podia correr para casa cada vez que ele e 
Annalise se desentendessem.
       O que acontecia a todos eles, Jenny questionou-se infeliz, enquanto esperava Max. De repente, as vidas de seus entes queridos haviam mergulhado no perigo 
e nas trevas.
       Desde a volta de David... Jenny retesou o corpo. Sabia estar sendo ilgica e sentia-se confusa devido aos sentimentos ambivalentes pelo cunhado, que outrora 
fora seu namorado.
       No mais sentia-se atrada por David. Jon era o homem que amava, mas o reaparecimento inesperado de David marcara uma aguada mudana na vida de todos, e 
no para melhor.
       Ilgico ou no, ela no conseguia evitar responsabiliz-lo e desejar que nunca tivesse voltado.
       - Voc chegou tarde - Tullah comentou, quando Saul arrancou a rolha do vinho tinto que tomariam durante o jantar.
       -   verdade - ele concordou, displicente. Pretendia contar a ela que havia visitado Olvia to logo estivessem a ss. Porm, ele o faria sem comprometer 
a confidncia de Livy a respeito do mal-entendido com Jenny. Como mulher, Tullah provavelmente teria uma viso mais sensvel em relao  situao de Livy.
       - Posso tomar um copo de vinho hoje  noite? - Jemima perguntou a Tullah, esperanosa.
       Ela era a filha mais velha do primeiro casamento de Saul, e estava evidente a velocidade com que Jemima crescia. Durante o vero, ela e Tullah haviam feito 
um passeio "secreto" s lojas, o que resultara em um misto de vergonha e orgulho por comear a usar seu primeiro suti.
       - No - Tullah respondeu. - Voc tem aula amanh. Talvez possamos pensar no assunto no prximo final de semana.
       Jemima torceu o nariz, mas aceitou a deciso de Tullah.
       - Jem, pode, por favor, dizer a seus irmos que o jantar est pronto? - Tullah pediu-lhe.
       Quando Jemima retirou-se da cozinha, Nick entrou e logo sorriu ao ver a garrafa de vinho que seu irmo abrira.
       - Boa pedida - ele aprovou. - Livvy est bem? Vi seu carro parado em frente  casa dela quando me dirigia para c.
       Imediatamente, Saul pde sentir tenso em Tullah, embora ela no se movesse.
       - Voc foi visitar Olvia? - ela perguntou. - No comentou nada comigo.
       - No. Foi um impulso de ltima hora. Saul notou que Nick observava a ambos.
       - Eu me meti onde no devia? - indagou, arrependido.
       - No.
       - Claro que no.
       Os dois retrucaram ao mesmo tempo, mas Saul sabia que o rubor nas faces de Tullah no fora causado pelo calor do prato que ela retirava do forno.
       Aflito, ele correu para ajud-la.
       - Lamento no ter dito nada - Saul desculpou-se. - Explicarei tudo mais tarde.
       Tullah forou um sorriso. Saul suspirou, resignado.
       - O que houve no hospital? - Jenny perguntou a Max ao lhe servir uma xcara de caf.
       -  Maddy ainda no responde ao tratamento - ele relatou, breve.
       Por toda sua vida, Max possuiu uma aura de fora pessoal que parecia inabalvel. Mas agora, pela primeira vez, Jenny conscientizou-se da nuvem de derrota 
que o envolvia.
       Como qualquer me o faria, ela tentou ajud-lo e confort-lo.
       -  Deve ter havido alguma melhora - insistiu. - Do contrrio, o mdico no permitiria que voc voltasse para casa.
       Max suspirou.
       -  O motivo de eu estar em casa no se deve  melhora na condio de Maddy, me. O mdico preferiu me deixar fora do caminho para que eu no a fizesse piorar. 
- Ele parou um instante e ento desabafou: - Voc acha que estaria aqui, se no tivessem me mandado embora? Meu Deus, me, se eu a perder...
       O tormento que o filho vivia trouxe lgrimas aos olhos de Jenny. Podia ver quo perto ele estava de perder o controle e entendia tambm por que o mdico o 
mandara para casa.
       -  Esses tratamentos requerem tempo - Jenny ponderou.
       - Maddy no tem tempo - Max ralhou. - Tampouco o beb.
       Antes de Max cobrir o rosto com as mos, Jenny percebeu as lgrimas.
       - Tenha f, Max - ela aconselhou. - Escute. Eu pretendia ir para casa. - Mas Jenny no lhe contou a razo. No precisava dizer que a sbita apario de Jack 
a preocupava. - Se quiser que eu fique aqui...
       Max meneou a cabea.
       - No. V para casa. Papai deve estar me amaldioando por mant-la aqui.
       Jenny hesitou.
       - V para casa, me - Max repetiu. - Ficarei bem.
       - Prometa-me que vai me telefonar, caso precise de alguma coisa.
       - Prometo - ele confirmou.
       -  Voltarei amanh de manh - Jenny avisou. - Assim, voc poder ir ao hospital, enquanto eu levo as crianas para a escola.
       Por mais que odiasse deixar o filho, Jenny precisava aproveitar a oportunidade de conversar com Jack a fim de descobrir o que estava acontecendo.
       Depois de abraar Max, ela caminhou at o carro, sabendo que seria quase impossvel passar na casa de Olvia para v-la.
       - Jenny! Voc est em casa!
       Em outros tempos, o alvio e o prazer contidos na voz de Jon estimulariam um sorriso amoroso nos lbios de Jenny. Contudo, naquele momento, ela se irritou 
tremendamente.
       - Jack est aqui - Jon contou-lhe.
       - Eu sei. Ele lhe disse por qu?
       - Disse apenas que teve uma brecha em seu cronograma.
       - Acho que ele est aqui por causa de Annalise - Jenny o corrigiu. - Aqueles dois devem ter brigado.
       Jon pareceu perturbado.
       - Ora, Jack no abandonaria os estudos por causa disso.
       - Esto apaixonados, Jon - Jenny lembrou o marido, sem a menor pacincia. - Onde ele est agora?
       - Em seu quarto. Como vai Maddy?
       - No houve mudanas.
       Jon aproximou-se e abraou a esposa.
       - Voc parece exausta. Venha sentar-se. Vou preparar uma bebida para ns dois.
       - No posso. Tenho de conversar com Jack e descobrir o que est acontecendo - ela recusou, firme. - Voc tambm precisa falar com ele. Faa-o entender a importncia 
de permanecer na universidade, Jon.
       - Jenny, so quase dez horas da noite. No a vejo h dias. Jack no vai a lugar nenhum. Poder conversar com ele amanh.
       Ansioso, Jon estava prestes a confessar a saudade que sentira dela, mas Jenny o empurrou e afastou-se.
       -  Voc comea a se mostrar to irresponsvel quanto David.
       Quando ela se precipitou  cozinha, seus olhos estavam marejados de lgrimas. Detestava aquele clima de desunio entre ambos, mas no sabia o que fazer para 
alterar a situao.
       Jenny bateu  porta do quarto de Jack. Quando ele a abriu, notou que em um curto espao de tempo o sobrinho havia crescido. No entanto, o abrao que ele lhe 
deu assemelhava-se ainda ao afeto de um garoto, embora fisicamente parecesse um homem.
       - Desculpe-me - Jack disse, consternado. - Sei que no deveria ter voltado, mas eu precisava vir.
       A angstia do jovem incrementou a preocupao de Jenny.
       - Sei que Annalise significa muito para voc, Jack
       - ela comeou, cuidadosa. Sentia-se fsica e emocionalmente exaurida. As ltimas semanas, com a volta de David e a doena de Maddy, sugaram-lhe as foras. 
Precisava manter em mente a importncia dos sentimentos de Jack e trat-los com seriedade, tal qual fizera quando o sobrinho tinha onze anos de idade.
       - Ela significa tudo para mim - Jack respondeu.
       - Eu a amo, tia Jenny, e ela me ama... sei disso. Jenny fechou os olhos. Percebia o desespero na voz de Jack, mas, pela primeira vez, sua intuio no lhe 
dizia a causa disso. Portanto, interpretou a angstia como sendo o medo de perder Annalise.
       Era o tipo de engano que qualquer um poderia cometer, o tipo de pea que o destino poderia pregar.
       Jack agonizava ante a necessidade de confidenciar tudo  tia, mas havia dado sua palavra a Annalise. A determinao e a confiana que demonstrara diante da 
namorada agora foram substitudas pela emoo natural de medo. Ele precisava do conforto e da segurana que Jenny, com certeza, lhe daria, caso confessasse os temores. 
Porm, no podia trair Annalise.
       Por outro lado, uma parte de si esperava que Jenny adivinhasse o ocorrido e lhe afirmasse que tudo acabaria bem.
       - Por mais que ame Annalise - Jenny lhe dizia -, voc no pode simplesmente largar os estudos e voltar para v-la, Jack. Vocs j conversaram?
       - Hoje  tarde - Jack confirmou. Tia Jenny tinha motivos para estar zangada. Corajoso, tentou explicar a situao. - No menti quando disse que houve uma 
brecha na universidade - ele insistiu. - Tenho mesmo alguns dias de folga.
       Jenny enxergou em seus olhos que o sobrinho dizia a verdade. Se no fossem os problemas de Maddy, ela colocaria Jack no carro pela manh e o levaria de volta 
 universidade. Mas no tinha tempo para empreender tal viagem.
       - Prometo que irei voltar quando for necessrio
       - Jack comprometeu-se. - S preciso de alguns dias com Annalise... para resolver certas pendncias.
       A impacincia e cansao de Jenny aumentavam.
       - Jack, Annalise tem de entender que voc  um universitrio agora. Isso significa que  obrigado a ficar na universidade.
       Jack desviou o olhar. Podia perceber quo aborrecida e zangada ela estava. O que tia Jenny sentiria, caso Jack lhe contasse que ele e Annalise iriam se tornar 
pais?
       Jenny viu o olhar tristonho do sobrinho e esmoreceu.
       - Jack, eu entendo. Sei que  difcil para voc. - Ela suspirou. - Vocs so jovens e sei que no vai acreditar em mim, mas... - Jenny se deteve. Jack no 
acreditaria nela, e no tinha certeza de que acreditava em si mesma no concernente  dor juvenil que se tornava insignificante com a idade e a experincia. Muito 
tempo havia se passado at ela e Jon superarem os traumas da adolescncia.
       - Reconheo que certas situaes podem nos magoar profundamente - ela argumentou, carinhosa.
       -  Mas, Jack, voc tem de priorizar seus estudos nessa fase de sua vida. - Jenny segurou as mos fortes do sobrinho. - Vamos descer e jantar. Continuaremos 
a conversar amanh, depois de uma boa noite de sono.
       Jack hesitou por um instante. O que Jenny diria, se ele lhe contasse que no queria dormir devido  possibilidade de Annalise estar grvida? No, no podia 
revelar a verdade. Pelo bem de Annalise, precisava omiti-la.
       Saul soltou um suspiro de irritao quando Tuliah saiu do banheiro da sute, recusando-se a olhar para ele, de propsito. Ela o tratara com frieza premeditada 
a noite inteira, e Saul comeava a enervar-se.
       - Tuliah, voc est exagerando - ele alegou.
       - Estou? Voc resolveu ver uma mulher, pela qual esteve perdidamente atrado, sem sequer me contar sobre esta visita e agora tem coragem de me dizer que estou 
exagerando.
       - Fui visitar Olvia, minha prima - Saul a corrigiu. - E resolvi v-la porque pensei... porque senti...
       - Sim? - Tuliah o desafiou. - Voc sentiu...
       - Por Deus, Tuliah! - Saul explodiu. - Voc est transformando um fato simples em um dramalho.
       Depois de tomar banho e barbear-se, Saul encontrava-se pronto para dormir. Entretanto, Tullah, que nunca usara nada que escondesse seu corpo na intimidade 
do quarto, estava enrolada do pescoo aos ps em uma toalha felpuda.
       Para sua agonia, notava que havia um qu de seduo em sua bela esposa que causava um efeito avassalador sobre ele.
       - Est certo, eu me rendo. Devia ter ligado e contado para voc... ou melhor, discutido com voc - ele se corrigiu ao ver a expresso severa de Tullah - o 
que planejava fazer. Agi por impulso, mas foi s isso, Tullah, e no por algum desejo latente de ressuscitar um relacionamento com Olvia, o qual nunca existiu. 
Pensei que ela precisaria de algum para conversar, de um ombro amigo. Fiquei preocupado com ela. Gosto de Livy... - Saul calou-se.
       - Ento, por que no me disse que a tinha visitado quando chegou? - Tullah perguntou, ponderada.
       - Porque eu queria esperar que estivssemos a ss por causa de um evento... - Rapidamente, Saul relatou o que Livy dissera a respeito de Jenny.
       -  Livy fez o qu? - Tullah ficou surpresa. - Por isso, ela mostrou-se to relutante em ligar para Jenny.
       Ao ver a expresso de Saul,' a ira de Tullah atenuou.
       -  Certo - concedeu. - Fui injusta. Livy est passando por uma fase pssima. Vi como ela ficou chocada quando lhe contei sobre Maddy.
       Tullah caminhava pelo quarto, enquanto Saul observava, famlico, a toalha de banho. A crise conjugal havia terminado.
       - Amigos? - ele perguntou.
       Sorrindo, Tullah aproximou-se e, com a ponta dos dedos, traou os msculos do trax do marido.
       - Talvez...
       - No pode ter cime de Livy - Saul murmurou e, devagar, tirou a toalha.
       - Devia se sentir lisonjeado por eu ainda sentir essa paixo absurda por voc - Tullah brincou.
       A toalha felpuda tombou no tapete. Saul prendeu a respirao.
       - Sente uma paixo absurda por mim? - A voz tornou-se rouca e o corpo, excitado.
       - As vezes.
       - Por acaso, agora seria uma dessas vezes? Saul agia como um garoto que experimentava a
       intensidade da paixo pela primeira vez. Provocativa, Tullah continuava a acarici-lo sutilmente.
       - Poderia ser - ela murmurou.
       -  Como vou saber... - Saul sussurrou, quando ela o beijou de leve nos lbios.
       De repente, Tullah incrementou as carcias, deslizando a boca sobre o corpo de Saul. Os mamilos trgidos roavam a pele morena, causando-lhe ondas de prazer. 
Saul fechou os olhos e gemeu quando sentiu o que a esposa fazia.
       - Oh! voc vai saber - ela respondeu, voltando a beij-lo, mas sem cessar as carcias.
       Inebriado, Saul decidiu interromper o clima de seduo e, tomando-a nos braos, carregou-a at a cama.
       - No se esquea de que Nick est aqui - Tullah avisou-o ao ver o brilho sensual nos olhos do marido.
       - A trs quartos de distncia.
       Uma das primeiras estratgias que ambos aprenderam ao se tornarem amantes era fazer amor sem acordar as crianas.
       - Ento, voc no se sente atrado por Livy? - Tullah indagou, sedutora, quando Saul deitou-se sobre ela.
       - Quem  Livy? - ele murmurou, antes de capturar um dos mamilos com os lbios a fim de aumentar o desejo de Tullah. Mas, lentamente, ela segurou-lhe a mo 
e mostrou-lhe quo excitada j estava.
       -  Nunca quis ningum do jeito que a desejo e amo, Tullah - ele confessou ao penetr-la.
       - Acho bom - Tullah sussurrou antes de sentir os primeiros tremores do orgasmo.
       Max estava sonhando.
       Ele corria, ou melhor, tentava correr ao longo de uma vasta praia, mas seus ps eram sugados pela areia branca, impedindo-o de continuar. Atrs de si, podia 
sentir a sombra malfica que o perseguia. Via sobre a areia o vulto desconhecido do perseguidor e a faca que este segurava em uma das mos.
       Frentico, Max tentava evitar os golpes da faca, girando o corpo para enganar o atacante. Contudo, ao se virar, viu que Maddy estava atrs dele e que a lmina 
afiada dirigia-se a ela.
       Enquanto dormia, ele gritava, sentia a garganta arranhar a cada berro. Era incapaz de proteger Maddy da faca que mirava o ventre desprotegido.
       Max despertou de repente e acendeu o abajur. Seu corpo estava molhado de suor e ele tremia como se estivesse dominado pela febre. O refugio privativo do quarto 
que Maddy havia criado para ambos parecia impregnado pelo odor acre do pavor agonizante.
       Ele olhou o relgio. Duas horas da manh. Sentia o prprio corpo gelar, apesar do suor. No precisava perguntar-se de onde viera o horror daquele pesadelo. 
A cena era idntica ao que havia vivido na Jamaica, onde estivera para procurar David, Mas, ao invs dele, eram Maddy e o beb as vtimas do ataque brutal.
       Max mergulhou o rosto nas mos. Agora conseguia entender os sentimentos que levavam certas pessoas a acreditar que podiam barganhar com o destino.
       No havia meios de voltar a dormir. Levantou-se e vestiu o roupo. Mas, ao aproximar-se da porta, deu-se conta de que as violentas imagens do pesadelo iriam 
assombr-lo pelo resto da vida.
       Tocou a maaneta da porta, fechou os olhos e rezou com fervor para que Maddy ficasse boa.
       CAPITULO VII
       Depressa, meninas. Temos de sair em cinco minutos para chegarmos a tempo  escola - Olvia advertiu as filhas. - Onde est Ally? - perguntou, ao notar que 
a cachorra no se encontrava na cozinha.
       Sem aguardar resposta, Olvia saiu pela porta dos fundos, chamando a cadela. Qual no foi seu desapontamento ao ver Ally coberta de terra e exalando um odor 
desagradvel. Ela no mnimo andara cavando buracos e rolando no pasto.
       To logo viu a expresso da dona, Ally abaixou o rabo e dirigiu-se  torneira do quintal.
       - Oh! Ally. - Olvia aproximou-se do animal e abriu a torneira.
       Cinco minutos depois, a cachorra encharcada encontrava-se no meio da lavanderia, enquanto Olvia procurava toalhas para sec-la. Quando conseguiu encontrar 
uma toalha velha, reparou na cesta de pesca de Caspar. A capa que ele usava para passear com Ally tambm encontrava-se na lavanderia. Um sentimento de intensa tristeza 
e solido a invadiu.
       Devagar, Olvia tocou a capa. Uni misto de emoes ofuscou-lhe os olhos. Haviam comprado aquela capa juntos em uma das ltimas lojas tradicionais de Haslewich... 
Gaspar protestara, alegando que a guarnio era inglesa demais para ele, e Olvia insistira em compr-la.
       Nas raras ocasies em que podiam passar o dia juntos, eles permaneciam at mais tarde na cama. Caspar, certa vez, acordara Olvia acariciando a pele macia 
com uma minscula pena que soltara do acolchoado. Ela tentara impedi-lo e, como de hbito, aps uma disputa rpida, eles acabaram fazendo amor.
       Depois, Caspar descera  cozinha a fim de preparar ch com torradas para eles e em seguida... As lgrimas comearam a surgir quando Olvia lembrou-se da suave 
doura que permeara o ato amoroso que se seguiu ao primeiro. Estavam to apaixonados na poca, vida de ambos achava-se to completa. Para onde fora o amor? Quando 
terminara?
       -  Mame, vamos chegar atrasadas  escola - Amlia avisou-a.
       Zangada consigo mesma, Olvia baniu as tolas lembranas, afagou as orelhas de Ally e alertou-a quanto a uma nova aventura no pasto. Desolada e arrependida, 
a cachorra lambeu a mo de Olvia.
       - No adianta me adular, Ally. - Contudo, ela esfregou os plo molhado da cadela e voltou  cozinha onde as filhas a esperavam.
       Agora no haveria tempo de visitar Jenny, Olvia concluiu, enquanto apressava as meninas para entrarem no carro. Porm, no fundo, estava aliviada por adiar 
o compromisso que se impusera.
       Saul jamais saberia quo tentada estivera para pedir-lhe que intercedesse a seu favor, conversando com Jenny.
 medida que se dirigia  escola, Olvia perguntou-se como estaria Maddy e orou pela recuperao da prima.
       Jack estranhou ao ver a tia atarantada pela cozinha. Tio Jon j havia sado para trabalhar e Jenny explicou-lhe que iria a Queensmead e no sabia a que horas 
retornaria.
       - Tia Jenny, est tudo bem entre voc e tio Jon?
       - Jack indagou, inseguro.
       Jenny, que procurava a chave do carro, encarou o sobrinho.
       -  claro que est. Por que me fez esta pergunta?
       - Mas, em seu corao, ela j sabia a resposta. No entanto, o que a surpreendeu e perturbou foi o fato de Jack ter percebido a tenso que pairava entre ela 
e Jon.
       - Por nada. - Ele deu de ombros, constrangido. Sua tia, em geral, mostrava-se to preocupada com o bem-estar do marido, to feliz por am-lo, que Jack logo 
notou o clima de discrdia entre ambos.
       - No aconteceu nada - Jenny inteirou com mais firmeza. - Estamos nervosos por causa da situao de Maddy - acrescentou.
       A crescente sensao de raiva e ressentimento em relao a Jon era para ela inexplicvel. Sempre que tentava entender as emoes, sentia-se ainda mais culpada 
e furiosa. Mas agora no tinha tempo para refletir acerca dos sentimentos. Parte do problema era o relacionamento de Jon com o irmo, bvio. A nova proximidade que 
crescia entre os dois deixava Jenny vulnervel e temerosa.
       Porm, eram sentimentos que no queria explorar, tampouco possua tempo para tal, defendeu-se em pensamento ao encontrar a chave.
       Por direito, um deles deveria sentar-se com Jack e descobrir mais a respeito da briga que ele a Annalise tiveram. Por direito, Jenny deveria ver Olvia agora... 
Por obrigao, Jon tinha de desempenhar um papel mais ativo na famlia, ao invs de fugir para passar seu tempo com David.
       Depois que a tia saiu, Jack pegou o jornal e, ansioso, virou as pginas at encontrar os classificados de emprego. Pretendera, em vo, pedir o carro de Jenny 
emprestado para levar Annalise a um lugar onde pudessem conversar com maior privacidade. Ela estava apavorada ante a possibilidade de contar a verdade ao pai, mas 
cedo ou tarde teriam de revelar o acontecido a todos.
       Aflito, Jack imaginava se poderiam viver com sua bolsa de estudos, caso arranjasse um emprego de meio perodo. O casal e um beb? Impossvel, pensou, fechando 
os punhos, desesperado.
       - Pode ver sua esposa agora, Sr. Crighton. Plido, Max precipitou-se  porta do quarto de Maddy. Mal pde acreditar quando chegou ao hospital e soube que 
a condio de Maddy havia mostrado uma pequena melhora.
       - Uma melhora realmente pequena - o mdico o avisara, expressando um sorriso inesperado. - Sua esposa  uma mulher extraordinria. Disse-me que se for preciso, 
ficar deitada sem mover um msculo at o final da gravidez para salvar o beb. Mas talvez isso no seja necessrio. Caso a presso sangunea continue a baixar, 
poderei deix-la ir para casa desde que permanea de repouso.
       Max nada dissera. O sofrimento originado pelo pesadelo ainda o atormentava.
       Maddy encontrava-se deitada no leito e, embora o rosto estivesse abatido, os olhos iluminaram-se de amor e compreenso quando avistaram Max.
       Ele forou um sorriso ao segurar as mos da esposa. Os poucos dias em que Maddy permanecera no hospital pareceram ter fragilizado ainda mais a delicada estrutura. 
Max tocou o pulso fino, onde as veias azuladas resplandeciam sob a pele alva. Quase trmulo, Max beijou-lhe o pulso e logo soltou-o.
       Como ele nunca se mostrasse to abalado, Maddy percebeu quo desnorteado o marido andava. Sentiu o corao bater mais rpido. Se Max estava preocupado, algo 
srio acontecia. Mas o mdico lhe assegurara que a presso sangunea estava baixando.
       - Como esto as coisas em casa? - Maddy perguntou-lhe.
       -  Tudo bem - Max respondeu, sincero. - As crianas sentem saudade, claro.
       - O Dr. Lewis disse-me que se minha presso continuar a baixar, poderei v-las mais tarde. - Maddy sorriu, esperanosa. - Tente no se preocupar - pediu-lhe. 
- Sinto-me to culpada.
       Max no conseguia encar-la. Era o nico a sustentar o peso da culpa.
       - Pobre beb. - Maddy acariciou o prprio ventre. - Ele ou ela no est se divertindo.
       A culpa de Max aumentou. No se permitia olhar para o ventre de Maddy. Pelo bem dela, vinha se preparando para sancionar o trmino da nova vida que Maddy 
gerava, mas sabia que ela nunca aceitaria tal escolha radical.
       -  melhor eu sair antes que as enfermeiras me expulsem - Max disse, brincalho. - O mdico me deixou ficar apenas alguns minutos com voc.
       Maddy franziu o cenho quando ele beijou-lhe a palma da mo. Pressentia que o marido escondia algo, como se ele se distanciasse sutilmente. Mas a angstia 
e o amor estampados nos olhos de Max quando se virou para sair eram reais.
       Caminhando at a porta, Max precisou lutar para no confessar o pavor que tinha de perd-la e como se sentia assombrado pelos sentimentos em relao ao beb 
ainda por nascer. Parecia-lhe que sua culpa jamais o abandonaria.
       - Perdo - Sara desculpou-se quando puxou a porta da livraria, notando tardiamente que algum entrava. Porm sua expresso transformou ao perceber que se 
tratava de Nick.
       No mesmo instante, comeou a se virar, registrando tanto o choque quanto a determinao de ficar longe dele.
       Ela no o via desde o encontro  beira do rio. No que desejasse v-lo. Sara nem sequer queria pensar nele, tampouco duelar com as sensaes que Nick suscitava 
nela. Contudo, seu corpo a tiranizava atravs de lembranas fsicas.
       - Sara.
       Qualquer observador que escutasse o tom passional da voz de Nick, sem dvida, faria uma interpretao errnea da situao, Sara decidiu, tentando controlar 
as reaes. Atrs dela, algum pediu passagem e os dois tiveram de se afastar da porta. Mas nem Sara nem Nick pareciam conscientes dos prprios movimentos.
       Ela possua a pele mais linda que Nick j vira. Almejava toc-la. Os cabelos, finos e vibrantes, caam sobre os ombros. Sara usava um sobretudo de casimira, 
ele suspeitava, sobre cala e blusa pretas. O perfume sutil e delicado parecia tent-lo a aproximar-se.
       - Venha tomar um caf comigo.
       O convite sbito espantou ambos. Nick reparou atravs do olhar brilhante a vontade de declinar. O que diabos ele tinha? Sabia no haver lugar em sua vida 
para o que Sara representava.
       - Eu... - Sara se deteve, incapaz de pronunciar a recusa. Uma brisa fria a fez estremecer.
       - Vamos - Nick insistiu, segurando-a pelo brao. - Est muito frio para ficarmos discutindo aqui na porta. Meu carro est parado em frente ao caf.
       Por alguma razo desconhecida, Sara se deixou guiar. O que estava fazendo? Ela o desprezava, odiava-o e no queria tomar um caf com ele.
       Mas era exatamente isso o que estava para fazer, concluiu ao sentir o.aroma agradvel de torta quando entrou no estabelecimento vazio, exceto por um casal 
de namorados sentado em um canto do caf.
       - No sei por que estou fazendo isso - Sara protestou, enquanto a garonete os levava  mesa.
       -  Talvez sejamos mais parecidos do que voc imagina - Nick opinou quando se sentaram e acrescentou: - Acho que ns dois gostamos de viver perigosamente.
       Viver perigosamente! Sara sentiu um arrepio repentino. O que fazia naquele momento era perigoso, ponderou. Perigoso e arriscado.
       Aps vasculhar o cardpio, Sara pediu chocolate quente, enfrentando o olhar descontente da garonete quando esta indagou:
       - Com ou sem marshmallow?
       - Com, por favor - Sara respondeu, beligerante. Sorrindo, Nick pediu um expresso.
       - Chocolate quente e marshmallow.,. Pensei que voc fosse do tipo caf com leite.
       - Verdade? Lamento desapont-lo - Sara rebateu.
       -  Quem disse que fiquei desapontado? - Nick contra-atacou.
       Sara moveu-se incomodada na cadeira. Em sua linha de viso, o casal de namorados aproximou-se. Curioso, Nick olhou para trs.
       - Pobres almas. Devem estar loucos por um local mais ntimo, e ns sabemos como se sentem. Certo, Sara?
       - Voc  completamente maluco - ela o criticou quando a garonete trouxe o pedido.
       - No - Nick a corrigiu to logo a jovem afastou-se. - Sou honesto. Voc me deseja tanto quanto a quero, Sara. No, no cometa perjrio consigo mesma. No 
h motivos.
       - Perjrio comigo mesma? No estamos em um tribunal. No estou sendo julgada. Oh! isso  ridculo. Eu...
       - Voc sabe o que podemos fazer, no ? - Nick a interrompeu.
       -  Sei. Temos de nos mudar para pases longnquos, ou melhor, para universos distantes - Sara respondeu, irritada.
       - Na verdade, pensei em algo mais radical.
       Sara o encarou. Gostaria de no ter pedido chocolate. A bebida estava to doce que ardia em sua garganta.
       - A melhor maneira de resolvermos a questo  experimentarmos um sexo curto e casual que nos esgote o suficiente para nos livrarmos destas sensaes.
       - Deve estar brincando. - Sara o fitou, atnita. -  a cantada mais velha que j ouvi. E se pensa que vou cair nessa...
       - Calma. No foi uma proposta sria - Nick a assegurou. - Entenda que esta situao  nova para mim tambm.
       - Quer dizer que existem mulheres que caem nessa ladainha - Sara zombou.
       - No. Quero dizer que nunca experimentei o que estou vivendo agora... tambm no gosto do que est acontecendo, Sara.
       - Nada est acontecendo - ela negou, de pronto.
       - Prove - Nick a desafiou. - Podemos ir a sua casa agora e nos beijarmos para que me mostre que "nada" est acontecendo entre ns.
       - De jeito nenhum!
       Uma curta e rpida relao baseada em sexo. Tratava-se de um acordo bizarro, contrrio a tudo em que ela acreditava. No entanto, as imagens que Nick instigara 
compunham um tormento tentador, corpos suados em meio ao sexo ardente brincavam na mente de Sara, causando um efeito fsico devastador.
       Dividida entre a vergonha e o desejo, ela tentou controlar os pensamentos fantasiosos. Se Nick soubesse ler mentes, estaria perdida!
       - Tenho de ir. - Ela se levantou e correu porta a fora para que Nick no tivesse chance de alcan-la depois de pagar a conta.
       Arrependido, Nick observou-a fugir. O comentrio acerca do sexo casual significara um desafio a seus prprios sentimentos, e no uma proposta real. Mas a 
expresso de Sara, a breve traio que ele vira naqueles olhos cintilantes, adicionara petrleo ao fogo que ele mesmo havia comeado.
       A conflagrao resultante ainda prevalecia em seu corpo. Os sentimentos eram to intensos que certamente entrariam em combusto. Aborrecido, Nick caminhou 
em direo ao carro aps pagar a conta.
       Se no fosse a orientao ridcula que o mdico lhe prescrevera, ele poderia voltar para casa, encontrar algum alvio ao estabelecer uma distncia segura 
de Sara, e, finalmente, mergulhar no caso mais complexo que pudesse arrumar.
       Entretanto, com Saul vigiando cada movimento, Nick no conseguiria ir a lugar nenhum at que o mdico lhe desse alta.
       Olvia fitou a metade do sanduche sobre a mesa. No se lembrava de t-lo comprado, muito menos de t-lo ingerido. O que iria fazer a respeito de Jenny? Queria 
tanto desabafar com algum, mas quem?
       O celular tocou. Apressada, ela o tirou da bolsa e atendeu. Ficou lvida ao escutar a voz da coordenadora da escola.
       - Sra. Johnson,  Briony Howard. A senhora deveria buscar suas filhas s seis. Este  o horrio em que a creche fecha. So seis e quinze.
       Balbuciando uma desculpa, Olvia garantiu  coordenadora que estaria na escola em quinze minutos no mximo.
       Como pde deixar isso acontecer? Que tipo de me era ela, perguntou-se, enquanto guardava o celular na bolsa e recolhia os documentos que estivera analisando.
       J passava das seis e meia quando ela estacionou diante da escola. Os rostos assustados de Amlia e Alex revelavam tudo. Olvia desculpou-se com a coordenadora.
       - As vagas da creche so limitadas - Briony Howard advertiu-a. - E quando os pais abusam do horrio, somos obrigados a lhes pedir que se organizem de outra 
maneira. Hoje estou sendo condescendente, mas no futuro...
       Ruborizada, Olvia teve de aceitar o sermo da mulher.
       To logo entrou no carro, notou que as filhas estavam  beira do choro como ela. A lembrana da prpria infncia surgiu-lhe  mente.
       Anos atrs, quando criana, Olvia havia planejado dormir na casa de uma amiga da escola, mas sua me passara o dia fazendo compras e voltara cansada demais 
para lev-la. Quando Tnia queixara-se com o marido, David dissera no poder pajear a filha pois tinha um compromisso.
       Eles ento comearam a brigar, e Olvia lembrava-se ainda da tristeza que sentira. Porm, quando seu pai bateu a porta da frente, Tnia cara em prantos e, 
de alguma forma, Olvia tivera de consolar a me, em vez de ser consolada.
       Mais tarde, David retornara, irritado, colocara a filha no carro sem dizer uma palavra e levou-a  casa da amiga. Ao se despedir, ele dera um daqueles abraos 
apertados em Olvia e sara.
       Se fechasse os olhos, Olvia ainda podia sentir o calor, o sentimento seguro de ser amada atravs daquele gesto simples. Mas tais momentos haviam sido raros 
e estava convencida de que o pai nunca a amara de verdade.
       No permitiria que uma das filhas se sentisse assim!
       - Desculpem-me - disse s duas quando fechou a porta do carro.
       - Tudo bem, mame - Amlia concedeu. - Dissemos  Sra., Howard que voc devia estar ocupada com o trabalho.
       Ocupada com o trabalho! Ocupada demais para lembrar que as filhas a esperavam. Que tipo de pessoa ela era? Que me em s conscincia faria isso?
       Talvez Caspar, uma vez que o divrcio estivesse concretizado, pudesse casar-se novamente e prover s filhas uma me mais devotada e digna de confiana.
       Rancorosa, Olvia sacudiu a cabea e voltou a pensar no pai. Por que David voltara? Ela o odiava por estar em Haslewich.. odiava-o... odiava-o... odiava-o...
       - Estou com fome - Alex reclamou quando chegaram em casa.
       Olvia verificou o relgio. Eram mais de sete horas. Normalmente, Caspar servia um lanche s meninas por volta das cinco.
       Caspar...
       Olvia fechou os olhos. No queria pensar no marido agora. Ento por que o fazia? Por que continuava sentada no carro, relutante em abrir a porta e entrar 
na casa que permanecia fria e vazia?
       Fria... mesmo com o sistema de aquecimento interno em pleno funcionamento? E quanto ao vazio? Enquanto acompanhava as filhas  casa, Olvia lembrou-se de 
que fora ela quem decidira separar-se, e tratava-se de uma deciso acertada!
       To logo contratasse uma pessoa para ficar com as crianas, ela se sentiria melhor. Naquele instante, porm, a culpa que a expresso das meninas lhe causara 
parecia consumi-la.
       - Lamento ter me atrasado - ela se desculpou outra vez.
       - No faz mal, me - Amlia voltou a responder. Amlia ainda era uma criana, no entanto o tom de voz e o olhar revelavam o comportamento de um adulto.
       Orgulhosa, Olvia recusou-se a chorar diante delas.
       - Gostaria que papai estivesse aqui - Alex murmurou. - Ele teria ido  escola buscar a gente.
       Alex exclamou indignada quando Amlia a beliscou.
       - Voc me machucou - ela queixou-se e, com os lbios trmulos, lgrimas surgiram em seus olhos.
       Olvia sentia as tmporas latejando, anunciando uma dor de cabea.
       - Meninas, por favor, no briguem - implorou. - Vou preparar um jantar especial para ns. O que gostariam de comer?
       - Hambrguer! - Alex saltitou, empolgada, esquecendo-se do choro.
       Hambrguer? A tenso de Olvia aumentou. Isso significava ter de ir ao supermercado. E Caspar, que fora criado aos trancos e barrancos por padrasto e madrasta 
devido  complicada relao dos pais, sempre fizera questo de garantir uma alimentao adequada s filhas, permitindo extravagncias somente uma vez por ms.
       Entretanto, antes que Olvia tecesse qualquer comentrio, Amlia dizia  irm:
       -  Sabe que papai nunca nos deixa comer hambrguer durante a semana.
       - Tem razo, filha - Olvia concordou, tentando ignorar o olhar vitorioso de Amlia e as reclamaes de Alex.
       Na maioria das famlias, era a me quem lidava com aspectos referentes  disciplina, mas porque o trabalho de Caspar como conferencista lhe permitia passar 
mais tempo em casa, era ele que desempenhava esse papel.
       Contudo, Olvia estava sozinha agora e tinha de aprender a assumir outras tarefas, concluiu, sentindo a exausto aumentar.
       - At logo, vov. - Sara sorriu ao celular. Seu av lhe telefonara, aps saber onde a neta estava.
       - Haslewich - ele comentara, duvidoso. - Tem certeza de que  uma boa idia, Sara? Sei que seu pai me acha superprotetor - ele prosseguiu, enquanto Sara permanecera 
em silncio.
       Embora, aparentemente, o genro e o sogro se dessem bem, Sara sabia, de acordo com o que a me lhe contara, que o av fora protetor demais com a filha e houvera 
discusses srias quando ela conhecera Richard Lanyon.
       - Por isso, uma pessoa como Tnia  a mulher ideal para ele - a me lhe.confidenciara. - Meu pai precisa de algum para paparicar e mimar, algum que no 
se sinta sufocado pelo amor excessivo que ele oferece. Certa vez eu o acusei de querer me manter como uma criana, o que foi injusto, mas minha me, sua av, era 
muito semelhante a Tnia.
       Aps essa conversa, Sara ficou mais grata ao pai pela criao vigorosa, a qual envolvia encorajamento e, mais importante, independncia.
       Mesmo assim, ela tinha uma afeio especial pelo av, que lhe provera mimos e um ombro amigo para chorar quando Sara precisava.
       Talvez houvesse herdado dele esse instinto protetor porque Sara tambm se sentia impelida a paparicar Tnia.
       - J contou a Tnia onde vim parar? - ela perguntara ao av.
       - No, e tampouco pretendo faz-lo. Isso s a deixaria aborrecida, e lhe traria pssimas lembranas.
       - Tnia tem um filho e uma filha em Haslewich
       - seu pai lhe dissera durante um dos telefonemas.
       - Se os conhecer, estar em uma posio difcil, Sara. Nenhum filho gosta de ser descartado pelos pas.
       - Tnia no os descartou - Sara a defendera. - Voc sabe disso, pai. Ela queria v-los, mas a famlia do ex-marido dificultou as coisas. E ela achou injusto 
causar algum tipo de conflito de lealdade nos filhos.
       -  Sei... - Fora o nico comentrio reticente de Richard.
       Os Crighton. Ela havia jurado a si mesma que, caso os conhecesse, seria impossvel gostar deles. Mas agora...
       Agora o qu? Gostava de Nick Crighton. Sara fez uma careta ao passar diante do espelho. Gostar era, na verdade, uma palavra infeliz para descrever as turbulentas 
emoes que Nick originava nela.
       Havia outras, no? Desejo... luxria... amor...
       Amor! De jeito nenhum! Admitir o desejo incontrolvel j era bastante ruim.
       Sexo rpido e casual. Uma indulgncia doce, ardente e louca. A realizao de fantasias selvagens ligadas ao homem ideal da adolescncia. Era impensvel, impossvel, 
mas bastava fechar os olhos e visualizar Nick em sua mente: braos musculosos, ombros largos, torso viril - e ele ficaria ainda melhor sem roupas, Sara suspeitava.
       Um gemido suave escapou-lhe dos lbios. Envergonhada, olhou para os lados e riu de si mesma. Estava sozinha no apartamento, e Nick Crighton, apesar dos incrveis 
talentos, no tinha o poder de se materializar diante dela.
       No em pessoa, mas exercia uma forte influncia sobre os sentidos de Sara e certamente possua o poder de materializar-se em sua imaginao, causando um efeito 
devastador.
       Sexo casual! Devia estar louca por contemplar a possibilidade. No contemplava nada. No mesmo, embora acreditasse que as mulheres fossem impelidas pela natureza 
sexual como qualquer homem. Mas Sara jamais se permitiu tamanha liberdade.
       Contudo, conhecia garotas que o haviam feito. Garotas que alegavam abertamente ter dormido com homens s pela atrao fsica. E, pelo que Sara pde observar, 
elas emergiam da experincia sem danos emocionais e realizadas em termos de prazer sexual.
       Mas havia tambm aquelas que juravam fazer sexo somente com amor e sofriam traumas por investir muitas esperanas no relacionamento, pois descobriam que o 
parceiro no partilhava das mesmas expectativas. Portanto, a experincia se tornava humilhante e arrasadora.
       Ao menos o sexo casual parecia inofensivo e poderia terminar com um "muito obrigado e at outro dia".
       E Sara iria adorar dizer adeus a Nick Crighton aps esgotar o desejo que sentia por ele. Mas claro que isso no aconteceria. Ela no tencionara envolver-se 
com Nick Crighton mais do que j estava. Certo?
       CAPITULO VIII
       Voc me parece muito preocupada - David comentou, amoroso, ao servir o ch de ervas a Honor. - H algo errado?
       - No exatamente - ela respondeu devagar.
       Intrigado, esqueceu-se da xcara, colocando-a sobre a mesa. Honor andava estranha havia vrias semanas e ele no sabia por qu.
       -  Mas algo a est perturbando. O que , Hon? No est gostando de ter padre Ignatius morando conosco?
       -  No  isso. - Honor sorriu. - E um prazer receb-lo em nossa casa. Outro dia, ele me contava uma histria fascinante a respeito das ervas medicinais que 
as pessoas utilizam na Jamaica. E quanto ao fato de ele morar aqui... Bem, padre Ignatius tem passado mais tempo em Fitzburgh Place que em casa. Ele e Freddy parecem 
se adorar. - Honor lanou um olhar matreiro ao marido. -  bvio que ambos tm muito em comum.
       - Um agnstico e um jesuta. Suponho que sim - David concordou. - Pare de mudar de assunto. O que h com voc?
       - No vai gostar do que irei dizer - ela o avisou.
       - Nada que venha de voc me desagrada - David confessou, sincero. - Tem me dado tanto, Honor. Em primeiro lugar,  maravilhoso conviver com sua doce e maravilhosa 
personalidade. Segundo, devolveu-me o auto-respeito ao me aceitar  amar. E me ajudou a amadurecer, a me transformar em uma pessoa melhor. Por sua causa, comecei 
a construir pontes entre mim e minha famlia. E, por fim, voc me deu duas enteadas lindas.
       - Ah! - Honor interveio, um tanto insegura. - No apenas duas enteadas, David.
       Ele a fitou, confuso.
       - Acho que estou grvida - Honor anunciou de pronto. - Tenho certeza, na verdade - acrescentou, ansiosa. - Os sintomas so idnticos aos que tive quando fiquei 
grvida de Abigail e Ellen. E fiz o teste. Sei que deve estar chocado. Eu tambm me assustei e...
       - No estou chocado - David negou e a tomou nos braos, comovido.
       Honor, por sua vez, no sabia quem tremia mais, ela ou David.
       - Est brava comigo? - ele perguntou. - Tem todo o direito de estar. Eu devia ter sido mais cuidadoso.
       -  Brava?! - Honor exclamou. - Preocupo-me com o fato de outro filho desagradar-lhe.
       -  claro que no- Somente uma coisa poderia me deixar to feliz quanto estou agora.
       Enquanto o fitava, Honor sabia que David se referia a Olvia, mas antes que pudesse se manifestar, o marido voltou a apert-la entre os braos.
       - Ter um filho com voc  muito mais do que eu poderia merecer. No planejamos esse beb - ele dizia, acariciando o rosto delicado -, mas lhe asseguro que 
ele ou ela ser muito amado. Oh! Honor... - Os olhos de David encheram-se de lgrimas. - Presentear-me com uma criana quando voc j me deu tanto.
       - Ainda no assimilei a novidade - ela admitiu, tambm emocionada. - Pensei que fosse velha demais e sei que minhas filhas tambm pensam assim. Teremos de 
fazer uma declarao oficial, suponho. Talvez seja melhor convidar toda a famlia... eu gostaria que... - Honor se calou para no aborrecer David. Queria dizer-lhe 
que a rejeio de Olvia no permitiria que ela soubesse da novidade por eles. Por direito, sendo filha de David, Livy devia ser a primeira a saber, Honor concluiu.
       De sbito, David comeou a beij-la com ternura.
       - Eu a amo tanto - ele sussurrou. Mas os olhos, que outrora brilhavam de felicidade, agora nublavam.
       - Ser difcil para Olvia, no? - Honor deduziu o que o marido pensava.
       - Detesto saber que ela est sofrendo e que no posso fazer nada para ajud-la. - David meneou a cabea. - No tenho o direito de recrimin-la, mas gostaria 
de falar com ela. A alegria de desejar nosso beb me remete  poca em que Olvia nasceu. Eu e Tiggy no a queramos. Sua concepo foi um acidente e, de alguma 
maneira, acreditei que seria um menino. Meu pai queria um neto, claro, e...
       David fez uma pausa, perdido em lembranas do passado.
       - Lembro-me de t-la levado  casa de meu pai uma vez. Livy no se sentia bem. Chorava muito e estava agitada. Devia ter uns dez meses na ocasio. Tiggy e 
eu brigvamos para decidir quem iria cuidar dela, quando Jon a carregou e a entregou a Jenny. Assim que Jenny a aninhou nos braos, Livy parou de chorar. Nunca me 
esqueci do olhar de reprovao que Jon me lanou. Eu o mereci, sem dvida. Pobre Livy.
       - Sim - Honor concordou. No esperava engravidar e o momento no era propcio para tal. Contudo, via no rosto de David que, como ela, ele j amava aquela 
criana que ambos criariam, apesar de a felicidade ser assombrada pela dor de Olvia.
       -  No ouse se mexer - Max advertiu Maddy quando estacionou o carro em frente ao casaro de Queensmead.
       No hospital, antes de dar alta a Maddy, o Dr. Lewis comentara em tom sarcstico que Max parecia mais traumatizado com a experincia que a esposa.
       - Voc lembra o que o mdico disse? - ele perguntou ao abrir a porta do carro para ajud-la a sair. - Repouso total e absoluto.
       - Isso no significa que eu no possa andar - Maddy protestou, rindo quando Max insistiu em carreg-la at a casa.
       Ela nunca o vira to abalado emocionalmente, nem < nas fases mais tortuosas do casamento quando haviam pensado em separao. Aquecia-lhe a alma saber quanto 
Max a amava.
       As crianas e Jenny a receberam com carinho e Maddy comoveu-se ao ver sua sala de estar toda arrumada para que ela pudesse repousar confortavelmente naquele 
espao.
       - A partir de agora, at o beb nascer, pretendo trabalhar em casa sempre que for possvel - Max informou, to logo Jenny levou as crianas para a cozinha. 
- Minha me estar de prontido para qualquer eventualidade. Eu e ela nos revezaremos a fim de levar as crianas  escola e tudo mais. Sua nica funo  seguir 
os ordens do mdico e descansar!
       Paciente, Maddy esperou que ele terminasse para se manifestar.
       - Max, no sou to frgil assim, sabe. Portanto, se me beijar, no vou desmontar.
       Emocionalmente, Maddy sabia que ele a amava, mas em termos fsicos Max vinha impondo certa distncia e, ela tambm notou, evitava olhar ou at mesmo tocar 
o ventre que abrigava o novo filho.
       Queria conversar com ele a respeito, porm a pequena jornada at sua casa a cansara mais do que podia admitir. Em favor do bem-estar do beb, Maddy precisava 
seguir  risca as instrues do mdico.
       Enquanto a observava e escutava, Max sabia que a vida conjugal nunca mais seria a mesma. O fardo da culpa que sentia pesava em sua conscincia. Maddy o odiaria 
caso descobrisse o que ele havia pensado e desejado quando atinou para o fato de que corria o risco de perd-la.
       Ansiosa, Maddy o estudava. Jamais o vira to alheio e introvertido. Mesmo no incio do casamento, quando imaginara que ele a odiava, as reaes de Max ainda 
assim demonstravam paixo. Estaria ele zangado por causa dos transtornos que sua condio causava? A vida de Max tornara-se complicada aps a volta de David. Poderia 
ele, secretamente, desejar que a criana em gestao no tivesse sido concebida?
       - Max - Maddy murmurou.
       - Fique aqui e descanse - ele ordenou, ignorando a splica da esposa. - Vou ajudar minha me a colocar as crianas na cama.
       Jack tentava se concentrar nas palavras do tio. Ambos jantavam sozinhos porque tia Jenny ainda encontrava-se em Queensmead, e Jack sentia-se frustrado devido 
ao nfimo progresso que fizera durante o dia.
       Annalise insistira em ir  escola. Ele a encontrara aps as aulas na beira do rio, j que ela no queria ser vista com Jack.
       - Annalise, no poderemos manter segredo por muito tempo - ele alegara, gentil, e repreendeu-se quando Lise comeou a chorar. Parecia inacreditvel que se 
tornariam pais.
       Resignado, Jon observava Jack. Era evidente que o rapaz tinha outros pensamentos em mente. A paixo adolescente podia ser traumtica e dolorosa, especialmente 
quando esta envolvia rompimento.
       A dor era to insuportvel que Annalise despertou do sono profundo. Estava exausta, seus olhos ardiam na escurido do quarto. Ainda sonolenta, permaneceu 
deitada, sofrendo ondas de desconforto em seu ventre. Quando a necessidade de dormir desapareceu, ela se deu conta do que acontecia.
       Sem poder acreditar no que seu corpo lhe dizia, Annalise correu ao banheiro. A prova de que estava certa e de que seu ciclo menstrual se iniciara causaram-lhe 
um alvio eufrico. No havia engravidado... no iria ter um filho.
       Automaticamente, tomou as devidas providncias, enquanto sentia q corao explodir de alegria. Ao se acomodar outra vez sob as cobertas, no queria pegar 
no sono. Abraando o prprio corpo, saboreou as dores da clica.
       Havia rezado tanto para que isso acontecesse e agora... Agora que tudo voltara ao normal nunca mais iria fazer sexo novamente, prometeu a si mesma com fervor. 
No correria riscos, se no estivesse cem por cento protegida de qualquer possibilidade de gravidez.
       Um arrepio glido percorreu-lhe a espinha ao conscientizar-se das conseqncias, caso estivesse grvida de verdade. Jack dissera que deveriam se casar e que 
tudo ficaria bem, mas Annalise sabia que a vida de ambos no seria nada fcil.
       Jack.., Precisava telefonar para ele no dia seguinte, to logo acordasse, a fim de transmitir-lhe as boas novas, decidiu. Aos poucos a clica comeou a atenuar 
e ela mergulhou mais uma vez em sono profundo.
       Jack havia acabado de acordar quando o celular tocou. Com o corao em disparada, atendeu o chamado de Annalise.
       - O que aconteceu? - perguntou, ansioso.
       - Nada - Annalise respondeu, sem conter o rompante de felicidade. - Na verdade, aconteceu algo fabuloso. No estou grvida, Jack. Estamos salvos!
       Foram necessrios alguns segundos para ele assimilar a notcia.
       - O qu? Quando? Como?
       Rapidamente, Annalise explicou-lhe o que ocorrera.
       - Tenho de desligar agora, Jack.
       - Vou encontr-la na sada da escola - ele avisou. - Assim, poderemos conversar.
       - Tenho de ir - ela repetiu. - Jack, por favor, no conte a ningum o que houve, est bem? - Annalise implorou. - No agentaria, caso algum ficasse sabendo.
       Jack estranhou. Alm da sensao de alvio, o primeiro pensamento que lhe veio  mente ao escutar a novidade foi enfim explicar aos tios os motivos que o 
obrigaram a aparecer to subitamente em casa.
       - Prometa-me, Jack - Annalise insistia.
       Jack percebeu a tenso e a ansiedade no tom de voz. Embora relutante, concedeu.
       - Prometo.
       A mo de Annalise tremia quando desligou o celular. Tudo que queria agora era esquecer quo apavorada estivera e retomar a vida normal.
       No instante em que Jenny olhou para o rosto de Jack, quando este entrou na cozinha, percebeu como o sobrinho estava contente. Sabia que ele havia visto Annalise 
no dia anterior e supunha que tinham feito as pazes. Mesmo assim...
       - Voc parece muito feliz esta manh - comentou ela.
       -  E estou - Jack confirmou, e dirigiu-se  tia para abra-la. - Desculpe-me, tia Jenny, mas tive de vir para ver Annalise. No se preocupe mais. Agora est 
tudo bem e voltarei  universidade amanh.
       - Est tudo bem agora - Jenny repetiu. - Mas o que acontecer na prxima briga, Jack? Voc no pode faltar s aulas com tanta freqncia.
       Jack a soltou, infeliz. Queria contar  tia que no se tratava de uma simples briga de namorados, mas havia dado sua palavra a Annalise e no podia tra-la.
       - No farei isso, tia.
       Contudo, Jenny no tinha tanta certeza.
       - Como est Maddy? - Jack indagou.
       - Melhorando.
       Max lhe dissera que naquele dia poderia se arranjar sem a me. Portanto, Jenny pretendia cuidar das tarefas domsticas, como arrumar as camas e lavar roupa, 
e, em seguida, ir ao supermercado para abastecer sua despensa e a de Queensmead.
       - David! - Jon exclamou, ao ver o irmo entrar no escritrio. - No esperava v-lo hoje.
       - No. Estive em Fitzburgh Place esta manh e Frederick me pediu para passar por aqui e deixar alguns papis com voc.
       -  Tem tempo para um caf? - Jon perguntou, depois de guardar os documentos.
       - Sim, tenho.
       -  Voc me parece distrado. Aconteceu alguma coisa?
       - Aconteceu - David respondeu, e respirou fundo antes de acrescentar: - O fato  que - ele sorriu tal qual um garoto traquinas - Honor est grvida.
       A porta da sala de Jon encontrava-se aberta. Logo, Tullah, que pretendia perguntar-lhe algo, deteve-se ao lado da soleira.
       - Grvida... Quer dizer que vo ter um filho? - Jon balbuciou, surpreso.
       -  Exato - David confirmou. - No havamos planejado - admitiu -, mas devo confessar que este acidente me deixou nas nuvens. Vamos organizar uma reunio familiar 
para oficializar a novidade.
       Um novo amor, uma segunda famlia, outra oportunidade e uma proposta de vida. Jon estava extremamente feliz pelo irmo gmeo, cuja felicidade parecia contagiosa.
       -  Parabns, David - Jon o cumprimentou. - Suponho que Livvy e Jack ainda no saibam da novidade.
       - No. Deus, Jon, espero que dessa vez eu seja um pai melhor. Tentei conversar com Jack, explicar-lhe tudo. Ele me escutou como um adulto, mas no me pareceu 
convencido. Por que ele e Livvy se importariam com minhas culpas? Do ponto de vista deles, nunca fui um pai afetuoso.
       Do lado de fora da sala de Jon, Tullah de repente se deu conta de que estava bisbilhotando. Envergonhada, foi embora. Sentia-se to chocada quanto Jon com 
a novidade de David.
       -  Como vai Livy? - David indagou a Jon. -. Gostaria de fazer alguma coisa para ajud-la.
       - Bem, obviamente ela est infeliz. Alis, com a doena de Maddy e a apario repentina de Jack, no houve oportunidade de conversar mais profundamente com 
Livvy.
       - Jack est aqui? - David espantou-se.
       - Est, e voltar para a universidade amanh - Jon garantiu. - Ele e Annalise tiveram um desentendimento, mas j fizeram as pazes.
       Enquanto David o escutava, seu sentimento de culpa aumentava. Sua filha lidava sozinha com o casamento fracassado. Seu filho tivera uma briga to sria com 
a namorada que o obrigara a largar os estudos para v-la, e nenhum dos dois fizera o menor movimento para procurar o pai a fim de pedir ajuda ou consolo.
       No obstante, quando David dera sinais de querer ajud-los ou tivera tempo para escutar os problemas dos filhos? Em que momento mostrara a eles que se importava... 
que os amava?
       Pesaroso, ponderou acerca da extenso das prprias falhas. Queria mesmo reparar os erros, construir um relacionamento com Jack e Olvia, e ser o av das filhas 
de Olvia e dos filhos de Jack, quando este os tivesse. Mas no podia culpar a ambos por mant-lo a distncia.
       David havia mudado muito desde sua fuga covarde de Haslewich, amadurecera tremendamente, e, no entanto, provar a prpria integridade no era suficiente no 
que dizia respeito a seus filhos. Eles precisavam, em especial Olvia, de provas explcitas.
       Mas como?, questionou-se, frustrado. Quando Olvia permitiria que ele se aproximasse?
       - E Maddy? Como vai ela? - perguntou a Jon, deixando de lado, por enquanto, o problema de Olvia.
       - Melhorando... devagar. - A notcia de que Honor e David estavam esperando um beb levantou um problema que precisava ser discutido. - Papai est dando trabalho, 
como sempre - Jon confidenciou. - Todos ns estamos aflitos com a recuperao de Maddy. Ela voltou para casa, mas o mdico ordenou repouso absoluto. O fato de papai 
estar ameaando deixar Queensmead para outra pessoa no ajuda em nada.
       - Para mim, voc quer dizer - David completou.
       - Eu j lhe disse, Jon, no sinto que tenha direitos sobre a propriedade, nem sequer a quero.
       - Eu sei, mas papai...
       - Quer que eu fale com ele? - David sugeriu.
       - Pode tentar. Porm, quando souber que voc e Honor vo ter um filho, ele vai ficar pior. Jenny est furiosa. Ningum jamais cuidou to bem dele quanto Maddy.
       -  No. Honor acha que ele tem sorte por estar na posio em que se encontra - David concordou.
       Olvia fitava a baguete que tinha acabado de comprar. No sentia fome, embora no houvesse feito o desjejum. Para completar, o jardim silencioso atrs da 
igreja de Haslewich no era o lugar mais adequado para se sentar e comer naquela poca do ano. Depois de abotoar o casaco, desembrulhou o sanduche. Podia retornar 
ao escritrio e l almoar, mas necessitava de ar fresco - e, sobretudo, de fugir da distrao que as imagens de Caspar representaram naquela manh.
       Sem dvida, fora a cesta de pescar que desencadeara as lembranas do casal feliz que haviam sido nos primeiros anos de relacionamento.
       Jenny atravessou o pequeno jardim da igreja aps visitar o tmulo de seu primeiro filho. A profunda tristeza que surgira  morte do beb no mais existia 
e lhe era reconfortante sentar-se e conversar com ele, atualizando-o com notcias da famlia, enquanto arrumava flores sobre a sepultura. De sbito, avistou Olvia 
sentada em um dos bancos e, aparentemente, perdida em pensamentos.
       Precipitou-se ento em direo  sobrinha.
       - Jenny! - Olvia no escondeu o choque ao sentir a mo da tia sobre seu ombro. - Eu no a vi chegar.
       - No. Voc parecia estar a quilmetros de distncia.
       Olvia mordeu o lbio quando Jenny sentou-se a seu lado.
       - Sinto-me pssima por causa do jeito que me comportei... e pelo que eu disse - Livy confessou. - No sabia que Maddy estava doente, mas isso no justifica... 
- Ela se deteve to logo as lgrimas surgiram.
       - Livvy, est tudo bem - Jenny assegurou-lhe. - Posso imaginar como deve estar se sentindo. Era eu quem tinha de me explicar.
       - Eu pensei...
       - Eu queria...
       Ambas comearam a falar ao mesmo tempo e pararam.
       - Eu pretendia telefonar - Olvia continuou. - Mas tive medo... No a recriminaria, caso no aceitasse minhas desculpas. Meu comportamento foi imperdovel.
       -  Livy, Livvy, eu nunca faria isso - Jenny protestou, mobilizada pelas palavras da sobrinha, cuja tenso comeava a diminuir. - Acho que todos ns reconhecemos 
a fase difcil pela qual voc est passando. O rompimento de qualquer relao  traumtico.
       Escutando o tom compassivo da voz de Jenny, Olvia sentiu-se vulnervel.
       - Oh! tia Jenny...
       Ao notar o tremor no corpo da sobrinha, Jenny agiu por instinto e a abraou.
       -  Chore quanto quiser, querida. - Ela a acarinhava, como se Livvy ainda fosse aquela garotinha que sempre recorria  tia quando estava com problemas. Sabiamente, 
Jenny acolheu o pranto, sabendo que Olvia precisava desabafar.
       - Est arrependida de ter pedido a separao? - ela perguntou, assim que Livy acalmou-se.
       - Agora  tarde - Olvia respondeu. Nem para Jenny ela tinha coragem de admitir o tormento catico de seus sentimentos ou a dor que ameaava sufoc-la.
       Mas de onde vinha aquela dor? No podia ser do territrio hostil em que seu casamento havia se tornado. No, a dor emergia da relao que outrora existira 
e do amor que eles haviam partilhado e no mais vigorava.
       -  Livy, eu gostaria de poder ajud-la com as meninas, mas neste momento...
       - No se preocupe. Eu entendo - Olvia garantiu, sincera. - Eu as matriculei na creche temporariamente. Acha que vale a pena pedir a Chrissie Cooke que indique 
algum? O marido dela  parente de quase metade de Haslewich.
       - Vou conversar com ela - Jenny se ofereceu. Contudo, por mais que nutrisse certa birra por David, sua conscincia a obrigava a arriscar. - Chegou a pensar 
em David e Honor, Livy? No tenciono lhe passar um sermo, mas David  o av das meninas e sei, pelo que Jon me disse, que ele est ansioso para conhec-las.
       - Meu pai... - O rosto de Olvia se transformou.
       - Acredita mesmo que eu faria isso por mais desesperada que estivesse? - Ela sorriu, amarga.
       Jenny havia previsto aquela reao, porm sentia-se no dever de sugerir.
       - Ah, tia. - Olvia cobriu o rosto com as mos.
       -  Por que ele tinha de voltar? Por que no ficou onde estava? O fato de saber que est em Haslewich me faz... - Desviou o olhar, envergonhada. Como explicaria 
os sentimentos de alienao e raiva que passou a possuir desde que o pai voltara? Nem ela prpria conseguia se entender.
       - Sinto muito, querida. Tenho de ir - Jenny lamentou. - Preciso passar no supermercado e quero arrumar os pertences de Jack antes de ele partir para a universidade.
       - Jack est aqui?
       - Trata-se de uma visita extra-oficial. - Jenny contou brevemente o que ocorrera.
       - Bem, no adianta esperar que meu pai converse com Jack a respeito de valores morais e obrigaes
       - Olvia ironizou. - Desculpe-me - disse a Jenny.
       - No consegui evitar.
       -  Manterei contato - Jenny prometeu quando ambas se levantaram. - E falarei com Chrissie para ver se ela conhece algum adequado para tomar conta das meninas.
       - Voc  a melhor tia do mundo. No sabe como me odiei por...
       - J foi esquecido - Jenny a interrompeu. - E, Livy, nunca pense que no  importante ou que Jon e eu no gostamos de voc.  e sempre ser uma pessoa muito 
especial para ns.
       Quando as duas seguiram caminhos opostos, o corao de Olvia parecia infinitamente mais leve.
       Antes de chegar ao supermercado, Jenny ligou para Chrissie e explicou a dificuldade de Olvia de encontrar algum para cuidar das filhas.
       - No conheo ningum, mas vou pesquisar - a esposa de Guy comprometeu-se.
       Conversaram por mais alguns minutos, pois Chrissie estava aflita para ter notcias de Maddy. Prometeu a Jenny que rezaria pela boa recuperao da nora.
       Sara e Francs estavam almoando quando Chrissie apareceu. Ela beijou a cunhada e aceitou acompanh-las na refeio.
       - Estou controlando meu peso - Chrissie confessou. - Guy quer nos levar a Tuscany no prximo vero e decidi que vou usar um daqueles biqunis escandalosos!
       - Tenho certeza de que ir arrasar - Francs brincou.
       - Escute, Francs, sei que  um tiro no escuro - Chrissie prosseguiu. - Mas Jenny Crighton me telefonou hoje e disse que Olvia est desesperada para encontrar 
algum que tome conta das filhas agora que ela e Caspar se separaram. Perguntou-me se ns conhecamos uma pessoa.
       -  Conheo vrias babs em potencial, mas no me lembro de ningum que seja experiente o bastante para se responsabilizar pelas crianas - Francs alegou.
       - Foi o que Jenny pensou. Ela se sente culpada por no poder ajudar a sobrinha.
       - Pobre Livy. Sinto pena dela - Francs suspirou. - Eu ficaria agoniada se no pudesse auxiliar meus filhos. Sei que Jenny tem sido tima para Olvia, mas 
era a me verdadeira de Livy quem deveria se oferecer para ajud-la.
       - Tem razo - Chrissie concordou. - No entanto, pelo que eu soube, Tnia nunca bancou a me para Jack e Olvia, e tampouco mostrou algum interesse de conhecer 
as netas.
       Sara sentiu-se incomodada com aquela conversa. Ardia de vontade de defender vov Tnia, de expor seu lado da histria, mas como poderia? O que aconteceria 
caso revelasse um relacionamento que jamais mencionara antes? Francs mostrava-se mais que gentil, e Sara sabia que a boa senhora teria todo o direito de decepcionar-se 
por ela no ter citado o parentesco com Tnia.
       No que Sara pretendesse esconder o fato de propsito, mas... Mas agora se via em uma posio delicada que a deixava culpada e desconfortvel.
       - Talvez a me de Olvia no saiba que a filha precisa dela - Sara ousou comentar.
       -  Mas Tnia sabe que  av de duas meninas lindas - Chrissie rebateu. - E, a despeito das tentativas de Olvia, Tnia sempre encontrava uma desculpa para 
no ver as netas.
       Sara ficou atnita. No fora assim que a av lhe descrevera. Todavia, lembrava-se de seu pai ter sido acerbo em relao a Tnia nunca visitar os filhos e 
as netas. Talvez, afinal, houvesse alguma verdade nos comentrios dele.
       -  Lamento por Olvia - Chrissie dizia. - Ela sofreu tanto quando criana e agora o casamento foi por gua abaixo.
       - E verdade. Ela no tem uma vida fcil - Francs concordou.
       Annalise caminhava a passos largos no estacionamento do supermercado. Iria chegar atrasada ao encontro com Jack. Estava empolgada com a expectativa de v-lo 
e comemorar a alegria de no estar grvida. Porm, ao mesmo tempo, sem saber por que, no queria v-lo.
       Jenny tinha acabado de guardar as compras no carro quando avistou a adolescente.
       -  Annalise! - chamou-a e estranhou a reao tensa da garota quando esta escutou o prprio nome.
       Depois que as filhas e Olvia tinham crescido, Jenny havia se esquecido de quo vulnerveis as adolescentes eram.
       Annalise deteve-se ao ouvir algum chamando-a e virou-se devagar.
       A tia de Jack! O sentimento de culpa e apreenso paralisou-a. A atvica sensao feminina de responsabilidade invadiu Annalise com tamanha profundidade que 
ela no foi capaz de entender ou analisar a experincia. S sabia que, entre sua famlia e a de Jack, seria a nica a ser recriminada, caso estivesse grvida.
       Jack tentara convenc-la de que a tia poderia entender a situao e estaria disposta a ajud-los, mas Annalise no acreditara.
       Annalise estava radiante, Jenny percebeu quando se aproximou da adolescente.
       -  Tem tempo para conversar comigo? - perguntou-lhe.
       Antes que Annalise pudesse recusar, Jenny j a segurava pelo brao. Embora relutante, ela se rendeu. Ainda sentia um pouco de clica e nuseas.
       A garota a olhava como se esperasse uma bronca, Jenny notou, curiosa. Ora, ela havia ficado zangada, era verdade, com Annalise e Jack. Mas agora lembrava-se 
de como era ter a idade de Annalise e estar apaixonada.
       Jenny tambm reparou atravs da expresso da adolescente como a briga de namorados a aborrecera. No pretendia reavivar a querela, contudo j que o destino 
lhe dera a oportunidade de falar francamente com Annalise, Jenny resolveu aproveit-la, e no somente pelo bem de Jack.
       -  Jack me contou o que aconteceu - comeou ela, gentil. Mas franziu a testa ao divisar a palidez n rosto da garota. - O que foi?
       - Ele me prometeu que no contaria a ningum!
       - Annalise exclamou.
       No acreditava que Jack seria capaz de mentir, ainda mais em se tratando de algo to importante. Fechou os punhos, enfurecida.
       -  Era particular... Ele no tinha o direito... - Annalise calou-se, lutando contra as lgrimas. Havia passado aquele dia com as emoes  flor da pele, sentindo-se 
eufrica e aliviada em um minuto, e no outro temerosa ante a possibilidade de ter podido estar grvida.
       - Annalise, sou tia dele - Jenny argumentou.
       - Jon e eu somos os guardies legais de Jack. Ele pode ter dezenove anos, mas ainda nos sentimos responsveis por ele. Sei que se consideram crescidos, portanto 
voc h de convir que abandonar os estudos no meio do semestre ho  uma atitude madura.
       - No pedi nada - Annalise protestou, sentindo que Jenny a culpava.
       Sem dvida, a famlia Crighton teria preferido que ela ficasse calada, que mantivesse a vergonha e o beb indesejado longe da vida to bem planejada de Jack.
       - Quando isso acontece, h sempre vrias maneiras de resolver o problema - Jenny continuava. - Mas no pode acontecer outra vez, Annalise, e ns dissemos 
isso a Jack tambm.
       -  Outra vez... - Annalise encarou Jenny, angustiada.
       O olhar, repleto de dor e tristeza, tocou o corao de Jenny. No entanto, precisava ser firme.
       - Voc e Jack esto apaixonados, mas so muito jovens e odiaramos ver a vida dos dois arrumada. E de vital importncia que Jack se forme, Annalise. Eleja 
lhe disse, eu sei, que almeja ser um advogado.
       Annalise sabia o que Jenny Crighton dizia na verdade. A famlia de Jack no queria v-lo estragar o prprio futuro por causa de uma gravidez inesperada. Jenny 
podia fingir estar preocupada tambm com ela, Annalise, mas no estava. E como poderia? No significava nada para os Crighton. E provavelmente no representava muito 
para Jack, j que ele havia quebrado a promessa.
       Corada de vergonha, Annalise imaginou o que a tia dele devia estar pensando. O pai de Annalise era tradicionalista e alimentava vises tambm tradicionais 
a respeito de garotas que engravidavam sem se casar - vises que ele fizera questo de expor  filha.
       Annalise no suportava mais. Virou-se e correu pelo estacionamento, ignorando o chamado de Jenny.
       - Ora, voc acaba de criar a maior confuso - Jenny repreendeu-se, enquanto observava a garota fugir.
       No queria mago-la, somente faz-la entender a importncia de Jack no repetir o comportamento de deslocar-se para casa cada vez que tivessem uma briga.
       Suspirando, Jenny deu a partida no carro.
       CAPITULO IX
       Como assim... acabou? - Jack 'indagou, completamente perplexo. Ele a havia esperado por mais de meia hora e quando enfim apareceu, alm de evitar o abrao 
caloroso, Annalise dissera-lhe que tudo estava terminado entre eles.
       - Acabou, Jack - ela reforou. - Nosso namoro termina aqui.
       - Annalise, escute. Sei que a suposta gravidez a perturbou, mas... - Jack tentou toc-la, porm ela recuou um passo, mantendo o semblante frio.
       No fundo, ela queria cobrar-lhe a revoltante quebra de promessa, mas temia cair em prantos antes de conseguir pronunciar uma s palavra.
       - No entendo o que aconteceu - Jack murmurou. - Eu te amo.
       Como Annalise poderia acreditar nele? Como confiaria em qualquer coisa que ele dissesse?
       - Pensei que voc me amasse - Jack acusou-a. Sua garganta se apertava, enquanto seu corao se esfacelava. No compreendia aquela atitude to fora de propsito, 
tampouco sabia o motivo.
       Annalise desviou o rosto, recusando-se a explicar-se. Estava brava com ele, Jack percebeu. Mas por qu? Porque no fora cauteloso? No podia conden-lo mais 
do que ele o fazia a si mesmo.
       - Por favor, Lise - implorou.
       - No quero mais falar neste assunto. No h o que discutir. No vamos nos ver nunca mais, Jack... Deixe-me em paz, por favor.
       No suportava encar-lo. Se o fizesse, perderia o controle e verteria lgrimas eternas. No sabia que a vida podia ser to penosa. Sentia-se furiosa, abandonada, 
assustada, dividida entre a raiva e a vontade de jogar-se nos braos dele  procura de carinho.
       Nada voltaria a ser como antes. Jack mentira, quebrara a promessa - e, mesmo que no o tivesse feito, Annalise no agentaria passar novamente pela mesma 
experincia traumtica. Ele havia jurado que tudo terminaria bem, mas agora tudo parecia desmoronar.
       Jack sofria por remorso e amor. As emoes queimavam seus olhos, mas o orgulho masculino o impedia de chorar.
       - Annalise... no... - ele suplicou outra vez.
       Ignorando o namorado, Annalise comeou a se afastar.
       Queria ir atrs dela e rogar-lhe uma segunda chance. No entanto, um casal caminhava  beira do rio em direo a ele. Aquele parque era pblico demais para 
que Jack pudesse clamar o que sentia. A frustrao por no possuir a privacidade de que necessitava, por ser visto como imaturo pelos outros, o atormentava.
       Amava Annalise e sempre a amaria. No era jovem demais para saber disso.
       Porm ela no o queria. Havia dito tais palavras em alto e bom som. Culpava-o pela terrvel experincia de poder estar grvida e o responsabilizava por no 
ter sido capaz de proteg-la. Jack tinha certeza disso porque se sentia da mesma maneira.
       Tambm se culpava. Ao am-la sem certificar-se de que estava protegida, ele fora egosta e agora pagava caro por tamanho egosmo. Annalise deixara de am-lo.
       Esfregou os olhos marejados de lgrimas. A ltima coisa que desejava era voltar  universidade, embora no tivesse escolha. Havia decepcionado Annalise, mas 
no incrementaria sua falha decepcionando os tios.
       Com os olhos repletos de lgrimas, Annalise corria pela trilha entre as rvores. Estava terminado, e sentia-se satisfeita... satisfeita... disse a si prpria. 
Por que Jack ousara contar  tia o doloroso segredo que deveria permanecer somente entre eles? E como conseguiria am-lo depois do que ele tinha feito?
       -  Voc est muito pensativa - Saul comentou com Tullah. Ao chegar do trabalho, encontrou-a sozinha na sala de estar, perdida em devaneios. - Algo errado?
       -  No exatamente. - Tullah ento relatou ao marido o que escutara por acaso. - Havia um recado de Honor na secretria eletrnica quando cheguei. Convidou-nos 
para ir  casa dela neste fim de semana. - Tullah respirou fundo. - Estou pensando em Olvia.
       - Sim - Saul concordou, preocupado.
       - Tive a impresso de que David queria contar a ela antes da festa, mas receava que Olvia se recusasse a v-lo.
       - Estou certo de que ela o faria.
       - O que devemos fazer, Saul?    ,
       - O que voc acha que devemos fazer? - retorquiu ele.
       - Bem, se eu estivesse no lugar dela, gostaria de saber da notcia antes que se tornasse pblica. No posso falar com Olvia. Ns nos damos bem, mas no somos 
ntimas. No como...
       - Est tentando dizer que eu deveria conversar com ela? - Saul deduziu.
       - Sim. E logo, Saul. Hoje  noite, se possvel.
       Olvia notou que havia uma mensagem na secretria eletrnica to logo entrou em casa. Por um instante, imaginou que fosse de Caspar. Contudo, ao escutar a 
voz de seu pai, sentiu-se dominada pela raiva e pelo desapontamento.
       - "Olvia, preciso falar com voc" - dizia a gravao. - "H algo..."
       Ela apagou o recado sem ouvir o resto.
       Teria Jon sugerido a ele que estava na hora de contat-la? Justamente quando se encontrava fraca e vulnervel? Olvia fora sincera ao dizer a Jenny que jamais 
pediria ajuda ao pai.
       Aps colocar as filhas na cama e apagar a luz do quarto, Saul tocou a campainha. O prazer de rev-lo incitou um brilho diferente nos olhos de Olvia. No 
era tola a ponto de imaginar que ele desejava ressuscitar a atrao do passado, mas era uma mulher e sentia-se carente o bastante para apreciar a ateno de um homem 
sexy.
       - Entre.- convidou-o. - Eu pretendia fazer um caf.
       Saul estava agoniado. A conversa com Livy seria difcil e a alegria que ela demonstrava s piorava a situao.
       Esperou que o caf estivesse pronto para abordar o assunto.
       - Livy, no existe uma maneira fcil de fazer isso - comeou, hesitante.
       O corao de Olvia disparou.
       - O que aconteceu? Caspar... - Ao se dar conta de quanto revelou acerca das emoes, ela se calou.
       - No tem nada a ver com Caspar - Saul tranquilizou-a, surpreso. - E sobre David, seu pai...
       Por um momento, o mundo pareceu parar. O choque e a dor que a assolaram eram confusos e inesperados.
       - Ele teve outro ataque do corao - Olvia tentou adivinhar.
       - No. - Saul irritou-se consigo mesmo. Estava fazendo a maior confuso.
       Colocando a xcara de caf sobre a mesa, ele segurou as mos de Olvia. O toque era quente e afetuoso. Reconfortante... De fato, o gesto de um amigo e no 
de um admirador, ela reconheceu, pesarosa.
       - Ele e Honor esto esperando um filho.
       - O qu?
       A palidez que dominou o rosto de Livy significava apenas o primeiro sinal do que Saul havia previsto.
       - Honor est grvida... No acredito... - Olvia protestou. Afastando-se de Saul, ela levantou-se e comeou a caminhar pela cozinha, furiosa. - No creio 
que Honor tenha sido to estpida a ponto de ter um filho com ele, mesmo sabendo como aquele homem tratou a mim e a Jack.
       -  As pessoas mudam, Livvy - Saul ponderou, embora lhe afligisse testemunhar o sofrimento da prima.
       - As pessoas mudam. - O olhar de Olvia o preocupou. - Quer dizer que meu pai est feliz com esse filho...  isso?
       Saul desejava estar em qualquer lugar, menos ali.
       - Pelo que Tullah pde ouvir, sim, ele est muito feliz - forou-se a admitir.
       - Ele no conseguiria se importar comigo e com Jack. No liga a mnima para ns. No significamos nada para ele. Nada! - Olvia esbravejou.
       Por isso, David quisera falar com ela. O objetivo no era tentar participar da vida da filha e das netas,, mas sim dizer-lhe que no precisava mais delas 
agora que teria outro filho, uma criana desejada, uma criana que ele amaria.
       - Honor planeja anunciar a gravidez  famlia neste final de semana. Ela convidou todos os parentes. Tullah, sem querer, escutou David conversando com Jon 
no escritrio e sentiu... ns sentimos...
       Saul entristecia-se por Olvia. O que ela sentia acrescentava mais sofrimento  fase que estava vivendo. E ele sabia no haver meios de consol-la.
       - Se agimos errado... - Saul comeou a se desculpar.
       - No. Estou grata por Tullah ter pedido para voc me contar, Saul. Nunca pensei... Quando eu era criana, queria tanto que ele me amasse - Olvia confessou, 
sem emoo. - Queria tanto, tanto... Rezava para que ele e minha me fossem felizes juntos, que fossem pais normais como Jenny e Jon. Eu me sentia culpada, de certa 
forma, porque eles brigavam o tempo todo. Achava que era por minha causa...
       - Livvy - Saul compadeceu-se.
       - Desculpe-me - Olvia sussurrou. - Voc no quer ouvir minhas lamrias.
       - Pode conversar comigo a qualquer hora, mas tenho de ir embora agora - ele lamentou. - Vai ficar bem?
       O frgil esboo de um sorriso que ela manifestou apertou o corao de Saul.
       - Vou, sim.
       Quando ele fez meno de abra-la, Olvia recuou. Saul hesitou por um instante e, ento, caminhou at a porta.
       Olvia esperou que ele sasse para liberar as emoes. Seu corpo inteiro tremia de angstia.
       Honor esperava um filho de seu pai. David iria ser o pai de outra pessoa. Ao menos, rezava para que no fosse uma menina, Olvia refletiu, amarga.
       To logo o beb nascesse, Honor veria a verdadeira personalidade do marido, assim como os demais parentes. Seu pai no tinha o direito de sujeitar outra criana 
ao sofrimento e  falta de amor que ela e Jack haviam vivido.
       Mas e se dessa vez tudo fosse diferente? E se seu pai, como tantos outros de meia-idade, adorasse a experincia de gerar um filho aos cinqenta anos?
       Um arrepio glido percorreu o corpo de Olvia. Qual era o problema com ela? Por que se importava com o comportamento do pai? David no significava nada. Nada!
       Pnico. Dor. Medo. Averso s prprias emoes e uma raiva furiosa contra o pai a consumiam, impedindo-a de concentrar-se em qualquer outra coisa. Se Caspar 
estivesse ali... Caspar... Por que diabos pensava nele?
       Aflito, Caspar atendeu o celular. Por um segundo, esperou e imaginou que talvez fosse Olvia. Havia perdido a conta do nmero de vezes que se sentira tentado 
a ligar para ela. Almejava escutar a voz das filhas... e a de Olvia.
       Triste, lembrou-se de todos os motivos que levaram o casamento a fracassar, e o mais destrutivo deles era o fato de que Olvia encontrava-se totalmente encarcerada 
pelas lembranas da infncia e recusava-se a libertar-se ou conscientizar-se de quo prejudiciais eram.
       Claro, entendia as dificuldades pelas quais ela havia passado. Caspar tambm no tivera uma infncia feliz, mas eram adultos agora e ressentia-se por Olvia 
apontar cada erro e compar-lo ao comportamento do pai como se, de alguma forma, eles fossem iguais.
       - Com licena, o senhor vai se demorar nesta vaga? Ela  reservada  equipe mdica do centro e tenho clientes a minha espera. - A voz feminina de tom severo 
alertou Caspar da transgresso que cometia.
       - Lamento - desculpou-se. - No percebi que havia parado em local proibido. Alis, s parei porque meu celular tocou.
       Quando se voltou para olhar a mulher, cuja caminhonete bloqueava sua sada, Caspar ficou fascinado. Ela representava o sonho de qualquer americano com sangue 
nas veias e muito mais. Alta, esguia e repleta de curvas na medida certa. Cabelos castanhos, olhos azuis e lbios voluptuosos.
       Vestida casualmente de jeans e camiseta, ela parecia ter uns dezoito anos, mas Caspar supunha, dada a atitude impositiva, que era bem mais velha.
       - Irei embora assim que voc afastar seu carro para que eu possa sair - disse a ela.
       - Certo. Vejo que, pelo seu sotaque,  estrangeiro e deduzo que certas placas de sinalizao no lhe sejam familiares. Entretanto, isso no o exime da responsabilidade 
- ela discursou. - O sinal indica claramente que esta rea  reservada.
       Constrangido, Caspar notou que a mulher tinha razo.
       - Lamento muito - desculpou-se outra vez. Ela no usava roupas brancas, logo, perguntou-se
       que profisso a mulher teria?
       - Voc trabalha aqui?
       -  Trabalho - ela respondeu, seca. - Mas no converso com estrangeiros, mesmo que estejam dirigindo uma Harley-Davidson.
       Caspar sorriu, sentindo o humor renovar-se.
       - Ora, se trabalha aqui, voc  capaz de medicar estrangeiros e cuidar deles - brincou.
       - Sou psicloga, no mdica - ela retrucou. - E, se quiser um conselho, este tipo de cantada no funciona com as mulheres de hoje.
       - No? O que funciona ento? - Caspar no se lembrava de quando fora a ltima vez em que se sentira vivo, sedutor e to masculino em relao a uma mulher 
que no fosse Olvia. Interessado, ele observava o movimento dos quadris, enquanto a psicloga caminhava em direo  caminhonete, determinada a no responder.
       O que ele esperava? A mulher tinha o direito de ignor-lo. O mundo estava repleto de ms intenes e cabia a ela ser cautelosa.
       A psicloga estava agora em seu carro, tentando dar a partida. Caspar franziu o cenho ao reconhecer, atravs do som da ignio, que no haveria meios de ligar 
a caminhonete sem a ajuda de um mecnico especializado.
       A porta do automvel se abriu e ela desceu. Foi difcil reprimir o sorriso triunfante quando a mulher se aproximou e disse:
       - No funciona. Tenho de telefonar  oficina mecnica para pedir auxlio.
       -  Quanto tempo isso vai levar? - Caspar perguntou, tentando parecer srio. - S estou aqui de passagem. Preciso procurar um hotel para passar a noite e me 
alimentar.
       - No  minha culpa - a mulher retorquiu, ao recuperar a pose. - Como lhe disse, foi o senhor que parou em local proibido.
       Ela o fitou por alguns instantes.
       - Aonde pretende ir? - perguntou, expondo um sbito interesse por Caspar.
       - Aonde a estrada me levar. Na verdade/estou realizando uma velha ambio adolescente de viajar pelo pas.
       - Em uma Harley-Davidson?
       - Exato. - Ele expressou um sorriso maquiavlico. -  pena que no seja mdica, do contrrio eu lhe pediria que examinasse uma determinada parte de meu corpo 
que agora, aos quarenta, no parece estar em boa forma.
       - Sua esposa no quis acompanh-lo? Sei que  casado porque usa aliana. - Ela apontou a mo de Caspar.
       - Acabou. Ns... Ela voltou para a Europa com nossas filhas. E advogada e me informou que tomaria as providncias "legais" por conta prpria. Foi assim que 
nos conhecemos, atravs da lei. - Caspar meneou a cabea, desolado. - Desculpe-me. Acho que  normal incomodar desconhecidos com sua histria de vida quando se viaja 
sozinho.
       -  Sou psicloga. No me incomodo em ouvir - ela o assegurou. - Terei de esperar o socorro mecnico aqui, mas depois, se quiser, poderei lhe mostrar um timo 
restaurante italiano da cidade. Eles tambm possuem quartos para alugar.
       Caspar respirou fundo. Seus instintos o avisavam que poderia estar nadando em guas profundas. Mas por que no? Era um homem livre agora, certo? Olvia no 
o queria.
       - Parece timo - respondeu. - A propsito, sou Caspar Johnson.
       - Molly Reilly.
       Reilly, o sobrenome explicava os lindos olhos celtas, a pele lisa, embora os dentes perfeitos fossem americanos, Caspar refletiu ao apertar a mo de Molly.
       Uma das discusses mais complicadas que ele e Olvia haviam tido fora acerca dos dentes das meninas. Na ocasio, Caspar queria submet-las a um tratamento 
odontolgico e Olvia ficara horrorizada.
       - Por qu? - ele perguntara, indignado. - Todas as crianas americanas usam aparelhos nos dentes.
       - Amlia e Alex no so americanas, Caspar. E no quero que elas cresam com a aparncia to perfeita a ponto de se assemelharem a... estrelas de cinema.
       Caspar no entendera a reao explosiva, muito menos o argumento.
       -  o mesmo que macular o carter natural das meninas - Olvia havia protestado. - Restaur-las, Caspar, far com que se sintam na obrigao de serem perfeitas 
a fim de angariar o amor alheio. No quero isso para nossas filhas.
       - Por Deus, Livy, s estamos falando de arrumar os dentes delas! - Caspar exclamara, exasperado.
       - Voc disse que havia terminado.
       O comentrio de Molly pegou-o de surpresa.
       - Como sabia que...? - ele se deteve, ruborizado.
       - Tenho trinta e quatro anos - Molly respondeu. - E creio que j vivi o bastante para reconhecer o momento em que um homem est pensando na esposa.
       - Na verdade, eu pensava em minhas filhas - Caspar a corrigiu. - Quanto ao restaurante italiano...
       - Acha que ela vir? - David questionou Honor, ansioso. E no havia necessidade de perguntar-lhe a quem se referia.
       - No alimente expectativas - ela aconselhou.
       - Oh! Honor, eu queria... Gostaria de contar a ela antes que outra pessoa o faa, para que o momento seja to especial quanto foi com Abigail e Ellen.
       Honor sorria, entristecida. A ligao que possua com as filhas estava a quilmetros de distncia da relao que ele tinha com Olvia. Mesmo assim, fora um 
choque para suas filhas e, no caso de Ellen, a notcia resultara em certa hostilidade ao saber que Honor estava grvida.
       - Tem noo dos riscos que voc e o beb podem correr? - Ellen indagara, como sempre, prtica. - Na sua idade...
       - No se esquea de que mame sabe mais a respeito de bebs do que a gente - Abigail interrompera a irm. - Afinal, ela teve ns duas,
       - Sim, mas isso foi h mais de vinte anos - Ellen pontuara, firme.
       Depois de passado o impacto inicial, ela se desculpara com a me.
       Se suas filhas, que tinham certeza de que Honor as amava, haviam estremecido ante a novidade, como Olvia poderia reagir?
       Magoava Honor saber que seu beb iria nascer naquele ambiente conflitante, e tal ddiva deveria ser motivo de alegria e esperana, no de infelicidade e sofrimento. 
       Havia discutido o problema com padre Ignatius enquanto trabalhavam na estufa. Honor adorava passar horas a fio cuidando das ervas com as quais preparava remdios 
de fundo medieval e aprimorando suas habilidades.
       - Seria bom caso existisse uma erva especial que pudesse ajudar Olvia - ela comentara com o padre.
       - A resposta ao distrbio de Olvia est dentro dela -- Ignatius respondera. Quando Honor o fitara, confusa, ele explicou: - O amor do pai est l para ela, 
assim como a dor e o ressentimento pelo passado. Mas David no pode forar os sentimentos, somente oferec-los.
       - E se Olvia continuar a rejeit-lo? - Honor lhe perguntara.
       Padre Ignatius soltou um suspiro.
       - Se ela insistir em alimentar as mgoas, receio que tanto Olvia quanto David continuaro a sofrer.
       E agora Honor inseria mais agonia ao problema de Olvia com o beb que gerava.
       Por instinto, alisou o ventre ainda liso. A gravidez podia ser inesperada, mas a nova vida que se formava j era motivo de felicidade para ela.
       Olvia no apareceria. David sabia disso.
       - No podemos nos demorar - Jon dizia. - Jenny cuidar dos netos hoje  noite.
       Netos. Ele tambm era av tal qual Jon, porm duvidava de que as netas soubessem de sua existncia.
       Enquanto tomava um gole de sua bebida, David observava o movimento. O padre conversava com Ben e Freddy. Honor ria de algo que Jon lhe falava. O nmero de 
convidados era pequeno, somente os parentes mais prximos.
       - Jenny! - David exclamou, contente, quando avistou a cunhada na cozinha. - Fico feliz que tenha vindo. Significa muito para Honor. Sei que anda ocupada no 
momento. S lamento Livy no ter aparecido.
       -  Livy no pode ir a lugar nenhum - Jenny informou. - Ela tem duas filhas para cuidar, est trabalhando tempo integral e no h um marido para ajud-la.
       -  verdade que Livy no pode sair? - David perguntou a Jenny.
       - Voc devia estar a par dos problemas que ela enfrenta - Jenny insistiu. - Pois acredito que seu irmo tenha relatado os pormenores tambm. Quando posso, 
eu a ajudo.  claro que Jon a liberou do trabalho, mas Livy, sendo orgulhosa demais, declinou a oferta. Est tentando, a duras penas, encontrar uma bab. Ora, por 
que estou lhe dizendo tudo isso, David? Voc  o pai dela. Mas no se importa, certo? Interessa-se mais pela nova vida que construiu.
       - Jenny!
       O horror na voz de Jon a fez calar-se. No tinha visto o marido entrar na cozinha. No entanto, reparou no olhar repressor que ele lanou antes de encarar 
David e se desculpar pela esposa.
       - No se apoquente, Jon - David argumentou. - Jenny s no tem razo em um ponto. Eu me importo com Jack e Olvia, e muito.
       O desabafo da cunhada o perturbara, mas foram as informaes a respeito de Olvia que o mobilizaram de verdade. No tinha idia de que a situao estava to 
periclitante. E as palavras de Jenny pintaram o quadro de algum totalmente solitrio e isolado, um fato que estimulou a necessidade de proteger a filha.
       Sua filha... sangue de seu sangue... David fechou os olhos, agoniado. Precisava e tinha de fazer alguma coisa.
       - Jenny, como pde falar daquele jeito com David? - Jon inquiriu a esposa, depois de deixar Ben em Queensmead.
       - De que jeito? Eu simplesmente disse a verdade
       - Jenny se defendeu. - Ele est celebrando a concepo de outro filho, enquanto a pobre Livvy se descabela para superar as vicissitudes da vida.
       Jon permaneceu em silncio. Se no a conhecesse, podia apostar que Jenny estava com inveja de Honor, David e do beb que esperavam.
       - Honor, estive pensando a respeito da dificuldade de Livy em encontrar algum para ajud-la com as crianas. Tenho tempo de sobra e elas so minhas netas. 
J que Jenny est ocupada com os prprios netos, eu... - David ficou calado quando viu o modo como Honor o fitava. - No acha uma boa idia - deduziu, frustrado.
       - Acho uma excelente idia - Honor o contradisse. - Mas duvido que Olvia aceite.
       - Vale a pena visit-la e oferecer-me - David concluiu, animado. - Esta pode ser a maneira que procurava, Honor, de mostrar a Livvy quo arrependido estou. 
E, de qualquer forma, quero v-la - acrescentou, decidido. - Devo isso a Livvy e a nosso beb.
       - Ele tocou o ventre da esposa. - Quero que minha filha saiba por mim que vai ter um irmo... ou irm.
       Honor continuou em silncio.
       - Voc desaprova minha deciso? - David indagou, preocupado.
       - No quero v-lo magoado - Honor confessou.
       - Sei como  importante para voc recuperar a confiana e o afeto de Olvia. E tenho certeza de que ela necessita dessa reparao, mesmo que ignore que perdo-lo 
e se perdoar poder cur-la. - Ela parou e suspirou. - Mas no sinto que Livy esteja pronta.
       -  uma mulher maravilhosa. J lhe disse isso? - David a beijou. - Entendo seu ponto de vista, Honor. Mas ainda assim vou tentar. Na prtica, Livvy precisa 
de ajuda e sou seu pai. Irei v-la amanh.  domingo, portanto ela estar em casa. Voc deve me xingar s vezes por eu lhe trazer tantos problemas familiares.
       -  Sua famlia no  mais problemtica que a minha.
       Na ponta dos ps, Honor beijou a testa do marido.
       -  Ser que podemos...? - ele sussurrou, acariciando o ventre de Honor.
       - Claro que sim. - Fazer amor com David no causaria mal ao beb. Porm,  certa altura da gravidez, teria de realizar alguns exames. Na sua idade, era imprescindvel 
acompanhar o desenvolvimento do beb.
       Mas no queria pensar nisso. Naquele momento, desejava apenas aproveitar o instante presente.
       - Que gostoso - murmurou quando David acariciou um dos seios. - Faa outra vez...
       CAPTULO X
       Satisfeita, Sara sorria consigo mesma. 'Era seu dia de folga e estava a caminho do exclusivo complexo de sade e esttica, prximo a Chester, do qual Francs 
e seus familiares eram associados, para usufruir do luxo e das vantagens do spa.
       -  o mnimo que podemos fazer para retribuir o trabalho fantstico que voc realizou com a papelada do restaurante - argumentara Francs.
       Sendo assim, Sara anotou as coordenadas que Francs lhe dera a fim de se movimentar pelas cercanias de Chester.
       Alm dos comentrios nada lisonjeiros acerca da famlia Crighton, Tnia nunca se mostrara entusiasmada com a cidade. Na verdade, condenara a vida pacata de 
Haslewich. Sara por sua vez, discordava da av, principalmente no que dizia respeito ao passado histrico da cidade.
       To logo fosse possvel, prometeu a si mesma, exploraria os arredores da regio, percorrendo as trilhas das muralhas antigas, visitando o museu da mina de 
sal e o castelo. Mas naquele dia dirigia, contente, em direo a seu destino.
       Frances havia comentado sobre os tratamentos de beleza do clube, enquanto o marido, o Sr. Sorter, empolgara-se com o campo de golfe.
       - Vai adorar a piscina! E o restaurante do clube tambm  muito bom.
       - Mas no to bom quanto o de vocs,  claro - Sara emendara, sorrindo.
       - Evidente que no. - Francs rira.
       E agora ela passava pelos portes de Camden Park e percorria a alameda rodeada de grama verde.
       Rindo consigo, ela estacionou seu carro ao lado dos melhores automveis do momento, tipo Mercedes e Jaguar. Ningum em Chester possua veculos compactos 
como o dela?
       A recepcionista do spa, porm, no podia ser mais gentil ao lhe oferecer uma gama de opes disponveis para os diversos tratamentos de beleza.
       Aps fazer sua escolha, uma prolongada massagem facial e corprea, Sara decidiu aproveitar o tempo que antecedia a sesso para um saudvel e revigorante mergulho 
na piscina.
       O deque era to luxuoso quanto Francs lhe havia descrito. Os azulejos da piscina eram pintados com afrescos italianos. Uma longa arcada indicava o caminho 
para a banheira Jacuzzi e a sauna. Os scios do clube acrescentavam  rea o mesmo estilo de elegncia e refinamento, Sara ponderou, observando as mulheres muito 
bem vestidas, acompanhadas de homens...
       De repente, ela enrijeceu. Do outro lado da piscina, entretido em uma conversa com uma bela mulher, estava Nick Crighton.
       Em um aspecto Sara acertara: o corpo de Nick era to viril e musculoso quanto ela imaginara.
       A pele bronzeada ainda encontrava-se molhada. Nick sacudiu a cabea para livrar-se do excesso de gua nos cabelos, e disse algo  linda mulher, que a fez 
soltar uma risada suave e sensual.
       Invejosa, Sara discretamente observou-a. Era alta, possua cintura fina e curvas perfeitas, emolduradas pelo maio. Os cabelos estavam presos, mas Sara suponha 
que eram compridos, e parecia bvio que ela e Nick se conheciam muito bem.
       Quando a mulher ergueu a mo delicada e tocou o brao de Nick, ele se aproximou. Uma onde de cime ruborizou o rosto de Sara, chocando-a com a explcita mensagem 
que o sintoma trazia. Queria ser ela a tocar Nick. Queria...
       Nick afastou-se da mulher e mergulhou na piscina. Fascinada, Sara observou-o nadar. O vigoroso nado livre o fazia deslizar na superfcie da piscina olmpica. 
Cada braada continha poder e masculinidade. Uma cicatriz j antiga traava uma linha no antebrao. Sara estremeceu ao divisar o ferimento. Como teria acontecido?
       De sbito, uma sensao de calor suave a invadiu tal qual um narctico efetivo. Queria mergulhar com ele, toc-lo, abra-lo e ser acariciada por ele. Desejava 
sugar as gotas de gua daquele corpo com os prprios lbios e perder-se no clima.
       Impotente, fechou os olhos, zombando da prpria fraqueza.
       -  somente um homem e nada mais - murmurou para si.
       Contra sua vontade, voltou a fit-lo. Nick empreendia o nado de costas agora, novamente com poderosas braadas. As imagens criadas por aqueles movimentos 
sensuais e controlados causavam-lhe um turbilho de emoes. Podia imagin-lo, ou melhor, senti-lo a cada...
       Nervosa, umedeceu os lbios j ressecados. O corao batia em disparada, a pulsao acelerava e...
       O cime a dominava. Quem era aquela mulher e que direito ele tinha de estar com outra aps o que dissera a ela?
       Tais pensamentos a espantaram. Qual era seu problema? No reconhecia a si mesma. Parecia viver apenas em funo daquela tortura sensual e do cime desenfreado.
       Nick saiu da piscina e, ao faz-lo, Sara notou pela primeira vez a enorme cicatriz no torso musculoso.
       Assustada, soltou um suspiro de exclamao ante o choque que sentiu.
       Embora estivesse longe para escut-la, Nick, por alguma razo, olhou na direo de Sara. Imediatamente, ela recuou e se virou. Escutou Nick cham-la, mas 
no lhe daria o gosto de saber que ela o estava observando... e desejando.
       Ao chegar ao vestirio feminino, Sara respirou aliviada. Seu corpo tremia. Receava que Nick a alcanasse antes que ela conseguisse entrar naquele santurio.
       Do outro lado da piscina, Nick bufou. Reconhecendo aquele olhar transfigurado, Bobbie Crighton sorriu. Ela e Nick haviam se encontrado no clube por acaso.
       Luke encontrava-se jogando golfe com alguns amigos, enquanto Bobbie tencionava nadar um pouco antes de comparecer ao salo de beleza para fazer as unhas, 
j que seus filhos estavam passando o dia com os avs. Bobbie caminhava em direo ao centro de beleza no andar superior  piscina quando esbarrou com Nick, que 
lhe relatara a insistncia de Saul para que ele aproveitasse os benefcios do clube a fim de exercitar os msculos danificados pelo acidente.
       - Voc a conhece? - ela perguntou, seguindo o olhar de Nick.
       - E Sara Lanyon. Ela trabalha para Francs Sorter. Tambm  parente por casamento da ex-mulher de David, com a qual ela pegou uma certa antipatia pelos Crighton, 
em particular pelos homens da famlia. Para ser mais exato, por mim!
       - Oh! Deus - Bobbie compadeceu-se, embora seus olhos dissessem o contrrio. Afinal, ela tambm, anos atrs, no chegara a Haslewich com a mesma predisposio?
       Era curioso saber que outra mulher partilhava de tal antagonismo. Poderia ela estar aberta a mudanas como acontecera a Bobbie? Sorriu ao se lembrar de papel 
fundamental que Luke Crighton desempenhara na radical mudana de atitude.
       - Como vai Olvia? - Bobbie resolveu mudar de assunto. - Se no tivssemos programado a viagem, das crianas para os Estados Unidos durante o Natal, eu me 
ofereceria para ajud-la.
       Bobbie, de fato, havia auxiliado Olvia quando as meninas eram ainda bebs e, por conseqncia, ambas tinham se tornado amigas. No entanto, devido ao excesso 
de trabalho, Olvia comeou a se afastar cada vez mais, at que Bobbie passou a v-la em raras ocasies.
       - De acordo com Saul, Livy nunca se adaptar  volta de David, mas ele e Tullah no conversam muito sobre o assunto. Afinal, houve um tempo em que Saul e 
Livy eram ntimos.
       - Sim, antes de Saul conhecer Tullah - Bobbie apontou.
       - Mas vocs, mulheres, podem ser extremamente possessivas quando se trata de homens - Nick comentou, de propsito.
       -  Ns, as mulheres. - Bobbie riu. - O cime feminino no  nada comparado  reao dos homens quando se sentem ameaados - ela refletiu. - Espere e ver! 
 melhor eu me apressar ou chegarei atrasada.
       -  Ns nos veremos na hora do almoo - Nick lembrou-a.
       Ele havia programado uma srie de exerccios na academia de ginstica para trabalhar seus msculos, mas agora s conseguia pensar em Sara.
       Naquela manh, Nick recebera um malote enviado por Fion Davies, a esposa de um dos moradores de Pembrokeshire, onde ele morava. Fion trabalhava como sua assistente 
e possua uma cpia da chave de seu chal. No envelope havia um bilhete dela que dizia: Isso parece urgente e interessante!
       Tratava-se da carta de um homem que, recusando-se a identificar-se, dizia-se ser apenas um diplomata. Ele fornecia um nmero de endereamento postal para 
que Nick pudesse lhe responder, e solicitava ajuda para libertar sua filha que se tornara refm de um grupo religioso no leste da Europa.
       O pedido desviava-se um pouco das operaes normais de Nick, mas a rea em questo requeria mais habilidades de negociao e conhecimentos polticos que experincia 
advocatcia. O governo daquele pas j deixara claro que no pretendia negociar com rebeldes, portanto o diplomata temia pela segurana da filha. Nick no o condenava, 
houvera vrios incidentes envolvendo mortes de refns em tais situaes.
       Alis, existiam outras agncias melhor equipadas para lidar com esse tipo de conflito, mas... Mas era o desafio de que ele necessitava agora. E o trabalho 
o afastaria de Haslewich e de Sara, se conseguisse se concentrar na tarefa em mos.
       Sara suspirava de prazer, enquanto as mos habilidosas da massagista percorriam seu corpo. Sonhava que estava em uma praia tropical, vendo Nick nadar em sua 
direo nas guas cristalinas do mar.
       Do outro lado do pequeno compartimento que a separava do salo de beleza, ela escutou uma risada familiar. Era a mulher que acompanhava Nick!
       De sbito, o sonho se transformou. Outra mulher surgiu na praia entre ela e Nick. Era alta e repleta de curvas, e Nick agora nadava em direo  intrusa.
       - Pronto - disse a massagista. - Terminou.
       Depois de agradecer-lhe, Sara desceu da maca. Devia estar se sentindo totalmente relaxada, mas, graas a Nick e  amiga sensual, estava tensa novamente.
       Quem era ela? Seria amante de Nick? A mulher realmente mostrava exuberncia e atitude. A intensidade do cime perturbava Sara. Contudo, por mais que tentasse, 
no conseguia se livrar do sentimento nem analis-lo.
       Enfim, desesperada, convenceu a si mesma que era ridculo sentir-se dessa maneira. S porque passara quase uma semana lutando contra o desejo que as fantasias 
incitavam nela, no havia motivo para alimentar sentimentos de posse em relao a Nick.
       No, no precisava ter cime, Sara concluiu. Como tambm no precisava sentir aquela necessidade urgente ou tamanha fome...
       - D o nome correto ao que voc sente -7- Sara resmungou diante do espelho, enquanto escoava os cabelos. -  luxria!
       Jamais se considerou uma mulher atraente, tampouco imaginava-se to ciumenta!
       Olhou o relgio. Estava na hora de almoar.
       Luxria. A palavra soava perigosa e emanava imagens lascivas  mente.
       Sara queria eliminar, subjugar e destruir os prprios pensamentos. Mas como? A melhor maneira de lutar contra o fogo era, supostamente, enfrent-lo tambm 
com fogo.
       Nick teria razo? Para se livrar daquela necessidade que a consumia seria preciso viver o desejo at esgot-lo?
       O restaurante, onde ela reservara uma mesa, encontrava-se repleto de famlias, casais e outros scios bem-dispostos aps  exerccio da manh. Sara acompanhava 
a garonete quando os avistou. Nick e a amiga entravam no restaurante, de braos dados e sorrindo com aparente intimidade.
       Dessa vez, o cime a atacou, implacvel. Instantneo, pesado e doloroso. To doloroso que ela teve falta de ar.
       - No  garota que vimos esta manh? - Bobbie perguntou a Nick, to logo divisou Sara.
       Nick, que j a tinha visto e decidira ignor-la para garantir a prpria sanidade, respondeu:
       - .
       - Pelo jeito, est sozinha, Vamos nos juntar a ela.
       - Bobbie sugeriu, fingindo inocncia quando Nick hesitou.
       -  No creio... - ele tentou, mas Bobbie no o deixou terminar. Estava curiosa para conhecer Sara depois do que Nick lhe contara, e ainda mais intrigada com 
a reao dele. - Seria uma enorme grosseria, se no a cumprimentssemos - argumentou.
       - Afinal, ela  praticamente da famlia.
       Nick suspirou, resignado, ao notar que no conseguiria dissuadir Bobbie.
       Quando notou que Nick e a companheira dirigiam-se a sua mesa, Sara ficou ultrajada. Como podia desejar um homem to descarado, to atrevido?
       A mulher, Sara reparou, usava uma linda aliana de casamento.
       - Sara - Nick comeou ao aproximar-se da mesa -, quero lhe apresentar Bobbie...
       - Podemos nos sentar com voc? - Bobbie apressou-se, acomodando-se  mesa antes que Sara pudesse objetar.
       Sara a encarava, atnita. De perto, a mulher era ainda mais bonita. O que fazia com Nick? Era casada, afinal de contas. Como ele tinha coragem? Que ousadia! 
Nick a amava?
       Perdida em pensamentos, Sara no viu Nick sentar-se a seu lado at que o brao musculoso tocou o dela. Pulou na cadeira, como se houvesse queimado a pele. 
Tremia da cabea aos ps, sentiu as faces corarem, enquanto o corpo reagia ao toque.
       Pde notar atravs do olhar de Nick que ele estava espantado com aquela reao. E Sara, sem raciocinar, escutou-se dizendo:
       - Quanto quela proposta que voc sugeriu outro dia, mudei de idia.
       Nick a encarou, estupefato. Sabia exatamente a que "proposta" Sara se referia. Ela falava daquele comentrio idiota sobre experimentarem um sexo rpido e 
casual.
       Foram necessrios vrios segundos para acreditar no que havia escutado. Sara queria fazer sexo com ele... assim, de repente, sem nenhuma introduo.
       - Tenho de ir. - Ela se levantou, aflita.
       No acreditava no que tinha feito. Sara parecia dominada por alguma forma aliengena que comandava seu comportamento como lhe aprouvesse.
       Divertindo-se, Bobbie observava a cena em silncio. Reconhecia a tenso sensual que pairava sobre os dois.
       - Sara - Nick protestou, mas j era tarde. Ela precipitava-se pelo restaurante.
       - Vai satisfazer minha curiosidade? - Bobbie o provocou. - No quer me colocar a par da situao?
       - No h nada para dizer - Nick resmungou. Bobbie riu.
       - No? E quanto a uma certa proposta?
       -   apenas uma bobagem sem importncia - Nick retrucou.
       - Como quiser - Bobbie aceitou, mas continuava a sorrir.
       Sara concordara com o sexo casual... Mas por que Nick no se sentia triunfante? Por que o espanto e aquela sensao estranha na boca do estmago?
       Porque ela havia interpretado mal o comentrio, por isso. Sim, Nick queria lev-la para a cama, mas era um homem convencional. Preferia o jogo da conquista 
a oferecer-se de forma to explcita. To vulgar! Seria esse o motivo de tamanha desiluso?
       Ento enganara-se ao pensar que Sara era partidria da combinao de sexo somente com amor? Por que a possibilidade de possu-la originava tantos sentimentos 
negativos?
       Sara tremia sem parar quando entrou no carro. No podia permanecer no clube. No entendia o que a impelira a agir daquela maneira, mas seu orgulho jamais 
a obrigaria a retirar as palavras.
       O que iria acontecer agora?, perguntou-se. Pelo menos, Nick teria de se explicar  companheira que, na verdade, parecia divertir-se com o desafio de Sara, 
ao invs de ficar revoltada.
       E, sem dvida, Sara no demonstrara o antagonismo que o agonizante cime desencadeava. Teria sido isso que a motivara, a impelira e invadira sua personalidade 
para submet-la a tremendo vexame?
       David escutou o choro to logo estacionou em frente  casa de Olvia. Uma criana estava chorando, berrando, na verdade.
       Por instinto, ele correu em direo ao choro e encontrou as netas. A mais velha abraava a irm caula, que segurava os joelhos cobertos de sangue.
       Quando David abaixou-se ao lado delas, Amlia relatou:
       - Alex se machucou.
       - Sim, estou vendo. Por que no vai chamar sua me, enquanto eu fico aqui tomando conta de Alex?
       - ele sugeriu.
       Obediente, Amlia levantou-se e correu at a casa. Cauteloso, David sorriu para Alex.
       - Posso ver seu machucado?
       - Est doendo - Alex choramingou.
       -  Eu sei. - Ao avistar um caco de vidro com gotas de sangue na calada, David ficou assustado. Alex havia se cortado, mas quo profundamente?
       Muito gentil, sentou-se ao lado da neta e a persuadiu a deix-lo ver o machucado no joelho. Quando certificou-se de que o corte no era grave, respirou aliviado.
       - Voc! O que faz aqui?
       David ficou tenso ao escutar a voz de Olvia. Mas Livy no olhava para ele. O rosto empalideceu quando correu em direo  filha.
       - Oh! Alex...
       - Est tudo bem - David garantiu. - Parece pior do que  na realidade. Foi um corte pequeno...
       - E voc se acha um especialista - Olvia ironizou.
       - No - David respondeu com certa dignidade.
       - Mas sei o suficiente para reconhecer um ferimento leve quando vejo um. Porm,  preciso limpar o machucado. Posso carreg-la at sua casa?
       - No! - Olvia negou imediatamente. Mas, para seu desespero, Alex recusou-se a ir com a me.
       - Quero que ele me leve, mame.
       Furiosa, Olvia rendeu-se e acompanhou David, que carregava Alex nos braos, at a casa.
       Enquanto David tratava do machucado de Alex, Amlia o fitava com total adorao. Olvia, que observava o cenrio, remeteu-se ao passado quando, certa vez, 
acabara nos braos do pai pela mesma razo.
       Devia ter a idade de Alex, na poca, talvez um pouco mais velha. Ela brincava com Max no jardim de Queensmead, longe da vista dos adultos. Eles haviam discutido 
a respeito de alguma coisa e Max a empurrara. Olvia lembrava-se de que lutara para no chorar quando Max comeou a zombar dela, dizendo que a prima era uma chorona.
       Fora Jenny quem os encontrou e assustara-se ao ver os joelhos ensangentados de Olvia, Ela, ento, carregou a sobrinha at o casaro.
       - Tnia, Livvy caiu e machucou os joelhos - Jenny relatou  cunhada.
       Mas quando Jenny aproximou-se de Tnia, Olvia pde ver o olhar de irritao e desgosto da me.
       - Oh! no. No vou segur-la, Jenny. Minhas roupas ficaro cobertas de sangue e este vestido  novo. Leve-a para David. Ele saber o que fazer. David! - Tnia 
chamou-o.
       Olvia notou que o par que conversava com Jon e Ben, virou-se com certa impacincia.
       - Olvia machucou os joelhos. Voc tem de fazer um curativo - Tnia ordenou.
       E seu av, como sempre, zangara-se.
       - Criana impertinente! Deixe que uma das mulheres cuide dela, David.
       Olvia encolheu-se no colo do pai quando este a carregou e levou-a at o banheiro, onde limpou o machucado.
       - Como foi que isso aconteceu? - David perguntou, enquanto ela chorava por causa do anti-sptico que havia passado nos arranhes.
       Temendo que David no acreditasse que Max a tinha empurrado, Olvia no respondera.
       - Tente no ser to desastrada no futuro - ele ralhou. Ento, impaciente, tomou-a nos braos, enquanto Olvia ainda lutava contra as lgrimas.
       Mais uma vez, fora Jenny quem a consolara e preocupara-se com seus sentimentos. No entanto, Olvia sofrera muito por querer que o pai a abraasse.
       E agora ele cuidava da neta com completa ternura e ateno, tal qual Livy havia desejado quando criana. Ele comportava-se como um av amoroso, mas Olvia 
recusava-se a acreditar naquela encenao.
       Por que o faria? David jamais fora um pai amoroso para ela. E, no entanto, agora preparava-se para ser pai novamente. Dessa vez, a criana seria criada com 
a dedicao que ele nunca fora capaz de proporcionar  filha.
       A intensidade das emoes a assustava. Era adulta, me de duas meninas, e devia superar os traumas da infncia.
       Protecionista, ela tirou Alex dele.
       - No! - a menina exclamou, estendendo os braos a David.
       -  Deixe-me lev-la para cima - David pediu, gentil.
       Olvia parecia to apavorada, to plida, que ele sentiu o corao se apertar. Queria abraar a filha e as netas de uma s vez. Podia ver que Livvy estava 
magoada e zangada, atravs do orgulho e da dor que cintilavam em seus olhos. E, sobretudo, reconhecia que havia falhado com ela.
       Em vez de digladiar-se com Alex, Olvia concedeu, j que no tinha alternativa. Assentindo, guiou David at o quarto das meninas.
       Aps meia hora, as netas liberaram o av. Ele teve de ver o computador e o dever de casa, antes que Olvia tirasse David do quarto.
       Ela caminhou at a porta da frente com o intuito de dispens-lo.
       - Olvia, por que no retornou meu telefonema? - ele perguntou, de repente.
       Olvia continuou de costas para o pai.
       - Por que eu o faria? Por acaso tinha algo a dizer que eu quisesse ouvir, pai?
       O tom de voz amargo o feriu. Livvy j sabia o que David tinha a dizer. Ele deduziu o fato atravs da resposta provocativa e do comportamento arrogante.
       - Talvez no quisesse ouvir o que eu tinha a dizer, Olvia, mas... - Ele tentou outra vez. - Escute, sei que no fui um bom pai para voc e Jack, e entendo 
como se sente...
       Ento, Olvia se virou, furiosa.
       - No entende nada. Como entenderia, se seu pai o amou? Ele praticamente o idolatrava, e ainda idolatra. Voc sempre me tratou como se eu fosse um estorvo!
       - Olvia. - David no se conteve e aproximou-se para abra-la.
       No mesmo instante, Olvia recuou. No podia acreditar que aquele homem ousara ir  casa dela.
       - Livvy - David suplicou. - No sabe como me sinto culpado... quanto eu gostaria...
       - Culpado? Que absurdo! Tem medo de que eu conte a Honor a espcie de pessoa que voc ? Sim, fiquei sabendo que sua mulher est grvida - ela afirmou em 
tom acusatrio.
       - Honor j sabe dos pecados e falhas que cometi no passado - David a interrompeu com tamanha ternura que Olvia sentiu a raiva dissipar-se por um momento.
       Na infncia, testemunhara o pai passar por todos os tipos de humor: euforia quando algo dava certo, introspeco quando se frustrava, exigncia para com os 
outros, insensvel e frio ao lidar com as emoes alheias. Enfim, um homem que ela julgara ser vilo, egosta e fraco.
       Contudo, a pessoa que agora a fitava no possua nada disso. Confusa, Olvia sentia a silenciosa resignao por ele no poder aproximar-se.
       Angustiado, David queria comear a construir um relacionamento com a filha, o qual poderia auxiliar a ambos a superar o sofrimento da infncia de Olvia.
       - Honor e eu estamos esperando um bebe - ele prosseguiu. - Ser seu meio-irmo, Olvia. Ou meia-irm.
       A inesperada dor que as palavras causaram renovou as mgoas.
       - No quero saber. E se veio aqui s para me dizer isso...
       - Contar-lhe sobre o beb no  o nico objetivo de minha visita - David informou.
       Ele respirou fundo, angariando coragem.
       - Quando mencionei a Jenny que Honor e eu estvamos desapontados porque voc no pde comparecer  festa que organizamos, ela me falou que est tendo dificuldades 
de encontrar uma bab para as meninas. Honor e eu podemos ajud-la, Olvia. Posso pegar as crianas na escola todos os dias. Pensei.:. De to irada, Olvia apertou 
a maaneta da porta at os dedos tornarem-se brancos.
       - Pensou o qu? Acredita mesmo que eu deixaria minhas filhas perto de voc?
       Descontrolada, Olvia reparou que estava gritando, mas no conseguia evitar.
       - Precisa de ajuda, Olvia - David argumentou com toda a calma que pde obter.
       - Preciso, mas no quero nada de voc. Por acaso, resolveu praticar sua paternidade com minhas filhas para estar perfeito quando seu filho nascer?
       Ela riu, sarcstica.
       - Meu Deus, que pretenso! Como tem coragem de trazer outra vida ao mundo? No bastaram os erros que cometeu comigo e com Jack?
       - Livy. - Havia sofrimento e um certo tom de protesto na voz de David. Sabia... na verdade, esperava que ela recusasse sua sugesto, mas a agonizante hostilidade 
e a fria, que Olvia expressava, arrasavam seu corao de pai.
       Ele prprio havia causado tudo aquilo.
       - Livy, sei como deve estar se sentindo.
       - O qu? - Olvia o encarou, incrdula. - Pare com isso! Como pode saber o que  ser rejeitada pelos pais... ser desprezada e humilhada por causa de seu sexo? 
A criana indesejada. Meu av sempre dizia que Max deveria ter sido seu filho e eu podia ver em seus olhos que voc tambm o queria.
       - No  verdade, Livy - ele negou. - Eu era fraco e imaturo demais para discordar de meu pai quando ele disse que Max deveria ter sido meu filho. Sim, Max 
se parecia mais comigo do que com Jon. No pretendo usar esse argumento como desculpa, mas estou tentando explicar. Nunca a odiei, filha. Jamais!
       - Odiou, sim - ela o contradisse. - No que me importe. Quem gostaria d ter como pai um ladro mentiroso? - Olvia o atacou. - Voc no desejou que Max fosse 
seu filho mais do que desejei que Jon e Jenny fossem meus pais.
       Se tencionava mago-lo, ela conseguiu. No somente pelas palavras duras, mas tambm pela criana ferida e sem defesas que havia dado seu amor aos tios porque 
sentira que os prprios pais a tinham rejeitado. David sofria por Olvia.
       - Livy, escute-me - ele implorou. - Todos sabemos que me maravilhosa voc . Mas tambm sabemos que sem Caspar e trabalhando o dia inteiro...
       - Voc andou falando de mim pelas costas - Olvia esbravejou. - Oh! posso imaginar os comentrios. "Pobre Olvia, os pais no a quiseram e agora o marido 
a dispensou". Para sua informao, fui eu quem decidiu acabar com o casamento. - Ela empinou o nariz, orgulhosa. - Dizem que a criana tem como modelo o relacionamento 
dos pais por mais danoso e destrutivo que tenha sido. Se essa teoria for verdadeira, no  de se espantar que meu casamento tenha terminado.
       - Livy, por favor - David protestou, chocado.
       -  No me chame de Livy. - O tom de voz de Olvia continuava a aumentar, conforme a revolta crescia. - No tem esse direito. Alis, voc no possui direito 
nenhum sobre mim. Como ousa vir at aqui para me bajular, fingir preocupao com meu bem-estar e tentar redimir-se s custas de minhas filhas? No pense que j no 
percebi seu jogo. O novo David Crighton convenceu a todos e resolveu fazer o que  certo. O filho perfeito. O irmo perfeito. O marido perfeito e agora o pai perfeito. 
Talvez o seja para o filho de Honor, mas certamente nunca o foi para mim e Jack.
       S de imaginar que o pai teria outro filho, recomearia uma nova vida e uma nova famlia, Olvia sentia a emoo selvagem e obscura domin-la a ponto de afog-la 
em um oceano de sofrimento.
       David a escutava, quieto, com o intuito de permitir que ela extravasasse toda a raiva, antes de tentar consol-la. Entretanto, Olvia no lhe deu chance para 
nada mais.
       - Quero que v embora. Agora. Esta  minha casa. E aquelas crianas so minhas filhas.
       - E minhas netas - David completou. Porm, ele percebeu que cometera um erro ao ver
       a expresso colrica de Olvia.
       -  Por favor, deixe-me fazer alguma coisa para ajud-la, Livy.
       -  A nica coisa que pode fazer  ficar fora de minha vida! - Olvia exclamou. - Odeio voc!
       Fatigado, David massageava as tmporas enquanto dirigia. Havia falhado em vrios aspectos de sua vida, mas nenhum deles se comparava com o que fizera a Olvia.
       Mais do que nunca, estava ciente do sofrimento da filha. Sentia-se s e abandonada. E David suspeitava de que ela ainda nutria sentimentos fortes por Caspar.
       E no era somente a situao de Livy que o impelia a tom-la nos braos e expressar todo o amor paterno que no dera a ela quando criana. Havia as netas, 
em especial Amlia, que herdara os olhos e a ansiedade da me. No culpava Olvia por no ver que a filha mais velha assumia um papel que ela mesma achara extremamente 
oneroso, o de proteger um adulto.
       Mas David culparia a si mesmo, caso no fosse capaz de proteger Amlia... ou ousasse virar as costas para a neta, tal qual fizera com Livy.
       CAPITULO XI
       Aflita, Olvia notou que as filhas brincavam com a comida. Mostravam-se desanimadas desde o momento em que David fora embora, e era evidente que sentiam a 
atmosfera tensa que pairava na cozinha.
       - Papai vai voltar para o Natal? - Alex perguntou, de repente, em voz alta, ignorando o olhar severo de Amlia.
       Olvia respirou fundo. J havia explicado s meninas que ela e Caspar iriam viver separados e garantiu-lhes que, to logo ele encontrasse um lugar permanente 
para morar, elas o veriam. A despeito dos sentimentos, Olvia incentivava a relao das filhas com Caspar.
       - Querida, j conversamos sobre o fato de papai morar em outra casa.
       - No quero que ele more longe da gente, quero que fique conosco.
       A atitude de Alex era quase agressiva quando encarou a me, beligerante.
       De olhos fechados, Olvia contou at dez em pensamento.
       Enfim, conseguiu convencer as meninas de que veriam Caspar novamente, e tambm explicou-lhes por que no poderiam passar o Natal todos juntos. Assim que terminou 
um captulo do livro de histrias, ela ajeitou as cobertas das filhas.
       - Mame...
       Olvia voltou a ficar tensa.
       - Sim, Alex? - Deus, estava to cansada e ainda havia tanto a fazer antes de se deitar. Porm, infelizmente, restava-lhe um pouco de energia para pensar na 
inesperada visita de seu pai. Como ele se atrevia a invadir a vida delas? E quanto  pseudo-oferta de amor que havia sugerido?
       - Aquele homem que veio aqui hoje se parece com tio Jon.  verdade que ele  nosso av?
       Olvia gelou. Como elas descobriram? O dio a invadiu. Teria seu pai ousado contar-lhes?
       Na outra cama, Amlia emitia sons estranhos. Olvia fitou a filha.
       - Alex, j lhe disse para no falar nisso - Amlia ralhou com a irm caula.
       Olvia sentou-se na cama de Amlia. Tremia violentamente, mas tentou suprimir a reao para que as filhas no vissem.
       - Por que pergunta, querida? - ela questionou Alex.
       - Leo disse que  nosso av - Alex confessou. - Ele o chama de tio David, e quando falei que no temos nenhum tio David, Leo disse que  tio dele, mas tambm 
 nosso av.
       - Entendo.
       Desesperada, Olvia no sabia como agir. Jamais discutira sobre o pai ou a prpria infncia com as filhas. Por um lado, eram muito crianas para entender 
as complicaes do relacionamento de Olvia com os pais, e, por outro, ela nunca via a me e tampouco acreditara que David tivesse coragem de voltar a Haslewich.
       -  verdade? - Alex persistiu.
       A garganta de Olvia ficou seca. Queria negar, mas como poderia faz-lo sem mentir?
       - Eu... sim,  verdade, filha - cedeu, por fim.
       Percebeu o olhar atormentado de Amlia. Subitamente, lembrou-se de quando tinha a idade de Amlia e observava a me correr ao toalete, vtima de um de seus 
ataques de bulimia.
       Por um momento, fechou os olhos. Se Caspar estivesse l, saberia o que fazer, o que dizer.
       Lgrimas ameaavam surgir. Ele ficara to furioso quando descobrira que Olvia no lhe contara que David havia voltado. Pensamentos desconexos invadiam-lhe 
a mente. Por que lamentava a separao? Caspar era o nico culpado, no ela.
       - Mas como ele pode ser nosso av? - Alex continuava, insistente.
       - Ele  nosso av porque  irmo de tio Jon, sua boba - Amlia explicou, evitando olhar para Olvia.
       Alex encarou a irm.
       -  Se ele  nosso av, por que a gente nunca o viu? Leo disse que v tio Jon e tia Jenny todos os dias.
       S de ouvi-las falar de David, comparar a ausncia de relao com o av ao amor que existia entre Jon, Jenny e os netos, Olvia sentia nuseas. Tentara compensar 
as privaes, prover s filhas avs substitutos, tal qual Jenny e Jon haviam sido para Olvia no papel de pais amorosos.
       No entanto, recentemente, ela vinha observando os tios, temendo v-los preferir os netos verdadeiros a Alex e Amlia.
       -  Mas quero saber por que ele  nosso av, se nunca o vimos? - Alex teimava.
       - Chega! - Olvia exclamou, e Alex, assustada, encolheu-se sob as cobertas. - No quero ouvir mais uma palavra sobre esse assunto - ela continuou, amenizando 
o tom de voz.
       Depois de beij-las, Olvia dirigiu-se  porta. Antes de fech-la, escutou Alex sussurrar para Amlia:
       - No ligo para o que voc diz. Gosto dele.
       - Nick, est se sentindo bem?
       Nick parou  porta do quarto do irmo.
       - Estou, por qu?
       - Nos ltimos dez minutos voc parecia estar em outro mundo. No foi  academia de ginstica e...
       - Quer parar de se preocupar comigo como se eu fosse uma criana? - Nick esbravejou.
       -  Nesse caso - Saul perguntou -, o que est absorvendo sua ateno a ponto de tir-lo do mundo real?
       Nick recusou-se a responder. A verdade era que vinha pensando em Sara e naquela inacreditvel proposta. O motivo seria o fato de querer fazer sexo sem compromisso? 
Ou talvez porque ela aceitara empreender um jogo perigoso?
       Irritado, Nick perguntou-se por que era to difcil acreditar que Sara queria apenas sexo e no um relacionamento real. A maioria dos homens ficaria exultante 
com a chance de lev-la para a cama. Afinal, sexo sem emoo ou compromisso fazia parte da fantasia dos solteires convictos. E Nick pretendia permanecer solteiro! 
Do contrrio, seria impossvel continuar o trabalho que tanto amava.
       Oh! a princpio, imaginara uma mulher que aceitaria os momentos em que ele simplesmente faria as malas e sumiria por tempo indeterminado. Porm, aos poucos, 
tudo mudaria. Sem dvida, a companheira almejaria filhos e, se o relacionamento inclusse crianas, haveria muita presso para ele desistir desse tipo de trabalho 
a fim de priorizar a famlia, j que Nick corria o risco de no retornar das aventuras perigosas em que se metia.
       Um dia, talvez, estaria disposto a trocar seu trabalho atual por um escritrio de advocacia. Mas esse dia ainda estava longe, e Sara cobraria uma atitude, 
uma vez que era o tipo de mulher que exigia de seu companheiro.
       L estava ele, outra vez somando as emoes  equao.
       Talvez devesse manobrar Sara e blefar, no sentindo de levar a cabo o sexo casual e ver por quanto tempo ela sustentaria a posio.
       Quantos homens ficariam radiantes com a perspectiva de possuir a mulher que os fazia arder de desejo?, Nick perguntou-se, infeliz. A necessidade de ter Sara 
era to grandiosa que chegava a doer.
       -Mas ao longo dos anos tudo mudou. Livy mudou,.. -  natural que isso acontea - Molly disse a Caspar. - Chama-se amadurecer.
       - Desculpe-me. Eu a estou aborrecendo - Caspar murmurou, envergonhado.
       A nica noite que pretendera passar em Williamsville transformou-se em quatro. O almoo no restaurante italiano, que Molly recomendara, fora extremamente 
agradvel. E, para completar, a velha caminhonete provara ser to difcil de consertar que Caspar oferecera-se para pegar Molly em casa e lev-la ao trabalho, como 
forma de agradecimento pela indicao do restaurante, e porque ela admitira que Caspar no era o nico a nutrir o sonho de pilotar uma Harley-Davidson.
       Agora, aps poucos dias, Caspar tinha a ntida sensao de que a conhecia h anos. Molly era o tipo de garota que costumava namorar no colgio. Espirituosa, 
confiante, orgulhosa de si e determinada a revelar a forte personalidade de maneira suave, tal qual as jovens com quem ele sara na adolescncia.
       - No est me aborrecendo - ela o corrigiu. O sorriso firme indicava sua recusa em jogar e a ofensa que o comentrio lhe causara. - Eu pontuava que mudanas 
fazem parte da condio humana. Ressentir-se de um processo natural naqueles que amamos me sugere...
       - Voc est me analisando - Caspar queixou-se.
       -  meu trabalho - Molly argumentou.
       -  assim que me v? Como um paciente em potencial?
       Ela levou alguns segundos para responder, uma hesitante caracterstica de quem expunha certa vulnerabilidade. Tal percepo alertou os instintos de Caspar.
       Enquanto Molly brincava com a xcara de caf, ele esperava. Estaria mentindo a si mesmo, se tentasse fingir que ela no o atraa. Corpo e mente encontravam-se 
empolgados com a psicloga.
       Mas Caspar tambm mentiria para si, caso ignorasse que admitir os sentimentos lhe causava uma certa parcela de culpa, embora no houvesse razo para tal. 
Ele e Livvy estavam separados, sendo que a deciso havia partido dela. Portanto, via-se livre para... o qu? Usufruir da companhia de outra mulher, paquer-la, desej-la... 
dormir com ela... viver um novo relacionamento?
       Enfim, Molly interrompeu-lhe os pensamentos.
       - Eu o vejo como um homem que ainda tenta elaborar os problemas de relacionamento com outra mulher, no caso sua esposa. Mas o casamento no tem nada a ver 
com isso. Olvia continua a ocupar sua mente noventa e nove por cento do tempo.
       - Porque no entendo o que aconteceu a ela - Caspar explodiu.
       - Voc chegou a perguntar-lhe? - Molly sugeriu, calma, e acrescentou: - Ou apenas assumiu que sabia e disse-lhe como ela devia agir? Ficaria surpreso em saber 
que a maioria de meus clientes se queixa desse mesmo problema. Eles no se sentem valorizados e suas tentativas de se fazerem ouvir acabam perdendo-se em discusses 
desgastantes.
       -  Claro que eu a ouvia - Caspar se defendeu. - Sou advogado. Faz parte de meu trabalho escutar os outros,
       -  E isso que os advogados fazem? - Molly o desafiou.
       Caspar riu.
       - Bem, em certas ocasies fazem outras coisas, como dirigir uma Harley-Davidson e aproveitar uma boa comida italiana com uma mulher linda e inteligente.
       - Linda e inteligente. O que mais pensa de mim, Caspar? Talvez me veja como uma pessoa que possa preencher o vazio em sua cama, o qual j comeou a incomod-lo.
       Caspar hesitou. Para aquela mulher nada alm da verdade seria vlido. Ela no aceitaria menos, e Caspar a estaria insultando, caso tentasse dissimular. E, 
para ser franco, ele no tencionava mago-la de forma alguma.
       - Eu a vejo como algum nico e especial - Caspar revelou, sincero. - Sim, quero fazer amor com voc. Que homem no gostaria? Mas desfrutar de sua companhia 
j vale a pena, Molly. Gosto de escutar sua voz, admirar seu sorriso, observ-la. Adoro sua mente fervorosa e seu suter que emoldura esses seios deliciosos. Gosto 
do brilho em seus olhos quando voc fala das pessoas que quer ajudar, e gosto de sua postura incisiva quando afirma sua opinio. Gosto de v-la dirigir aquela lata 
velha quando poderia ter um automvel mais luxuoso. Gosto de saber que resolveu seguir carreira neste cidade, ao invs de expor sua marcante habilidade em uma metrpole 
como Washington, por exemplo. A propsito, o que a mantm aqui?
       Molly desviou o olhar e permaneceu calada durante algum tempo. Quando voltou a fit-lo, Caspar notou um brilho emotivo naqueles olhos azulados que lhe cortou 
o corao.
       - Cresci aqui. Mas quando me encontrava na faculdade, houve um acidente na indstria qumica local. Eles fabricavam pesticidas e coisas do gnero para fazendeiros. 
A exploso formou uma nuvem de gs sobre a cidade.
       Ela fez uma pausa antes de prosseguir.
       -  Minha irm caula estava na escola naquele dia. Ela tinha quatro anos, uma tmpora na famlia, e todos ns a amvamos. Ela e vrias outras crianas respiraram 
o gs venenoso e, por conseqncia, sofreram srios danos cerebrais. Os donos da fbrica compensaram as vtimas,  claro, mas que dinheiro paga a perda da alegria 
de viver? - Molly sorriu, irnica. - Naquela poca eu pretendia estudar direito. Havia planejado uma carreira brilhante na Casa Branca. Mas quando vi o jeito que 
os advogados da indstria qumica lidavam com o acidente, eu...
       Molly cruzou os braos.
       - Acho que no tive coragem de me tornar uma fria advogada e tambm, como tal - ela respirou fundo -, eu no conseguiria cuidar de minha irm. Ela mora em 
uma clnica especializada. Visito-a toda a semana, mas no me reconhece mais. - Seus olhos ficaram marejados.
       - Meus pais morreram faz algum tempo... dizem que no suportaram ver minha irm daquele jeito. Em minha linha de trabalho, vejo todo o tipo de sofrimento 
humano, mas para mim no h nada pior do que os pais verem a filha destruda e no poderem fazer nada a respeito.
       Desolado, Caspar meneou a cabea. O que podia dizer? Qualquer palavra de consolo parecia inadequada ou grosseira. Por impulso, ele segurou a mo de Molly.
       - Obrigada. - Ela retirou a mo, constrangida.
       - Creio que me tornei um tanto cnica ao longo dos anos, Tendo a avaliar quanto devo revelar acerca de minha vida pessoal e que grau de acesso posso permitir 
 pessoa que me escuta.
       - Que nota voc me deu? - Caspar perguntou-lhe, zombeteiro.-
       -  Voc no faz parte disso - Molly retrucou, mas no disse em que parte de sua vida Caspar se encaixava.
       - Falar que estou morrendo de saudade de minhas filhas parece-me egosmo - ele confessou, aps alguns segundos em silncio. - Mas penso nelas mais e mais 
a cada dia.
       - Est em contato com elas?
       - No. Ns, ou melhor, Olvia, decidiu esperar os trmites legais para eu entrar em contato com elas. Sabem que estou viajando pelos Estados Unidos, mas com 
a proximidade do Natal... Um de meus irmos tem um chal em Aspen. Eu adoraria levar as meninas para l durante os feriados, embora no saiba que conseqncia a 
separao teve sobre elas.
       Molly o escutava com ateno. Notou que ele usava a expresso inglesa "as meninas", ao invs de utilizar o estilo americano de referir-se s filhas como "as 
garotas".
       Caspar a intrigava, deliciava-a e a alertava quanto ao perigo de envolver-se com um homem recm-separado.
       Havia passado dos trinta, portanto no era ingnua em se tratando de homens. Aps um breve casamento, Molly decidira que o nico compromisso que teria seria 
consigo mesma. E, a despeito dos protestos de Caspar, ele mostrava quanto ainda estava comprometido com Olvia e as filhas.
       -  melhor irmos. - Molly verificou o relgio. - O mecnico prometeu que entregaria o carro ainda hoje.
       O conserto da velha caminhonete havia se tornado uma brincadeira especial entre ambos. Porm, no formavam um casal especial e a falta que o automvel lhe 
fazia representava tudo, menos uma brincadeira. Molly podia substitu-lo, mas o veculo pertencera a seus pais e era a ltima ligao tangvel entre a mulher de 
agora e a da infncia.. Por isso, ela tendia a tratar e valorizar a caminhonete como se esta fosse um animal de estimao.
       - Em seu lugar, eu me livraria daquela coisa e compraria uma Harley - Caspar brincou quando saram  rua.
       - De jeito nenhum! Essas motos so para advogados solitrios - Molly zombou. A velocidade com que estabeleceram tamanha intimidade a perturbava, nos momentos 
em que se dava ao luxo de examinar a relao.
       Mas por que se preocupar com um problema que logo desapareceria? Caspar no pretendia permanecer muito tempo na cidade e ela certamente no o encorajaria 
a ficar. E, para reforar o fato, enquanto caminhavam at a motocicleta, Molly perguntou:
       - A que horas pretende partir amanh?
       - Logo aps o desjejum. - Caspar havia pensado em prolongar a jornada e talvez passar o Natal no Mxico. Declinara vrios convites de sua famlia, porque 
temia lembrar-se das filhas durante a confraternizao. Aquela hora do dia, ele em geral pegava as meninas na escola e as levava para casa. To logo decidisse o 
que fazer da vida e se estabelecesse, iria passar um bom tempo com elas.
       Ainda podia visualizar o olhar das duas quando as vira pela ltima vez.
       Quando aproximaram-se da moto, Molly parou para atender o celular.
       - O qu? Sim. Sim, estou indo. - O rosto de Molly tornou-se plido. Depois de desligar o celular, ela o encarou, aflita. - Era da clnica. Minha irm... Ela 
no est bem... Preciso v-la. Sinto muito. Foi timo estar com voc, mas tenho de ir. Adeus, Caspar.
       Ansiosa, Olvia destrancou a porta do carro, Prevendo que no haveria engarrafamento, seria fcil chegar  escola a tempo de evitar outro sermo da diretora.
       Com os nervos  flor da pele, ela acelerou o carro como qualquer motorista impaciente. Sentia seu interior ferver. Assim que entrara no escritrio naquela 
manh, Jon a chamara. Presumindo que ele queria discutir assuntos de trabalho, Olvia seguira o tio a sua sala. Mas descobrira tarde demais que Jon, na verdade, 
desejava persuadi-la a deixar David ajud-la.
       - Seu pai quer apoi-la, Livy, reparar os erros do passado. Por que no lhe d outra chance?
       - J lhe dei diversas chances enquanto eu estava crescendo - Olvia havia retrucado, amarga.
       O celular comeou a tocar quando ela se aproximou da escola. Por um instante, pensou em no atend-lo. Mas e se fosse importante? E se fosse Caspar?
       Parou o carro e pegou o telefone que indicava o nmero da casa de Jenny.
       - Livvy! - Jenny exclamou, ansiosa.
       -  Sim, sou eu. Estou a caminho da escola para pegar as meninas e no posso me atrasar...
       - Livvy, as meninas esto aqui.
       - O qu? E impossvel. Elas deviam estar na creche. Como chegaram at voc?
       Houve uma breve pausa, antes de Jenny responder.
       -  Escute,  melhor conversarmos quando voc chegar.
       - Quando eu chegar... Jenny, aconteceu alguma coisa? As meninas...
       - Elas esto timas - Jenny assegurou. - Mas h um problema... Espero voc aqui, Livvy.
       As meninas estavam na casa de Jenny e Jon... Ao desviar o trajeto em direo  residncia dos tios, os pensamentos de Livvy misturavam-se  preocupao maternal 
e  ansiedade.
       Como as meninas chegaram  casa de Jenny? Os tios moravam a quilmetros de distncia da escola.
       O trfego intenso a obrigou a se atrasar e, vinte minutos depois, ela estacionava o carro em frente  garagem de Jenny. Largando a porta aberta, Olvia correu 
at a casa.
       Jenny estava de prontido, pois recebeu a sobrinha sem que esta precisasse tocar a campainha.
       - Quero falar com voc antes que veja as meninas - Jenny dizia, levando Olvia para a sala de estar.
       - O que houve? Por qu..,?
       - No se aflija. Elas esto bem - Jenny reforou, firme.
       Recomear...
       -  Mas o que fazem aqui? Como vieram parar aqui?
       -  Elas vieram andando - informou-lhe a tia, pesarosa.
       Livy sentiu o pavor glido percorrer-lhe o corpo ao imaginar a longa jornada da escola  casa de Jon e Jenny. Era uma regio extensa, rodeada de pastos e 
s vezes ocupada por carros em alta velocidade ou deserta em outras ocasies, representando todo o tipo de perigo a crianas indefesas.
       Olvia comeou a sentir nuseas.
       - Elas andaram sozinhas. - Ficou horrorizada ante tamanha negligncia como me. Como no pressentira o perigo que as filhas corriam?
       - Aparentemente, elas saram to logo as aulas terminaram e conseguiram enganar a professora - Jenny contou. - Tenho de admitir que foram muito espertas.
       - Mas Amlia sabe que no deve sair da escola sem a escolta de um adulto... ela sabe, Jenny.
       - Entendo, Livvy. No foi Amlia quem liderou a empreitada - Jenny esclareceu. Pasma, Olvia a encarou.
       - Alex... - Ela calou-se. Das duas, Alex era a mais aventureira, a mais teimosa. - Mas por qu?
       Jenny respirou fundo. Esta era a parte mais difcil que s preparava para enfrentar desde que as meninas haviam chegado, exaustas e imundas.
       Como elas conseguiram empreender uma caminhada to longa sem serem vistas por algum que reportasse o fato  polcia, Jenny no sabia. No entanto, tinha certeza 
de que o anjo da guarda das meninas as vigiara e as protegera.
       - Sei que elas sentem saudade de voc e tio Jon - Olvia dizia, trmula. - Mas tentei explicar-lhes que vocs esto ocupados com...
       - Elas no vieram at aqui para me visitar, Olvia. - Jenny no conseguia encarar a sobrinha. - As meninas queriam saber do av delas.
       - Do av? - Olvia no conseguia organizar as emoes turbulentas. - O que disse a elas?
       - Disse que tinham de conversar com voc - Jenny respondeu, amorosa.
       - Ele foi me visitar ontem. Meu pai ofereceu-se para me ajudar com as meninas. Eu recusei. Disse-lhe que no quero minhas filhas perto dele, e falei srio. 
Leo contou-lhes que David  av delas.
       Olvia prosseguia em voz baixa:
       - As meninas o viram... meu pai... Alex caiu no jardim e ele a socorreu. Elas deduziram sozinhas quem era ele. Fizeram tantas perguntas... - Olvia fechou 
os olhos. - O que disseram a voc?
       - Perguntaram-me se o homem que conheceram era av delas e irmo de Jon. Elas querem saber por que nunca o viram antes.
       - E o que voc respondeu? - Olvia perguntou, angustiada.
       - No cabe a mim explicar-lhes a situao, Livvy. Elas so muito novas. S falei que David estava morando em outro pas e que se mudou para c novamente.
       Olvia suspirou. Podia entender quo impossvel fora para Jenny tentar explicar a verdade para as meninas.
       - Acho que vou lev-las para casa. Obrigada por cuidar delas, Jenny.
       Ela parecia to infeliz que Jenny a abraou em silenciosa comiserao.
       - Mame...
       Amlia a viu primeiro.
       Sem prembulos, Olvia' anunciou.que as levaria para casa, e pediu-lhes que agradecessem a Jenny por ter cuidado delas.
       O carro no era o lugar adequado para question-las. Ao final do rpido percurso, Alex bocejava de cansao e precisou ser carregada  casa. Ela meneou a cabea 
em negativa quando Livvy ofereceu-lhe um lanche.
       -  Tia Jenny fez sanduches para ns enquanto espervamos voc chegar, mame - Amlia contou.
       Olvia prometera a si mesma que no assustaria as filhas expondo a raiva, mas o medo do que poderia ter acontecido s meninas a dilacerava. Devia agradecer 
a Deus o fato de estarem ss e salvas. Por que ento ainda sentia aquele mpeto de gritar e esbravejar por terem fugido da escola quando sabiam que era expressamente 
proibido?
       Contudo, para aumentar seu desespero, os olhos de Amlia traduziam o pavor de ser aoitada pela fria da me. Rendida, Olvia ajoelhou-se diante das filhas 
e as abraou.
       - Papai e eu sempre dissemos a vocs que s poderiam sair da escola conosco ou sabendo que outro adulto iria busc-las. No  verdade? - ela perguntou com 
toda a calma.
       Alex, ainda um beb, tremia de vontade de chorar.
       - Quando meu pai vai voltar? - sussurrou, arrasada. - Quero que ele venha para casa.
       - Oh! querida. - O peso da culpa esmagava Olvia.
       - Papai no gosta mais da gente - Alex continuou, chorosa.
       - Meu amor, ele ama vocs - Olvia respondeu de pronto, sabendo ser verdade.
       - Ento por que ele no est aqui? - Alex indagou.
       - Voc sabe por qu, querida.
       - Papai e mame no vo mais morar juntos - Amlia informou  irm, mas quando olhou para Olvia ficou claro que ela sofria mais que Alex.
       Previra aquele momento e devia estar preparada para ele, mas, no fundo, Olvia esperava... convencera-se de que as meninas haviam aceitado a separao.
       - J que no podemos ter um pai, quero ter um av - Alex anunciou. - Todas as crianas da escola tm avs e avs.
       - Oh! Alex - Olvia protestou, percebendo com pesar que o pequeno corpo da filha resistia s tentativas de amor e conforto maternos.
       - Amlia... - Olvia virou-se para a outra filha. Amava-as tanto que nunca lhe ocorrera que poderiam rejeit-la ou culp-la por terem perdido Caspar. - Voc 
 mais velha que Alex. Sabe que no podem sair sozinhas da escola e andar pelas ruas.
       - Tive de fazer isso, me - Amlia explicou-se, ansiosa. - Alex disse que iria sem mim, se eu no fosse.
       O olhar que ela lanou  irm, e depois  me, foi definitivo. Olvia lembrava-se perfeitamente da sensao de ser responsvel pelo bem-estar e segurana 
de um irmo mais novo; a ansiedade, o medo, a raiva e o ressentimento contra o mundo que a obrigavam a um fardo to pesado, combinados  estica determinao de 
assumir tal tarefa, representaram um grande sofrimento para ela.    ,
       Amlia... O que fazia s filhas?, perguntou-se, dilacerada. Que danos estava causando ao corao das duas?
       - Eu queria saber do vov - Alex exigiu. - Voc no nos contou nada, ento fui perguntar ao tio Jon.
       Cada palavra acrescentava mais combustvel  culpa de Olvia. Como conseguiria voltar a trabalhar agora? No suportaria perd-las de vista nem por um segundo!
       Era inevitvel concluir que nada disso teria acontecido, se Caspar estivesse ali.
       Caspar...
       Olvia sonhara com ele na noite anterior - outra vez. Despertara durante a madrugada, com o rosto repleto de lgrimas e os braos esticados sobre o espao 
vazio da cama.
       Porm, sonhara com o Caspar pelo qual se apaixonara, e no com o marido que ele havia se tornado, Olvia findou, obstinada.
       - Amlia e Alex, tm de me prometer que nunca mais sairo da escola sozinhas. Aquelas ruas so muito perigosas e vocs... - Ela queria dizer que ambas eram 
preciosas e vulnerveis demais, mas sentiu que tambm eram muito crianas para entender.
       Agora enfrentava o dilema que tantas mes solitrias deviam encarar. Precisava trabalhar para sustentar as filhas, oferecer-lhes o estilo de vida a que se 
acostumaram. A casa estava financiada e Caspar cumpria sua parte, mas era Olvia quem representava a principal fonte de renda.
       Ora, podiam fazer economias. Ela venderia a casa, compraria outra menor, talvez em Haslewich, e estava preparada para, sacrifcios.
       No entanto, ainda teria de trabalhar para viver. Portanto, precisava de uma retaguarda que garantisse o bem-estar e a segurana das filhas enquanto estivesse 
no trabalho.
       Recebera outro recado da agncia de empregos, dizendo que no conseguiam encontrar ningum que correspondesse s necessidades de Olvia. Jenny, naquele momento, 
no podia ajud-la. Todas as mulheres da famlia possuam as prprias responsabilidades e deveres... e, alm do mais, no permitiria que suas filhas se sentissem 
 margem da vida de outras pessoas, sempre em segundo plano, sempre de lado observando crianas receberem o amor de pais e avs.
       Olvia fechou os olhos. No havia outra sada. Pelo bem das filhas tinha de engolir o orgulho e o rancor.
       Vira o olhar de David quando este cuidara dos joelhos de Alex. As lgrimas ofuscaram-lhe a viso. Por amor s filhas restava-lhe somente uma escolha.
       Sara verificou o relgio. Eram mais de oito horas da noite e sua escrivaninha estava vazia. J podia ter ido para casa assistir a seu programa favorito, deitada 
no confortvel sof. Ento, o que fazia no escritrio?
       Estava trabalhando, disse a si mesma, ignorando o fato de que j havia terminado fazia quinze minutos. O que esperava, afinal? S porque indicara a Nick que 
tinha mudado de idia, embora o ultimato fosse a fonte de sua aflio, esperava que ele largasse tudo e viesse correndo para busc-la?
       Claro que no.
       Mentirosa, repreendeu-se em pensamento. Era exatamente isso que almejava. Estaria ele tentando atorment-la, humilh-la ou seria o tipo de homem que perdia 
interesse uma vez que sua presa se rendesse?
       Incapaz de refletir com lgica para organizar os pensamentos caticos, Sara levantou-se e comeou a caminhar pelo escritrio.
       Se ele no a queria, tudo bem. Afinal, fora Nick quem a abordara, e no o contrrio. Sara havia notado quo competitivo ele era, mas...
       Ficou tensa quando o telefone tocou. No havia telefone no apartamento, por isso permanecera no escritrio, procurando trabalho para fazer no caso de...
       Agarrou o aparelho e irritou-se quando descobriu que a pessoa havia discado o nmero errado e que, na verdade, desejava reservar uma mesa no restaurante.
       Educada, pediu-lhe que esperasse enquanto ia ao restaurante pegar o livro de reservas.
       Aps encontrar o livro, ela j estava a caminho do escritrio quando o avistou. Nick tinha acabado de entrar. Era uma noite chuvosa e, enquanto o observava 
com explcita avidez, viu-o sacudir as gotas, de chuva das roupas.
       Como ele no a tivesse visto ainda, Sara pde apreciar a cena, completamente paralisada pela fora das sensaes que a assolavam.
       Nick no tencionava ir ao restaurante ou facilitar qualquer contato com Sara. Queria... No,precisava de tempo para assimilar o que ela lhe dissera. Ento, 
de repente, descobriu que necessitava de dinheiro e o nico caixa vinte quatro horas localizava-se a poucos minutos do restaurante. Portanto...
       Ao entrar no estabelecimento, ele a viu. Sara o encarava. Uma avalanche de sentimentos chocantes o soterrou. Queria seqestr-la e lev-la a um local onde 
pudesse estar total e completamente a ss com ela. Assim, veriam quo facilmente ela separaria o sexo da emoo.
       To logo Nick se aproximou, Sara se viu impelida a declarar:
       - Deus, imaginei que havia desistido. Pensei que fosse um daqueles homens que s falam e no agem!
       Agastada, perguntou-se por que dissera algo to tolo. Mas era tarde demais para retirar o desafio. O brilho colrico nos olhos de Nick indicava sua boa audio.
       - Desistir? Nunca. E quanto ao resto de seu comentrio... - A voz tornou-se suave, mas Sara reparou no tom cido que permeava as palavras. - Ser um prazer 
lhe provar o contrrio.
       Prazer! Sara sentiu uma pontada de medo e insegurana. Ela arregalou os olhos, demonstrando uma inesperada vulnerabilidade que o pegou de surpresa.
       Que tipo de jogo Sara empreendia? Primeiro, revelava ser uma mulher experiente e sofisticada, em seguida assemelhava-se a uma novia recatada que tremia ante 
a simples meno da palavra sexo.
       Contudo, aps aquele comentrio provocativo, era impossvel consider-la pudica!
       Impotente, Sara perguntou-se como tinha podido ser to idiota. Nenhum homem gostava de ter a sexualidade questionada, sabia disso.
       -  Tenho de voltar para minha casa por alguns dias.
       - Casa? - Sara repetiu, confusa. O que ele tentava dizer? Que, afinal, havia mudado de idia? Que precisava de mais tempo?
       - Sim. Moro em Pembrokeshire - Nick contou-lhe. - Quero que venha comigo.
       Ir com ele?
       Sara no sabia se aquela fraqueza repentina que sentia era causada por choque ou alvio.
       - Teremos privacidade em minha casa. - Nick a encarava, sem piscar. - No creio que estejamos dispostos a expor nosso acordo aos olhos de Francs e de meu 
irmo.
       - No - Sara concordou. - Mas Pembrokeshire... A bem da verdade, ela no pensara onde poderiam esgotar o torturante desejo eu os atormentava, mas havia pressuposto 
que iriam a algum motel. Tambm no queria que ningum soubesse o que estava acontecendo entre ambos. Afinal de contas, no pretendiam iniciar um relacionamento 
ou tornar-se um "casal". Contudo, ficar a ss com ele em sua casa...
       - Se no se sente segura a ponto de ir a minha casa  porque no confia em mim. E, se no confia em mim, ento no ter tranqilidade suficiente para que 
me deixe penetrar em seu corpo - Nick argumentou com tanta liberdade sexual que Sara corou na hora.
       - Eu... Quando... H Francs e meu trabalho.. Tenho de pedir-lhe uns dias de folga - ela balbuciou.
       - No final de semana seguinte ao prximo - Nick informou-lhe imediatamente. - E vai precisar de roupas quentes. O chal  em local remoto.
       Roupas quentes! Sara lanou-lhe um olhar assustado e arrependeu-se disso no mesmo instante.
       -  O que foi? - Nick sussurrou. - Garanto-lhe que ir adorar e prometo que sero momentos de enorme prazer. Mas no ficaremos o fim de semana inteiro na cama. 
Pembroke possui uma das mais famosas e belas paisagens costeiras do pas. Se o clima estiver bom, poderemos at velejar. Embora o mar daquela regio seja um tanto 
bravio.
       Sara comeava a ter a impresso de ele tentava intimid-la.
       - Meu pai  um excelente navegador e, sempre que posso, velejo com ele. - Sara acrescentou, seca: - Quando fiz quatorze anos, ns participamos do campeonato 
de vela Round Britain no barco de um dos clientes de meu pai.
       - Vocs venceram? - Nick perguntou, fingindo inocncia.
       Sara o encarou, furiosa.
       - No. Ficamos em dcimo lugar - replicou, calma. - Mas tivemos o melhor tempo para uma tripulao de amadores.
       -  Passei alguns veres velejando em Cape Cod quando eu estava na universidade - Nick contou-lhe em tom casual.
       Contudo, no se deu por vencida. Se ele queria brincar de competir, no havia problema. Sara certamente no se renderia.
       Quatorze anos de idade em uma perigosa corrida de Round Britain?, Nick ponderou aps deix-la. O pai dela devia ser um louco por permitir tamanho desatino. 
Sara no mnimo era uma adolescente magricela na poca. Podia muito bem ter cado do barco. S de imaginar o perigo que ela correra, Nick sentiu tenso no corpo inteiro.
       O que diabos aconteceu comigo?, Sara pensou quando Nick foi embora. Tentou buscar consolo no fato de que poderia desistir e recusar a proposta, mas sabia 
que seu orgulho no a deixaria fugir do desafio.
       Claro, havia a possibilidade de Francs no liber-la no final de semana. No entanto, quando mais tarde Sara mencionou a idia, Francs concordou imediatamente.
       Sara agradeceu-lhe. Agora nada a impediria de ir a Pembrokeshire com Nick.
       - Muito obrigada! - resmungou consigo mesma.
       - Vai voltar para sua casa? - Saul espantou-se. - Escute, Nick...
       - Ser apenas durante o final de semana - Nick o interrompeu. - Preciso verificar o estado da casa e coisas do gnero.
       - Se decidiu ir, suponho que eu no possa impedi-lo - Saul ponderou,
       - No pode mesmo.
       - No, Nick - Saul prosseguiu com a autoridade de irmo mais velho -, mas posso e devo lembr-lo de quo tolo ser, se prejudicar sua recuperao com alguma 
atitude estpida ou perigosa.
       Atitude estpida e perigosa... isso poderia ser o resultado de sua estada em Pembrokeshire, Nick concluiu, referindo-se ao aspecto emocional contido em seus 
planos para o fim de semana. O perigo jazia nos sentimentos que no conseguiria conter e corria o risco estpido de deix-los sobrepujar a segurana fsica.
       Porm, sempre havia a chance de Sara desistir. Uma mulher que na adolescncia participou de uma das corridas mais arriscadas do pas iria abrir mo de um 
desafio? A quem ele estava enganando?
       Honor fitou o telefone silencioso. Teve um estranho pressentimento. Vivendo to prxima e harmnica  natureza, anos atrs, havia parado de questionar ou 
duvidar dos rompantes intuitivos que possua.
       Ela e padre Ignatius tinham discutido o fenmeno com afinco sem que chegassem a uma explicao racional, embora houvesse, segundo o religioso, vrios escritos 
histricos e bblicos que provavam a existncia de tal ddiva.
       Pensativa, rondou o telefone. Dias atrs, David inserira o nmero de Olvia na memria do aparelho.
       Quando fez meno de tocar no telefone, ouviu o som estridente ecoar pela casa. Aps verificar o nmero que o visor do aparelho indicava, ela gritou:
       - David, venha rpido! E para voc!
       Ao escutar aquela voz familiar no telefone, Olvia prendeu a respirao. Era a atitude mais difcil e humilhante que tivera de tomar.
       - Al? Sou eu, Olvia - anunciou, abrupta.
       Do outro lado da linha, David rezou para que a voz no falhasse ou revelasse a forte emoo que sentia. Tambm pediu a Deus que a fizesse aceitar o amor que 
estava disposto a oferecer.
       Em menos de cinco minutos tudo ficou acertado. Olvia deixaria as meninas todas as manhs na casa de David e Honor antes de ir ao trabalho. Ele ento as levaria 
 escola e as buscaria  tarde. Livy, por sua vez, pegaria as filhas quando sasse do escritrio ao final de expediente,
       Naquela noite, encolhida na cama em posio fetal, ela se permitiu liberar os sentimentos. Estaria destinada a viver sozinha e, para sempre, ser privada de 
experincia de receber o puro e verdadeiro amor?
       - Molly, espere!
       Aflita e impaciente, Molly encarou Caspar.
       - Tenho de ir - repetiu.
       - Eu sei. Mas e se seu carro no estiver pronto? Por que no me deixa lev-la? - ele sugeriu de pronto.
       - Voc? - Molly ficou na defensiva.
       O flerte inofensivo que vinham praticando era bem diferente do que Caspar agora insinuava.
       No era hora de alimentar as carncias emocionais, em especial com um homem como Caspar. Mas ele j se encarregava da situao e Molly, uma tola, permitia 
que ele tirasse de seus ombros o peso da responsabilidade. Era um alvio no precisar pensar em praticidades.
       Por mais que evitasse, Caspar comparava o comportamento de Molly ao de Olvia. No se lembrava da ltima vez em que Livy o deixara assumir seu papel masculino 
na relao. Ela parecia desafiar cada deciso que ele tomava, desdenhando-o e minando aos poucos sua essncia masculina.
       A aceitao de Molly o fazia sentir-se mais poderoso e capaz de socorr-la em quaisquer situaes.
       Quando a fitou e reparou que os olhos azulados estavam cheios de lgrimas, as quais ela tentava suprimir, Caspar teve vontade de tom-la nos braos e confort-la.
       Passaram-se horas antes que Olvia pudesse conciliar o sono. Novamente sonhou com Caspar, que a envolvia entre os braos e sussurrava palavras doces, dizendo-lhe 
que a compreendia e aceitava o que ela estava sentindo. No sonho, Olvia confessava ser o marido a nica pessoa a lhe proporcionar segurana e afeto, a nica pessoa 
a quem podia admitir os medos e as falhas.
       Caspar!
       Enquanto sentia o toque suave dos lbios dele, lgrimas rolavam sob os olhos fechados de Olvia.
       CAPITULO XII
       Por ser teimosa demais, Sara no permitiu que Nick a levasse at Pembrokeshire, alegando que deveriam realizar a jornada em carros separados. Mas agora, enquanto 
seguia a poderosa caminhonete tracionada de Nick em seu veculo compacto, todos as dvidas e temores, que ela escondera atrs do prprio orgulho, vinham  tona.
       Encontravam-se em Gales, atravessando Aberystwyth ao longo da costa. O dia estava mido e uma pesada neblina pairava sobre o oceano. O som hipntico do limpador 
de pra-brisa no amenizava o nervosismo de Sara. Pelo contrrio. O rudo a perturbava ainda mais.
       Como Nick havia instrudo, ela separara roupas quentes e confortveis. Quando se encontraram naquela manh, Nick descera do carro e caminhara at ela. Mesmo 
de jeans e camiseta, ele ainda assim tinha o poder de bambear os joelhos de Sara e faz-la entender por que vinha agindo de forma to estranha ultimamente.
       - Pensei em pararmos para almoar nas cercanias de Aberystwyth - ele lhe dissera. - Conheo um restaurante especializado em frutos do mar. Acho que vai gostar.
       To logo chegaram quela regio, Nick estacionou a caminhonete em frente a um pequeno centro comercial.
       Quase anestesiada, Sara parou ao lado do veculo, na vaga que ele lhe deixara. Mesmo nas proximidades do cais, o mar parecia revolto. Os poucos barcos ancorados 
balanavam ferozmente conforme os movimentos das ondas.
       Sara ficou grata por estar usando o pesado sobretudo quando, ao sair do carro, enfrentou o ar glido. Decidida, ignorou de propsito a mo que Nick lhe estendia.
       Nunca se sentira to ansiosa e aflita, nem em sua primeira vez. Perder a virgindade no significara nada, se comparado ao que contemplava naquele momento. 
O mero rito de passagem com um rapaz, do qual se lembrava vagamente e que parecera to nervoso e inseguro em relao ao ato em si quanto ela, havia acontecido quando 
tinha dezoito anos. Apenas uma menina.
       Mas e agora? Considerava-se uma mulher madura o suficiente para enfrentar Nick Crighton?
       Ela estremeceu, nervosa.
       - No vou mord-la, Sara - Nick queixou-se,- interpretando mal a reao. Em seguida, baixou o tom de voz. - No em pblico. Pode ter certeza.
       O restaurante localizava-se em uma rua estreita, entre o cais e o centro comercial. Ao longo do caminho at o restaurante, tiveram de passar por charmosas 
casas antigas.
       Para sua surpresa, o estabelecimento estava repleto de clientes. Nick explicou-lhe que a cidade era o retiro favorito da classe mdia, o que justificava a 
alta incidncia de casais, Sara concluiu.
       Quando o garom guiou-os  mesa, ela comeou a tirar o casaco.
       - Permita-me - Nick ofereceu-se.
       Sara j havia retirado uma das mangas do sobretudo e, quando Nick tocou-lhe o brao para ajud-la, seu corpo reagiu imediatamente. Um arrepio percorreu-lhe 
a pele, enquanto ondas de calor a invadiam. Por um momento, ambos permaneceram estticos, entre olhando-se em total sintonia. A fome nua que ela divisou nos olhos 
de Nick tanto a chocava como excitava.
       - Pelo amor de Deus, no me olhe assim - ele murmurou entre os lbios cerrados.
       - Como? Eu no... - Sara apressou-se em negar.
       - Oh! sim - Nick interveio. - Sei que est adorando tudo isso, Sara, mas no sou  prova de fogo como voc obviamente . E se no parar agora, ficar evidente 
a todos aqui que a nica coisa que quero comer - ele enfatizou a frase com sensualidade explcita -  voc.
       Discreto, o garom afastou-se a fim de indicar uma mesa a outros clientes. Sara sentia o corpo inteiro ferver e, dessa vez, de vergonha. Tambm percebia que, 
se Nick a levasse at a recepo do restaurante e subisse a escadaria que dava acesso  hospedaria que a casa oferecia, ela no iria impedi-lo.
       Porm, ao invs disso, Nick a conduziu pelo restaurante, segurando-a pelo brao, enquanto ela tentava manter o mximo de distncia. Mas foi impossvel, j 
que o espao entre as mesas era estreito demais. Cada vez que sentia o calor do corpo viril, Sara reagia de forma to explosiva que estremecia. Ambos pediram lagosta 
e, aproveitando a espera, ela resolveu observar o movimento. As pessoas presentes gozavam da plcida calmaria do ambiente que, no entanto, parecia enfatizar sua 
tenso sexual.
       - Voc vem sempre aqui? - perguntou a Nick, na tentativa de abrandar o clima.
       - Paro aqui sempre que estou voltando de Cheshire. E uma viagem que fao com freqncia.
       - Para ver sua amiga... casada? - Sara o questionou.
       - Minha o qu? - Nick, de repente, deduziu de quem se tratava. - Oh!, refere-se a Bobbie. - Ele sorriu ao notar o cime de Sara.
       O almoo foi servido e Nick esperou que o garom se afastasse para inclinar-se, sedutor, em direo a Sara.
       - Bobbie  casada com Luke Crighton, e est muito feliz com ele, devo acrescentar.
       -  Mas vocs estavam juntos em Camden Place - Sara argumentou.
       - Ns nos encontramos por acaso. Bobbie foi ao clube com Luke, que estava jogando golfe.
       Sara sentiu-se empalidecer.
       - Quer dizer que voc no... Ela no...
       - No - Nick confirmou. - Asseguro-lhe de que, se estivesse envolvido naquele tipo de relacionamento, eu no...
       - Voc no o qu? - ela o desafiou. Ainda tentava assimilar o choque de saber que o cime, o mesmo que a levara quela situao, era infundado. - Voc no 
me desejaria?
       - Achou mesmo que eu estivesse tendo um caso com Bobbie? - Nick ficou encantado. - Para sua informao... - Ele parou, surpreso consigo. Estava prestes a 
admitir que Sara era a primeira mulher a ser convidada a sua casa, e a primeira mulher capaz de despertar tanto desejo que chegava ao cmulo de querer tir-la dali 
naquele instante s para ficar a ss com ela.
       - Para minha informao o qu? - ela indagou. Talvez devesse ser sincero com ela, Nick refletiu.
       - E a primeira vez que. levo uma mulher a meu chal. Como est sua lagosta? - perguntou com o intuito de mudar de assunto.
       Uma hora depois, quando saram do restaurante, estava quase nevando. O ar achava-se bem mais gelado e a nebulosidade transformara-se em chuva.
       Sara tremia dentro do casaco. De repente, perdeu o equilbrio enquanto caminhava pela rua agora deserta.
       No mesmo momento, Nick a segurou. O toque a fez arrepiar-se novamente. Comeava a sentir medo, reconheceu, assustada. No de Nick, mas do modo como se sentia 
e da inabilidade de controlar as fortes reaes.
       A descoberta de que ele no estava tendo um caso com Bobbie, ou com qualquer outra mulher, parecia t-la projetado em uma dimenso de ampla lascvia, sem 
o peso da responsabilidade, e fazendo-a desej-lo com uma intensidade que a enervava.
       De sbito, o pnico a dominou.
       - Mudei de idia - proferiu com a voz trmula. - Eu...
       - Voc o qu? - Nick a agarrou e cobriu-a com o prprio corpo a fim de proteg-la do vento. - No jogue comigo, Sara, porque neste exato momento...
       Ela tremia sem parar, completamente hipnotizada pelo olhar de Nick. Seu corao batia, descompassado.
       - Sara...
       Nick respirou fundo e soltou o ar bem devagar. Ento, sem tirar os olhos dela, baixou o rosto. Sara sentia-se impotente, incapaz de fugir daquele beijo inevitvel.
       A distncia, escutou o grito das gaivotas e o som das ondas colidindo no cais, misturados  ferocidade do prazer que explodia dentro dela.
       Percebia que estava tremendo, que precisava apoiar-se em Nick devido  fraqueza que o beijo ardente causava. Seus lbios, famlicos, pareciam devoraras dele, 
e vice-versa.
       Entregue, ela aprofundou o beijo, convidando-o, implorando por intimidade. Nick correspondia de tal maneira que Sara sentiu os ossos se dissolverem, enquanto 
um leve gemido surgia em sua garganta.
       Beijavam-se como adolescentes, to vidos que se encontravam alheios a tudo o mais. Como e quando o abraara pelo pescoo e colara o prprio corpo ao dele, 
era impossvel saber. Estavam to prximos que Sara notou o efeito devastador que tinha sobre Nick.
       - Ainda temos de percorrer alguns quilmetros para chegar ao chal - murmurou, ainda beijando-a. - E no sei se conseguirei suportar mais trinta segundos 
sem...
       Ele a ergueu e, por um delicioso instante, Sara pensou que Nick a tocaria com mais intimidade. Seus seios estavam trgidos e almejavam carcias mais incisivas. 
Ela queria...
       O barulho de pessoas emergindo de um pub do outro lado da rua a alertou para o que fazia e sentia.
       - Voc est bem? - Nick perguntou, quando resolveram retomar a viagem.
       -  claro que estou. Por que no estaria? - ela o rejeitou na hora.
       - Quer mesmo que eu responda? - Nick retrucou, observando-a abrir a porta do carro.
       Certamente que no, Sara admitiu enquanto aguardava que ele manobrasse a caminhonete. Nada a impedia de virar na direo oposta e voltar para Haslewich. Nick 
no podia obrig-la a ir com ele. No podia mesmo, decidiu.
       Mas...
       Mas se no fosse, passaria o resto da vida lamentando, imaginando... E sabia que uma parte dela viveria em funo do que podia ter acontecido entre ambos.
       Era apenas sexo, lembrou-se. S isso.
       Revoltada, perguntou-se por que ousava colocar as palavras apenas e sexo juntas e no mesmo contexto.
       Sua mala jazia no banco de passageiro e sentiu-se corar ao fit-la. Na bagagem havia preservativos que lhe tinham custado toda a coragem que pde angariar 
para comprar. Onde estavam os traquejos sociais para assuntos do gnero? No fazia idia, mas tinha certeza de que cuidaria da sade e evitaria a concepo inesperada 
de uma criana.
       A revelao de Nick sobre ela ser a primeira mulher a entrar no chal a pegara de surpresa e derrubara vrias barreiras emocionais. Era verdade ou seria somente 
uma artimanha cnica para atra-la?
       O tempo piorava... nuvens densas cobriam o horizonte e reduziam a visibilidade. Sara pressentia o misticismo inerente quela regio. Era uma terra legendria 
e de sabedoria anci, onde tudo podia acontecer.
       Por que contava essa histria a si mesma? O que desejava secretamente que acontecesse?
       Na pequena cidade de Aberaeron, envolta nos braos de Nick e correspondendo aos beijos pungentes com vido fervor, Sara tivera certeza de que o desejava com 
todo seu ser. E tambm descobrira que a atrao no era apenas fsica. O sbito aparecimento de uma forte neblina a fez agarrar a direo e lembrar-se de que precisava 
se concentrar na estrada.
       A sua frente, Nick avaliou a repentina alterao do tempo, e praguejou consigo mesmo por no ter obrigado Sara a viajar com ele. Tinha mais familiaridade 
com aquela estrada que ela e, a despeito de parecer machista, no escondia a necessidade de proteg-la de qualquer mal.
       A experincia de descontrole que tiveram em Aberaeron mostrara como ele era incapaz de resistir  tentao de beij-la. E, por fim, Nick reconheceu que uma 
mera atrao, por mais potente que fosse, no podia ser responsvel pela intensidade do que sentia.
       No restaurante, quando Sara havia revelado ter cime da suposta relao com Bobbie, somado  necessidade de Nick de assegurar-lhe o contrrio, traduzia quanto 
os dois estavam realmente envolvidos naquela aventura, que agora transformava-se em outra emoo, a qual ele no sabia definir.
       Aproximavam-se de Fishguard, a pequena cidade circundada por uma manta de nvoa marinha. Do outro lado do vilarejo, encontrava-se a estrada para St. David's, 
e, mais alm, o chal. Fitou a jaqueta que jazia no banco de passageiros. Dentro dela estava sua carteira, e nesta...
       Na verdade, sentira-se um adolescente quando fora ao supermercado comprar os preservativos que agora achavam-se confinados na carteira. Claro, pelo bem de 
Sara e dele, fazia sentido tomar tais precaues. No entanto, tinha de admitir que havia um certo tom clnico e intencional no ato em si. Riu de sua natureza romntica 
que abominava tamanha praticidade.
       Sim, era romntico e, por conseqncia, incomodava-o saber que Sara exercia seu direito de mulher moderna de fazer sexo com ele pelo simples fato de almejar 
sexo. O que queria dela, de fato? Uma declarao de amor?
       Quando o nevoeiro aumentou, Nick voltou a ateno  estrada, deixando de lado os prprios pensamentos.
       Honor escutava Ben queixar-se de Max e Maddy.
       - Acho que est sendo injusto - ela protestou, reprimindo a vontade de dizer mais. Precisava lembrar-se de que a sade de Ben estava se deteriorando.
       Enquanto o ouvia, ela o comparava a seu primo, Freddy. O querido Freddy era uns anos mais moo que Ben, mas transmitia respeito e amor a outros seres humanos, 
uma atitude que seu sogro no possua.
       Pensar em Freddy a deixou preocupada.
       Dois dias antes, ele convidara Honor e David para jantar porque queria discutir um assunto importante com eles. Freddy, na realidade, desejava deixar Fitzburgh 
Place para ambos. Honor no soubera quem ficara mais chocado, ela ou David.
       - Mas a propriedade est vinculada - ela protestara.
       - O ttulo ir para o prximo homem da linhagem - Freddy havia concordado. - Mas no h clausulas legais que me impeam de indicar o herdeiro. Pensei em deix-la 
para uma instituio de caridade, mas a maioria possui grandes propriedades que oneram o oramento por serem difceis de manter. Ento, depois que voc e David se 
mudaram para c...
       Freddy fizera uma pausa e olhou para padre Ignatius, que ele fizera questo que estivesse presente.
       - Sei que a casa estar bem cuidada em suas mos Honor - Freddy completara, sem mais rodeios.
       Em seguida, Honor fitara David, que lhe segurou a mo, sabendo exatamente o que a esposa queria que respondesse.
       - E uma deciso muito importante, Freddy - David apontara. - E  muito generoso de sua parte.
       - No se trata de generosidade - Freddy objetara. - A casa custa uma fortuna para ser administrada. Mas, vejam, vocs no tero de se sacrificar. Possuo investimentos 
rentveis e a propriedade, hoje, sustenta-se sozinha. To logo cheguemos a um acordo, voc poder plantar quantas ervas quiser em Fitzburgh Place, Honor.
       O jantar prosseguira, permeado de assuntos triviais. Mas, ao se despedir do casal, Freddy retomara o tema.
       - No esto interessados - ele reclamara.
       - Claro que estamos - Honor confirmara. - Mas precisamos de tempo para tomar uma deciso definitiva - ela argumentara, sorrindo.
       - Acha que sou um velho senil que no sabe o que est fazendo? - ele resmungara.
       - Voc? De jeito nenhum! - David rira. - Mas h de convir que se trata de uma deciso importante.
       - Minha deciso j est tomada. No consigo pensar em ningum que possa cuidar desta casa melhor que vocs, e tambm no quero estranhos rondando meu lar 
depois que me for. Sei que iro fazer o que  certo pela propriedade e por mim.
       - Oh! Freddy - Honor sussurrara, antes de abraar o primo to amado.
       Mais tarde, naquela noite, depois de discutirem a proposta de Freddy, Honor admitira a David quo surpresa e tocada havia ficado com a gentileza do primo.
       - Freddy no demonstra, mas ama aquela casa. S de pensar que ele a confiar a ns dois...
       - Entendo o que quer dizer - David concordara, emocionado. Na escurido do quarto, ambos se abraaram.
       - No ser fcil - Honor conclura. - Administrar um lugar como esse, pagar as contas...
       - Mas a perspectiva a deixou animada - David brincara com ela. - No se esquea de que as pessoas mudam de opinio o tempo todo. Freddy ainda viver muitos 
anos em Fitzburgh Place e poder optar por outras escolhas.
       -  Como seu pai em relao a Queensmead? - Honor deduzira. - No. Freddy no faria isso.
       Mesmo assim, ambos haviam concordado em manter a oferta de Freddy em segredo.
       - No. No.
       Em seu pesadelo, Max gritava a plenos pulmes, enquanto, em sonho, a lmina da faca incidia sobre Maddy e o beb.
       - Max! O que houve? - Maddy acordou, assustada, e acendeu o abajur.
       Agora desperto, Max notou o suor que encharcava seu corpo nu.
       -  Lamento. Eu a acordei? - perguntou, ainda estonteado. - Acho que estava sonhando.
       Maddy morria de preocupao. Havia algo errado, mas no sabia o qu. Quando o mdico lhe dera alta e prescrevera repouso absoluto, ficara confiante em relao 
 gravidez. Se tudo prosseguisse como o esperado, ela e o beb estariam fora de perigo. A princpio, imaginara que Max mostraria alvio, mas parecia cada dia mais 
angustiado e distante.
       Tentara conversar com ele a fim de descobrir o problema, porm ele insistira em dizer que estava tudo bem.
       - Max, sei que algo o incomoda - Maddy tentou mais uma vez.
       -  Foi somente um pesadelo - ele retrucou, na defensiva. - Volte a dormir, Maddy - pediu-lhe agora em tom gentil.
       Max apagou o abajur e deitou-se de costas para Maddy.
       Em silenciosa apreenso, ela estudava os cabelos sedosos do marido. Algo estava muito errado. Sabia disso. Queria que Max a tomasse nos braos, mas desde 
o retorno do hospital, ele a tratava como se fosse uma pea frgil de porcelana.
       Hesitante, Maddy acariciou os ombros largos.
       Ao sentir o toque suave de Maddy, Max enrijeceu. No fundo, almejava confessar-lhe os sentimentos, mas como poderia? Se assim o fizesse, ela jamais o perdoaria.
       O pesadelo daquela noite no fora o primeiro e nem seria o ltimo. Previa que a vida de ambos ficaria pior quando o beb nascesse. Como Max conseguiria encarar 
o novo filho sem sentir o fardo da culpa?
       Por mais que tentasse analisar os sentimentos, a fim de expurg-los, ele nunca escaparia da evidncia de que sua necessidade egosta por Maddy teria implicado 
a possvel morte daquela criana em gestao.
       Maddy nunca mais seria a mesma, caso soubesse disso. E Max, por sua vez, receava no ser capaz de perdoar a si mesmo.
       Como Max no mostrasse nenhuma reao ao toque, Maddy recolheu-se.
       Estaria zangado por causa da quebra de rotina que a gravidez estava causando? Ele escolhera trabalhar em casa at o nascimento do beb. Maddy no lhe pedira 
nada, mas tinha conscincia de que a presena do marido facilitava as tarefas do dia-a-dia. Alis, Max no demonstrava irritao ou nervosismo ante tantas exigncias. 
Contudo, Maddy no encontrava outra explicao para aquela tenso constante.
       - Pare de se preocupar - ele aconselhava, toda vez que Maddy tentava conversar.
       Mas como conseguiria ficar tranqila quando estava claro que havia um problema muito srio entre ambos?
       CAPITULO XIII
       A despeito do ar quente no interior do carro, Olvia tremia violentamente quando parou em frente  casa de David e Honor. Estivera  merc daquele mal-estar 
o dia todo, oscilando entre sensaes de calor e frio, a garganta doa e uma persistente dor de cabea a perturbava. Havia uma epidemia de gripe rondando a cidade 
e rezava para no ter contrado o vrus.
       Do lugar onde havia estacionado o veculo, ela podia divisar a sala de estar. Seu pai estava sentado em uma poltrona, Amlia aninhava-se a ele e Alex acomodava-se 
sobre os joelhos do av. David lia uma histria para as netas, sendo que os trs encontravam-se to absorvidos na leitura que nem sequer notaram a chegada de Olvia.
       Enquanto assistia e testemunhava a intimidade entre eles, sentiu o corao se apertar. Nunca, durante sua infncia, seu pai lera para ela, tampouco incomodara-se 
em exibir o afeto profundo que agora mostrava s netas.
       De repente, Alex soltou uma risada e, quando David abaixou o rosto para sussurrar algo, Amlia o abraou, sorridente.
       Uma angstia sbita a atingiu. Era um misto de ressentimento e alegria. Ressentimento por si mesma e alegria pelas filhas que obviamente adoravam a companhia 
do av e recebiam seu amor.
       Ningum sabia quo custoso fora para ela permitir que as crianas ficassem com David e quanto havia odiado ter de recorrer a ele, mas no podia negar que 
as meninas estavam exultantes com a nova situao. A cada dia chegavam em casa contando o que tinham feito com o av. Todas as manhs, ficavam ansiosas para ir  
casa dele.
       Honor j havia se tornado "vov" para elas, os rostos angelicais se iluminavam quando relatavam os momentos que viviam com o casal.
       Alex, em particular, estava fascinada pelo padre, que parecia possuir um repertrio de histrias para contar, e as'conversas, em geral, giravam em tomo das 
ervas da vov e da loja do vov.
       A noite em que entraram no carro, orgulhosas por terem feito um bolo para a me, comovera Olvia profundamente.
       Amlia e Alex agora brigavam para ver quem sentaria nos joelhos de David e, quando ele resolveu o problema abraando ambas as netas, Olvia desviou o olhar.
       Jamais o vira to amoroso e gentil. Seria porque nunca fora uma criana que merecesse ser amada?
       Arrasada, tentou apagar o pensamento. No era o momento de se deixar atormentar por espectros vingativos.
       - Por Deus, Livy! - Caspar esbravejara em uma das brigas. - Esquea o passado e comece a viver o presente.
       Esquecer o passado! Como se fosse fcil... Agora sentia-se novamente uma menininha, uma criana carente que observava com inveja a cena domstica e feliz 
da qual era excluda.
       Quando convenceu-se, dilacerada, de que o cenrio apenas incrementava seu sofrimento, algum bateu  janela do carro.
       Sobressaltada, Olvia divisou Honor na calada, sorrindo para ela.
       Como se houvesse sido pega em flagrante, ela abriu a porta do automvel, aflita.
       - Eu estava a caminho de casa quando a vi. Estive trabalhando em minha estufa para ter certeza de que as plantas esto protegidas da geada - Honor explicou. 
- Por que no entra comigo?
       Olvia pensou em recusar, mas, por alguma razo, viu-se saindo do carro sem pensar.
       A gravidez de Honor comeava a aparecer. Era difcil para Olvia assimilar o fato de que o beb que Honor esperava seria seu meio-irmo ou meia-irm.
       Caspar adoraria ter mais filho, no entanto, ela rejeitara a idia. Como poderia criar outra criana se trabalhava o dia todo?
       Quando atingiram os fundos da casa, Honor convidou-a a entrar rapidamente, pois a temperatura comeava a baixar. Diferente da cozinha de sua infncia, a de 
Honor inspirava aconchego e calor humano. A sensao causou-lhe certa culpa. Olvia prometera a si mesma que as filhas teriam a infncia e o estilo de vida que lhe 
foram negados. Jurou ser uma me extremosa e dedicada, uma me que cozinhasse para elas, em vez de pedir-lhes que tirassem um prato do freezer.
       Claro, sabia cozinhar, mas sempre o fazia atenta ao relgio, com os pensamentos voltados ao trabalho, sem a menor disponibilidade para aproveitar o momento.
       Honor, ela imaginava, devia adorar cada instante das simples tarefas domsticas, exalando alegria de viver.
       - Fui visitar seu av hoje - Honor contou-lhe, aps tirar o casaco. - Ele no est nada bem.
       Olvia ficou tensa. Se Honor pretendia passar um sermo a respeito de Ben, ela no queria escutar.
       -  Ele se tornou inimigo de si mesmo, claro - Honor continuou. - Eu gostaria de poder ajudar Maddy, mas... - Ela parou e fitou Olvia.
       Honor havia prometido que no interferiria no relacionamento entre David e a filha, contudo tinha algo importante a dizer.
       - Infelizmente, David ainda  visto pela famlia como algum que no merece confiana.  uma pena porque...
       - H motivos legtimos para ele ser tratado dessa maneira - Olvia rebateu, amarga. - Meu av venerava meu pai. E ningum alm de Max importava para os dois.
       - Sei como se ressente, Olvia - Honor concedeu. - Porm...
       Ela calou-se quando a porta da cozinha se abriu, e Amlia entrou, excitada.
       - Vov, tirei A em gramtica hoje e... - Amlia calou-se ao ver Olvia e, incerta, olhou para o rosto afetuoso de Honor.
       No mago de seu ser, na parte mais vulnervel, Olvia sentiu que algo se rompia. A dor parecia reverberar pelo corpo ao constatar que Amlia, sua preciosa 
e amada filha, encarava a me com o mesmo olhar de hesitao e medo que Olvia, certa vez, havia lanado a Tnia. Vira aquele olhar na filha em outra ocasio, mas 
no a magoara como agora. Antes que pudesse dizer alguma coisa, Alex e David entraram na cozinha. Como fosse criana demais para pressentir a tenso entre os adultos, 
Alex correu para os braos de Olvia.
       - Vov vai pedir a Papai Noel para me trazer um pnei - ela contou  me, empolgada.
       - Eu disse que tnhamos de perguntar  mame primeiro - David explicou-se, depressa.
       Um pnei. Olvia fechou os olhos. Lembrava-se de quanto ansiara por um, mas Tnia ficara horrorizada.
       - Um cavalo! Oh! no, querida, suas pernas ficaro tortas. De jeito nenhum.
       Enquanto fitava o pai, Livvy divisou remorso e preocupao nos olhos dele, e, de sbito, sentiu um espasmo estremecer-lhe o corpo.
       - Voc est bem? - Honor perguntou.
       - Estou. - A fim de evitar mais perguntas, Olvia virou-se s filhas.:- Peguem suas coisas para irmos embora, meninas.
       - Mame?
       Olvia tremeu ao escutar a voz de Alex. Tinha acabado de virar em sua rua e seu corpo inteiro almejava o calor e o conforto de um longo banho.
       - Mame, eu queria que papai voltasse para casa. O corao de Olvia se apertou.
       - Alex, ns j falamos sobre isso.
       - Eu sei. Mas eu e Amlia queremos que ele volte para casa.
       Atravs do espelho retrovisor, Olvia fitou a filha mais velha. Por que tudo mostrava-se mais difcil do que havia planejado? Ela tinha acreditado piamente 
que a separao poria um fim em seus problemas e removeria a fonte de sua aflio. No entanto...
       Sentia-se mais sozinha, mais deprimida e mais assustada. Jamais imaginara que o sofrimento pudesse aumentar daquela maneira.
       - Vov disse... - Alex comeou, mas logo calou-se quando Amlia lanou-lhe um olhar severo.
       Amlia j havia alertado Alex no sentido de evitar aborrecer a me mencionando a conversa que haviam tido com o av.
       - Por que no escrevem para o pai de vocs? - ele sugerira s netas, mas Amlia meneou a cabea.
       - No podemos. Mame no vai gostar - ela lhe dissera.-- Alm do mais, no sabemos onde ele est.
       Entretanto, Amlia havia anotado o nmero do celular do pai e escondera o papel em sua velha casa de bonecas. Sempre que sentia saudade dele, ela pegava o 
pedao de papel, desdobrava-o, lia os nmeros e o guardava novamente no mesmo esconderijo.
       - Vov disse o qu? - Olvia indagou.
       - Disse que vov vai ao hospital semana que vem para ver o bebe na barriga - Amlia respondeu, apressada.
       Pensativa, Olvia calculou o tempo. Devia ser um exame de rotina para verificar o desenvolvimento do feto. Em idade avanada, a gestao de Honor corria mais 
riscos que a de uma mulher jovem.
       Olvia tambm se submetera a exames semelhantes. Embora fossem normais para o hospital, ela se sentira mais segura por ter Caspar a seu lado nessas ocasies. 
E se Olvia vivera ansiedades ainda moa e saudvel, Honor devia estar muito nervosa.
       Pela primeira vez, colocou-se no lugar da madrasta. Era bvio que Honor amava David e acreditava nele. Olvia s esperava que o pai no decepcionasse a esposa, 
tal qual fizera a todos os familiares.
       Com exceo de suas filhas! Um leopardo nunca muda sua essncia, lembrou-se enquanto entrava em casa com as meninas. Entretanto, no podia cegar-se para o 
amor que vira nos olhos do pai quando este fitara as netas.
       - Como ela est? - Caspar perguntou, quando, enfim, Molly surgiu na sala de espera do hospital.
       Exausta, ela passou a mo nos cabelos, um gesto pessoal que usava sempre que se sentia cansada ou nervosa, como Caspar descobrira. S de testemunhar o simples 
movimento queria abra-la e consol-la.
       -  Est estvel. Pelo menos - Molly sacudiu a cabea - a crise j passou, mas Ginna ainda est no oxignio e os mdicos no sabem o que poder acontecer a 
partir de agora. - Impotente, ela desviou o rosto. - Podem mant-la viva, mas que qualidade de vida minha irm ter, Caspar?
       Caspar permaneceu calado. Para ele era impossvel responder  pergunta.
       - Eles s tero um prognstico mais preciso depois de realizarem alguns exames a fim de detectar quo profundamente a crise a afetou. Ginna teve uma espcie 
de parada cerebral. No sabem por que, tampouco podem prever se haver outra.
       Molly respirou fundo.
       -  No pretendo sair daqui at saber o que vai acontecer a ela, e a espera pode levar dois ou trs dias. Obrigada por me trazer. Obrigada por tudo - ela acrescentou. 
- Acho melhor nos despedirmos. Vou me hospedar em algum hotel da regio.
       - No vou deix-la sozinha.
       Molly o encarou. A atmosfera da sala parecia repleta de dor - e amor.
       - No precisa fazer isso - ela sussurrou, contendo a vontade de chorar.
       - Preciso, sim - Caspar a contradisse. - Se quiser, v ficar mais um pouco com Ginna. Vou procurar um hotel e reservar dois quartos para ns.
       Dois quartos... Dez minutos depois, Caspar ligou para o nmero que a recepcionista do hospital lhe dera, contendo a tentao de solicitar somente um quarto.
       O hotel ficava a uma pequena distncia do hospital. O lugar era relativamente limpo e sossegado quela hora da noite. O recepcionista registrou ambos e, em 
seguida, entregou-lhes as chaves dos quartos.
       Desesperado para fazer algo por ela, mesmo que fosse pouco, Caspar oferecera-se para carregar a valise de Molly. Contudo, ela declinara, veemente.
       Os quartos localizavam-se em lados opostos do corredor. Caspar esperou que Molly entrasse no cmodo, antes de se recolher ao dele. Resistia  vontade de atravessar 
o diminuto espao que os separava. Seu corpo doa devido  viagem e a ansiedade causava-lhe outro tipo de tenso, muito mais auspiciosa que o cansao.
       Houve um tempo em que Olvia o fizera desejar... Olvia... Irritado, tentou apagar a lembrana. No havia lugar para ela na nova vida que o forara a ter.
       O olhar de Molly, quando lhe desejara boa-noite, parecia-se com a expresso das filhas nos momentos em que estas se sentiam assustadas. Apesar de ela nada 
dizer, sabia que Molly temia perder a irm e apavorava-se ante as perspectivas de sobrevivncia da mesma.
       A despeito da fadiga, ele no conseguiria dormir. Aps despir-se, entrou no banho. Depois de vestir a cala e enxugar os cabelos, escutou uma leve batida 
 porta.
       - Molly!
       Plida e trmula, ela achava-se parada  soleira da porta, usando um roupo de seda. Muito carinhosamente, Caspar convidou-a a entrar. Molly o fitava como 
se no soubesse como, ou onde estava, ou por qu.
       -  O que foi? - ele a encorajou. - O hospital telefonou?
       - No. Eu estava... Eu s queria ficar com voc - confessou, e um suave rubor coloriu-lhe as faces.
       Quando ela comeou a tirar o roupo, Caspar, por um instante, ficou transfigurado demais para se mover. A pele era cremosa, os seios fartos emolduravam mamilos 
rosados e perfeitos. Ento, o roupo tombou no tapete, emitindo um rudo seco.
       - Meu celular est no bolso do roupo - ela explicou, seguindo o olhar de Caspar. - Para o caso de o hospital me ligar.
       De repente, os lindos lbios comearam a tremer.
       - Eu no devia fazer isso. E contra todas as minhas regras e princpios - Molly admitiu. - E to errado.
       - No  - Caspar corrigiu-a, e avanou um passo para abra-la. -Alis, no consigo pensar em nada mais correto. Tem noo de quanto eu a queria como est 
agora? - sussurrou, antes de beij-la.
       O desejo manifestou-se em toda sua potncia. Deslizando as mos pela curva da cintura, Caspar enlaou a ridcula lingerie de seda que cobria as deliciosas 
ndegas. Ento, puxou-a para si, gemendo ao sentir a feminilidade sensual atingi-lo. Explorou os lbios carnudos, como se tencionasse devor-los. A boca era doce 
e quente, tal qual imaginava que aquele corpo seria.
       Enquanto se misturavam entre beijos e carcias, Caspar exultou de desejo quando Molly mordiscou-lhe o pescoo, uma fonte inesgotvel de prazer para ele. Acariciou 
a curva dos quadris, da cintura e ateve-se aos seios j intumescidos. Olvia adorava ser acariciada dessa maneira...
       Olvia.
       Imediatamente, Caspar ficou esttico. Choque e desgosto o invadiram. Pde sentir a prpria ereo fenecer, o calor do desejo dissipou-se ante o que agora 
acontecia. A distncia, escutava um barulho. Molly afastava-se dele para pegar o roupo.
       No podia conden-la. Tinha todo o direito de estar furiosa com ele e muito mais.
       - Meu celular est tocando! - ele a ouviu exclamar.
       O celular! Ento, ela no...
       As mos de Molly tremiam quando levou o telefone ao ouvido. Mais alerta, Caspar ajudou-a a vestir o roupo.
       - Era do hospital - ela informou, aps finalizar a ligao. - Ginna recobrou a conscincia. Preciso ir v-la, Caspar. Desculpe-me. Eu no..., - Molly o encarou, 
constrangida.
       - No tem de pedir desculpas - tranquilizou-a, enquanto a acompanhava  porta. O que havia de errado com ele? Como pde pensar em Olvia quando desejava apenas 
Molly?
       Mas, graas a Deus, Molly no percebera nada.
       -  Vou com voc - Caspar avisou, vestindo a camisa.
       Dessa vez, ela no hesitou ou protestou.
       - Obrigada.
       CAPITULO XIV
       Presumo que voc no simpatize com a tecnologia moderna? - Sara comentou, zombeteira, quando Nick abriu a porta do chal e viu a pilha de correspondncia 
no cho.
       A bem da verdade, o comentrio jocoso significava uma tentativa desesperada de se agarrar a algo, qualquer coisa que camuflasse seu nervosismo e arrependimento 
por repetir a falsa ladainha que a levara at ali. Desejava Nick, no entanto, percebeu que se munira de uma mscara enganosa e reprimira os sentimentos que agora 
se rebelavam.
       Tinha a ntida sensao de que os sentimentos eram coniventes com o conceito de sexo sem envolvimento, e, para piorar, estavam determinados a ver Nick Crighton 
como tudo que almejavam e no admitiriam menos. Em suma, as emoes pareciam ter vontade prpria e subjugavam Sara.
       - Errado - Nick a contradisse depois de fechar a porta. - Tenho uma assistente que, com freqncia, vem ao chal para verificar a correspondncia. Mas, pelo 
jeito, faz alguns dias que ela no aparece. Eu no conseguiria trabalhar sem tecnologia. E, nas ltimas semanas, meu irmo, Saul, manteve-se to atento a meus movimentos 
que seria capaz de me trancar e jogar a chave fora para que eu no recebesse qualquer fax ou e-mail. Claro que ele o fez para meu prprio bem!
       Nick sorriu ao ver a expresso de Sara.
       - No foi to ruim assim. Como disse Saul, at meu mdico me dar alta, correr o risco de eu ser preso em algum pas estrangeiro seria uma tremenda idiotice.
       - Isso  comum acontecer? - Sara perguntou.
       -  Felizmente, no. Contudo, h muita probabilidade. As pessoas que contratam meus servios querem que eu livre o cliente de situaes extremas. - Ele riu, 
mostrando a Sara que no exagerava, tampouco tencionava impression-la. - Em certos pases, h momentos em que a negociao no surte efeito e  preciso criar uma 
estratgia fsica de agir para resolver o problema.
       O caso da refm, no qual Nick fora solicitado para trabalhar, havia sido resolvido por si s quando a jovem foi libertada.
       - Houve situaes, felizmente poucas, em que a sade de meu cliente foi to prejudicada pelo crcere que a lentido das negociaes poderia significar sua 
morte.
       Pensativo, ele fitou o espao.
       - Tive um cliente, um rapaz de dezenove anos, que viajou para o Oriente com um colega de faculdade. Ele no sabia, mas o companheiro carregava uma boa quantidade 
de drogas para ser entregue a um traficante local, como forma de pagamento de uma dvida. Os dois foram pegos e aprisionados. Ambos haviam cado em uma armadilha 
para que o traficante pudesse se safar. O pas no qual foram presos condena portadores de drogas  pena de morte. Ele notou que Sara respirava ofegante.
       - Os pais de meu cliente estavam desesperados e recorreram a mim como ltima esperana.
       Atravs do brilho sombrio nos olhos de Nick, Sara pde deduzir que a histria no tivera um final feliz.
       - Voc no conseguiu ajud-lo?
       - Consegui. Eu o libertei e o traficante foi preso. Mas infelizmente meu cliente foi picado por algum inseto enquanto estava na priso. A ferida no foi tratada 
e, como resultado, ele teve uma gangrena sria e sua perna precisou ser amputada.
       Quando viu o semblante entristecido de Sara, Nick praguejou.
       - Que grosseria a minha. No queria aborrec-la. Saul vive me dizendo que estou ficando velho demais para esse tipo de trabalho. Ou melhor, o trabalho est 
se tornando perigoso para mim. Ele acha que eu deveria optar por algo mais mundano.
       - Mas voc no quer - Sara sups ao recuperar o equilbrio.
       -  No. Diferente de Saul, sou do tipo que est sempre  procura de aventuras. Ainda h tanto a fazer no mundo...
       Nick a alertava para no se envolver com ele, Sara reconheceu. Queria avis-la de que no existia futuro para ambos. No entanto, ela j sabia disso. Ou no?
       - Vou levar sua bagagem para cima - Nick dizia-lhe. - Se quiser subir comigo, eu lhe mostrarei o chal.
       Com o corao em disparada, Sara o seguiu pela estreita escada que dava acesso a um atraente hall quadrangular. No meio da escada, havia uma enorme janela 
para admirar a paisagem.
       - Quando o cu est limpo,  possvel ver o mar
       - ele comentou, ao notar que Sara fitava o cenrio atravs da janela. - Em um dia como hoje, voc nem sequer v a estrada.
       -  Voc mora aqui o ano todo? - ela indagou, curiosa.
       -  Mais ou menos. No vivo to isolado quanto parece. Meus pais moram a uma hora de carro daqui e a propriedade  qual este chal pertence est logo atrs 
das colinas. Durante um tempo, pensei em comprar um apartamento em Chester. Mas tenho tantos parentes vivendo l que sempre consigo um lugar para me hospedar na 
regio.
       No hall, existiam quatro portas fechadas. Nick abriu uma delas, e, cautelosa, Sara entrou no cmodo.
       - Este  o quarto de hspedes - ele informou.
       - Aquela porta  do banheiro da sute. Fique  vontade. Vou descer e preparar algo para bebermos. Prefere ch ou caf?
       -  Caf, por favor - Sara respondeu automaticamente.
       Depois de colocar a bagagem no cho, Nick reparou que ela se espantara com o comentrio.
       - O que voc esperava? - ele riu. - Imaginou que eu a jogaria na cama para me satisfazer o mais rpido possvel?
       - No seja ridculo - Sara ralhou, embora soubesse que estava corada. Rezava para que seu corpo no revelasse o que sentia e queria realmente.
       - Temos o final de semana inteiro - Nick continuou, sorrido. - A menos que voc queira comear agora...
       Recusando-se a responder, Sara virou de costas para ele, mas o escutou gargalhar quando saiu do quarto.
       Nick desceu a escada, pensativo. Fora tolo por sugerir o que havia sugerido. Agora, quanto a concretizar a sugesto, trazendo Sara a sua casa...
       O motivo pelo qual nunca convidara uma mulher para ir ao chal no seria o fato de saber que o encontro acabaria sendo um desastre total? Ah, sim. Entretanto, 
Nick temia que, ao proporcionar tamanha intimidade com a mulher em questo, o evento resultasse em tdio e aborrecimentos.
       Mas, com Sara...
       Com Sara havia fascnio, uma louca curiosidade e o desejo de encontrar alguma falha nela que o fizesse fugir para bem longe. Ao invs disso... Mesmo a inesperada 
timidez e a doce reserva que ela mostrara no quarto o tinham encantado. E aguado sua fome?
       Na cozinha, ele colocou gua para ferver. O termostato indicava que o chal estava devidamente aquecido. As vezes, Nick preferia a temperatura ambiente, mas, 
dado o frio que fazia l fora, no estava disposto a se privar dos confortos da civilizao.
       No quarto de hspedes, Sara esquadrinhou o banheiro. Sentia-se empoeirada devido  viagem e adoraria tomar um banho. Aps uma rpida vistoria, descobriu que 
a porta do banheiro possua uma chave que garantiria sua privacidade.
       Era inexperiente em se tratando de finais de semana que visavam apenas sexo, mas tinha de convir que era estranho o homem oferecer  parceira um quarto separado.
       Ou seria uma artimanha sutil de Nick, um aviso deliberado para que houvesse somente sexo e nenhuma intimidade entre ambos? Mas e quanto s deliciosas preliminares?
       - Ol! - Nick exclamou, meia hora depois, quando Sara adentrou a cozinha. - Creio que o caf esfriou. Vou fazer outro.
       - Decidi tomar um banho - ela contou-lhe e, ento, corou.
       Poderia Nick interpretar aquela fala como sendo uma dica do que Sara queria?
       Para seu alvio, ele no atinou para o comentrio, muito menos tentou transform-lo em uma insinuao sexual.
       - H um timo restaurante em St. David's. Eu poderia reservar uma mesa para ns, se voc quiser. Ou podemos jantar aqui. Trouxe algum suprimento.
       - Para mim, tanto faz - Sara disse, insegura.
       -   mesmo? Nesse caso, jantaremos aqui. Um cliente me presenteou com uma caixa de um bom vinho que ainda no experimentei. Fil est bom para voc? No sou 
um cozinheiro de mo cheia...
       - Fil est timo - Sara confirmou.
       Nick aproximou-se dela, segurando uma xcara de caf.
       - Voc se tornou muito dcil, de repente - comentou ao colocar a xcara na mesa ao lado dela. - Se no a conhecesse, pensaria que est nervosa.
       - Nervosa... Claro que no - Sara negou, aflita. Se havia alguma ligao com o banho que tinha acabado de tomar, ela no sabia. Mas a verdade era que, de 
sbito, sentiu-se quente e muito estimulada pela essncia de Nick, pelo poder msculo do corpo e pela sensualidade que comeava a mostrar a fascinao de ser possuda. 
Enquanto observava a mo forte segurar a xcara, imaginava como seria senti-la deslizar sobre a prpria pele.
       - Sara...
       Assustada, ela o encarou e arrependeu-se de t-lo feito ao notar quo prximo ele estava. O corao parecia saltitar em seu peito. Por uma razo desconhecida, 
Sara comeou a tremer.
       - Voc est to perfumada.
       Como Nick conseguiu abra-la sem que ela o visse se mexer? Apertou-a com tanta fora que Sara no teve escolha a no ser colar-se a ele, permitindo que o 
corpo msculo a envolvesse.
       - Tomei banho - murmurou, incoerente.
       -  Voc j me disse - Nick ratificou. - Mas  uma pena. Imaginei que me esperaria para tomarmos banho juntos.
       O corao de Sara agora palpitava tal qual o de uma novia.
       - No posso... Eu no... - A voz falhou quando ' Nick passou a beij-la pelo rosto, quase aproximando-se dos lbios. Por fim, foi ela quem o capturou e beijou-lhe 
a boca, vida.
       Seria ele o homem capaz de estimular tamanho prazer em uma mulher, como se o mundo, a vida e o amor pertencessem a um nico beijo? A intimidade era to doce, 
to intensa, que o gesto em si parecia conter o corpo e a alma de Sara.
       Ao sentir que Nick comeava a solt-la, desesperou-se. Sem dizer palavra, ele a guiou para fora da cozinha, em direo  escada.
       Aps subirem alguns degraus, pararam diante da janela, e Sara o fitou. Sentia:se mergulhar na profundidade do olhar sensual de Nick. Ento, sem esperar, espantou-se 
quando aqueles mesmos olhos se iluminaram ao encar-la.
       - Voc tem conscincia de que isso  uma total loucura, no?
       A voz soava calma, controlada e completamente contraditria  forma com que ele a olhava. Sara ficou confusa demais para articular alguma resposta. E, em 
seguida, no houve mais oportunidade de se manifestar porque eleja a estava beijando. Dessa vez, no precisou segurar-lhe o rosto. Dessa vez, Nick a envolvia de 
tal forma que impedia qualquer rota de fuga.
       No que ela pretendesse fugir. De jeito nenhum! Queria que ele a abraasse daquela maneira para sempre, que a beijasse com aquele ardor pela eternidade.
       Continuaram colados um ao outro, beijando-se em ampla selvageria. Novamente, sem avisar, Nick interrompeu o beijo.
       - Agora  o momento de me fazer desistir, se quiser - ele declarou, solene.
       Sara arregalou os olhos. Ele a deixaria retroceder, mesmo estando totalmente excitado?
       A sensao de suavidade, causada pela intensa doura de saber que ele abriria mo do prprio desejo, derreteu o corao de Sara.
       - No. No quero desistir, Nick.
       Sob os dedos, ele sentiu as faces delicadas corarem. Havia certa inibio, certa sensibilidade a respeito de Sara que o fazia desej-la ainda mais.
       O profundo silncio de Nick aumentava o nervosismo de Sara. Para escond-lo, ela virou o rosto, esquecendo-se de que este encontrava-se preso s mos msculas. 
O movimento brusco a fez roar os lbios na pele morena.
       Como o simples toque dos dedos de um homem podia faz-la estremecer daquele jeito?
       - Sara...
       O modo como ele pronunciou seu nome incitou um leve gemido. Ento, Nick cobriu os lbios carnudos com os dele, revelando a intrnseca avidez.
       Sara tremia tanto que precisou apoiar-se no corpo viril, enquanto Nick abria a porta do quarto, no o de hspedes, mas o dele.
       Confusa, teve a impresso de divisar uma enorme cama, uma lareira repleta de lenha, uma escrivaninha sob a janela, uma cadeira e vrias cmodas.
       Pesadas cortinas pendiam na janela, o tapete sob seus ps parecia ser persa, e sobre a cama jaziam lenis de linho e um cobertor de l. O quarto quase inspirava 
um ar medieval, um misto de erudio e sensualidade. O ambiente parecia tocar sua sensibilidade de tal forma que Sara sentiu-se em casa, como se aquele lugar sempre 
a esperasse.
       O abajur ao lado da cama iluminava o cmodo, formando certa penumbra. Em um quarto como aquele seria possvel desvencilhar-se do resto do mundo e da realidade, 
Sara pressentiu.
       Seu corpo voltou a estremecer, reagindo s sensaes iminentes.
       - Se estiver com frio, posso acender a lareira - Nick ofereceu. - Trabalho aqui s vezes. Por isso, sempre mantenho lenhas 'na lareira.
       Sem esperar pela resposta, ele a soltou e ajoelhou-se para acender o fogo. Enquanto o observava, Sara absorvia cada detalhe visual. Aps aquela noite, nunca 
mais seria a mesma. Aps aquela noite...
       Nick se levantava.
       -  Se fosse num filme ou livro, nossas roupas iriam desaparecer como por encanto. No entanto, j que no ... Voc acharia muito antiquado de minha parte, 
se eu lhe confessasse que desejo despi-la e quero que voc faa o mesmo comigo? Sei que segundo os trmites modernos cada um tira as prprias roupas.
       O som que Sara emitiu foi pouco mais que um murmrio, mas Nick teve dificuldades de traduzir o significado. Zonza, amparou-se nos ombros largos, enquanto 
ele,  medida que a despia, beijava cada centmetro da pele exposta. Aps desabotoar a blusa, puxou-a devagar, beijou a curva do pescoo e percorreu o brao delicado, 
saboreando a pele macia.
       Sara ofegava, como se houvesse corrido a maratona, o corpo fraquejava com um misto de excitao e prazer.
       Ao fazer as malas, passara horas refletindo a respeito de que lingerie deveria levar para a ocasio. Jamais se preocupara com tais futilidades, mas havia 
se rebelado contra o prtico suti de cor neutra, optando por novos desenhos que modelavam as roupas e as curvas do corpo. Enfim, escolhera um lindo conjunto de 
renda, o qual estimulava seu lado feminino, como se ela tentasse ser algum que no era.
       Ironicamente, por causa da atitude de Nick ao chegarem, depois do banho ela exclura o suti. Seus seios eram firmes o suficiente para dispensar o acessrio, 
e, assumindo que o sexo s aconteceria tarde da noite, Sara no se importara com a lingerie rendada.
       Entretanto, agora que Nick fitava os seios nus, Sara sentiu-se a mulher mais sedutora, desejvel e sensual da face da Terra.
       -  evidente que no  f de topless - ele murmurou, traando as linhas plidas dos seios.
       - Eu... - Sara quase desfaleceu quando Nick inclinou-se e, bem devagar, comeou a acariciar um dos mamilos com os lbios.
       Desejo... Ondas quentes de desejo iniciaram sua jornada ao longo do corpo de Sara, uma aps a outra, revertendo a sanidade e incrementando a urgncia. Agarrada 
aos ombros de Nick, ela arqueou o torso.
       No espelho sobre a cmoda, Nick divisou o reflexo de ambos. A cabea de Sara estava inclinada para trs, o corpo nu, da cintura para cima, cintilava atravs 
das chamas da lareira e ele se ajoelhava diante de sua musa. A pose era to elementar, to pag que parecia agitar a atvica necessidade de um homem.
       Nunca, em tempo algum, ele se sentira t^o msculo, to dividido entre o desejo de possuir e sua vontade de mostrar ternura para ser vitorioso e tambm protetor.
       - No se esqueceu de nada? - perguntou a Sara, de forma brusca, agora afagando os seios com as mos. - Voc devia me despir, lembra-se?
       Despi-lo... Sara fechou os olhos.
       - Voc me distraiu demais - murmurou, na tentativa de ser sofisticada e natural como ele.
       - Nesse caso, talvez seja melhor eu permanecer parado. O que acha? - Nick sugeriu.
       Ela o encarou, um tanto incerta.
       - Vamos, Sara. S o que tem a fazer  abrir alguns botes. Assim...
       Nick segurou as mos dela, levou-as  camisa e comeou a desaboto-la. Saberia ele que efeito avassalador tinha sobre Sara?, perguntou-se, completa-mente 
enfraquecida pela fora do desejo.
       - Viu como foi fcil? - Nick sussurrou, depois de livrar-se da camisa, e a beijou. - Embora uma certa parte de minha anatomia talvez dificulte as coisas - 
acrescentou em tom jocoso. - E, se acariciar seus seios foi uma distrao to eficiente, acho melhor terminarmos de nos despir, antes de eu lhe mostrar quanto ainda 
desejo distra-la.
       O corpo de Nick era tudo que Sara havia imaginado e muito mais. Oh! muito, mas muito mais. Conforme o tocava com dedos hesitantes, seus olhos escureciam, 
mostrando quo cativada estava pelo clima sensual.
       Ser tocada, beijada e excitada por Nick a ponto de ela gemer devido  intensidade do desejo, imagin-lo dentro de si depois de ser carregada para a cama, 
compunham uma experincia to distinta s fantasias mais selvagens que Sara mal podia compreender o que sentia..
       -  Calma... S vai demorar mais um minuto - Nick murmurou quando se deitou sobre ela na cama e beijou-a novamente.
       - Eu o quero desse jeito, Nick... Eu o quero agora.
       Incapaz de se conter, Nick correspondeu ao apelo.
       -  assim que voc quer?
       O doce calor da penetrao  surpreendeu no incio. Sara prendeu a respirao quando, instantes depois, sentiu o prprio corpo suavizar-se para receb-lo. 
Fazia anos que no tinha relaes.
       - Voc parece urna virgem - Nick percebeu, inebriado. - To gentil e calorosa...
       - Faz algum tempo - Sara sussurrou, tremula. - E alm disso...
       Ele comeou a se mover de modo mais incisivo, fazendo-a chocar-se de prazer.
       - Voc parece... - Sara se deteve. Que utilidade haveria em compar-lo a seu primeiro e nico amor? Aquela magia e a intimidade eram unicamente deles, ou 
melhor, dele.
       - Pareo o qu? - Nick perguntou, enquanto se regozijava ante a perfeio com a qual seus corpos se encaixavam.
       Mas Sara estava longe de conseguir formular qualquer resposta lcida. Presa ao incio de seu primeiro orgasmo penetrativo, ela apenas o agarrou pelas costas 
e gritou, estonteada de prazer.
       - O mdico avisou-me para no alimentar expectativas, mas pelo menos ela saiu do coma -- Molly relatou a Caspar, quando adentraram o caf abarrotado de pessoas. 
- Lamento por ontem  noite - ela se desculpou, gentil.
       Caspar fechou os olhos. Era ele quem deveria se desculpar. O que diabos havia acontecido? Primeiro, desejara Molly com tamanha intensidade que sentira o corpo 
doer, em seguida...
       Molly parou e, constrangida, brincou com o boto do casaco aps sentarem-se  mesa.
       - Caspar, no quero pression-lo ou tirar concluses precipitadas, mas temos de conversar a respeito de... seu casamento. Voc ainda  casado - ela o lembrou 
-, e envolver-me com um homem casado, mesmo algum to atencioso e especial quanto voc, no  algo que eu queira fazer.
       - Atencioso! - Caspar resmungou.
       - Muito atencioso - Molly reforou e tocou-lhe o brao. - Nem todos os homens teriam sua pacincia e compreenso em relao a Ginna. E, mesmo que no soubesse 
por experincia prpria que alguns homens no suportam doenas, s de ouvir meus clientes eu j saberia. Oh! no estou dizendo que os homens no ligam para a famlia. 
Mas, para vrios deles, a realidade de uma molstia grave  to apavorante que eles fogem do problema ou se recusam a aceit-lo.
       Molly respirou fundo antes de prosseguir.
       - Com freqncia, reagem de forma radical porque temem perder a pessoa que amam, j que a doena tornou-se mais importante que eles. As vezes, sofrem porque 
acham que deviam proteger a pessoa amada, um instinto masculino muito arraigado, devo dizer. Sei que soa ilgico, mas... - Ela deu de ombros quando Caspar baixou 
o rosto, em silncio,
       De repente, Caspar lembrou-se da poca em que Olvia ficara sabendo que a me sofria de uma doena alimentar. Seu rosto se contorcera de dor e choque quando 
o acusara de no entender. Ele ainda recordava a raiva que sentira e o medo de perder Livvy para a famlia, que ela, por sua vez, dizia no significar nada. No entanto, 
Caspar fora orgulhoso demais para admitir o cime e a insegurana.
       No obstante, tambm agira com extremo orgulho quando, recentemente, sentira cime do fato de Olvia preterir as filhas e o marido, priorizando o trabalho.
       -  Voc est fazendo isso para me punir, e no porque deseja ir ao casamento de seu irmo - Livvy esbravejara depois de Caspar anunciar que iria  Filadlfia 
com ou sem ela. - Sabe que no posso me ausentar no trabalho.
       -  Estou fazendo isso porque meu irmo vai se casar - Caspar alegara, determinado.
       - Volte, Caspar - Molly chamou-o. Ele a fitou, envergonhado.
       Sem ver nada, Nick olhou para alm das colinas. O vento cortante e glido arranhava-lhe o rosto, mas ele mal registrava o fato.
       Estava claro, a neblina do dia anterior havia se dissipado, revelando um cu limpo, colorido pelo sol. No entanto, Nick no se atinha nem ao sol nem ao frio.
       Deixara Sara adormecida na cama que haviam partilhado na noite anterior... sua cama. A certa altura, ela murmurara a vontade de retornar ao quarto de hspedes, 
mas Nick recusara-se a deix-la ir, afirmando que Sara deveria ficar onde estava, em sua cama, em seus braos.
       Nick estremeceu quando uma persistente emoo reverberou dentro dele. O que acontecera a ambos na noite anterior fora muito mais denso que o mero sexo casual. 
O que iria fazer agora? No havia lugar em sua vida para o tipo de compromisso, o tipo de complicaes que Sara lhe traria. No, ela no se encaixava em seu estilo 
de vida atual e, ironicamente, Nick no poderia viver sem ela. Mas, de alguma maneira, teria de aprender.
       Ora, Sara havia deixado claro que a ltima coisa que queria era um relacionamento permanente com ele.
       - Voc  um Crighton - ela sussurrara com os olhos marejados, aps o primeiro interldio amoroso. Nick a abraara e pedira-lhe que explicasse o porqu daquela 
implicncia.
       - Em qual julgamento voc confia mais? - ele perguntara, irritado. - No de Tnia, uma mulher que, segundo me contaram, age como se tivesse dois anos de idade, 
ou no seu?
       Obviamente, Nick percebera o erro que havia cometido antes de ver o brilho furioso nos olhos de Sara.
       - Quem disse que discordo da opinio de Tnia? - ela indagara.
       - Quer mesmo que eu responda, Sara? E no ouse dizer que o que acabamos de viver juntos  uma experincia que voc teve com dzias de homens - ele argumentara. 
- Nunca vivi nada semelhante em minha vida.
       - E por causa disso voc deduz que eu tambm nunca tenha vivido essa experincia? - esbravejara Sara.
       Porm, no final, ela no somente admitira que o ato amoroso fora indito, como tambm que sua "vasta" experincia se resumia a um simples rito de passagem 
na adolescncia.
       - Nosso encontro tinha como objetivo livrar-nos dessa ridcula atrao que nos enlouquece. - Ela olhara para Nick, ele a fitara e ento...
       Se a revolta pelo modo como se desejavam era mtua, eles, em contrapartida, no conseguiam conter tais desejos. Mas para Nick a unio havia ido alm da atrao 
fsica. E quanto a Sara?
       Desolado, ele retornou ao chal.
       Plida de angstia e tristeza, Sara vestiu as roupas com as mos tremulas.
       No precisava se enganar. O que havia vivido na noite anterior e nas primeiras horas daquela manh no podia ser descrito como sexo casual. E, acima de tudo, 
no revelaria a ningum a verdade sobre os sentimentos que nutria por Nick - e quanto o amava.
       Ele deixara claro que no abriria mo da vida de solteiro, o tipo de compromisso que ela almejava no fazia parte de seus planos. E Sara estaria se iludindo 
caso acreditasse que poderia passar mais tempo com ele sem o risco de confessar o que sentia a cada gesto.
       No. Ela no tinha escolha. Se ficasse no chal com Nick o final de semana inteiro, poderia chegar ao cmulo de perder o autocontrole e o respeito prprio. 
E, quando se reduzisse a uma pattica confuso de emoes, suplicaria para que ele encontrasse um lugar para ela em sua vida. O nico jeito de impedir tal insanidade 
seria partir enquanto ainda tinha foras.
       Talvez Nick j estivesse preparado para isso, pensou, temerosa. A medida que o medo aumentava, Sara apegava-se  deciso de ir embora.
       Havia terminado de arrumar a mala quando Nick subiu a escada. Ele trazia uma caneca de ch e tambm estava vestido.
       -  O que est fazendo? - perguntou ao oferecer ch para Sara.
       -  Preparando-me para partir - ela replicou o mais calmamente possvel, aliviada por ter a desculpa de colocar a caneca sobre a mesa a fim de manter-se de 
costas para ele.
       - Agora? Ns s vamos embora amanh...
       - Correo - Sara o interrompeu. -Eu vou embora hoje... Alis, neste exato minuto. -- Ela respirou fundo antes de enfrentar Nick. - Ns conseguimos realizar 
o que havamos combinado.
       Nick a fitou, abismado.
       - O que quer dizer?
       -  Viemos aqui para fazer sexo - Sara o lembrou. - Para esgotar o desejo incontrolvel que nos atormentava.
       Embora sentisse as faces ruborizadas, ela se manteve firme na deciso. No se atreveria a retroceder.
       Nick sentiu-se tal qual um nufrago engolido por uma onda gigantesca que lhe causava uma inimaginvel dor.
       Queria acus-la de estar mentindo e confessar o que ambos sentiam um pelo outro. A desorientada sensao de choque e descrena o invadiu, roubando-lhe a capacidade 
de falar. Tornou-se inseguro, tinha medo de extravasar a angstia selvagem diante dela, como algum mortalmente ferido, coberto de sangue e sofrimento. O que ele 
vivia era agonia, desespero, destruio, descontrole, incontinncia...
       Notou que Sara pegava a bagagem e se dirigia  escada.
       Confusa, Sara,  certa altura, imaginou que Nick a acusaria de mentir. Por um instante fugidio, pensou que ele traria  tona os sentimentos. Mas, na realidade, 
devia estar aliviado por ela poup-lo da necessidade de lembr-la dos fatos concretos. Evitou para ambos o constrangimento de ela declarar seu amor e clamar por 
piedade.
       Na noite anterior, Nick fizera questo de dormir abraado com ela, porm Sara no se iludira. Tratara-se apenas de uma tpica mania masculina e no significara 
nada.
       No iria chorar, no agora. Haveria muito tempo para verter lgrimas.
       E, no entanto, at entrar no carro e atingir a estrada, parte dela esperava que Nick fizesse algo para impedi-la de partir, para dissuadi-la a ficar, mesmo 
que por algumas preciosas horas.
       Sara havia partido. Nick olhava, atnito, o chal vazio. Por que diabos no a impedira? Mas como? Usando a fora fsica? De que forma faria isso? Ainda no 
conseguia assimilar o que ela dissera.
       Tivera tanta certeza... Estava to convencido de que Sara sentia as mesmas emoes. O que havia de errado com ele? Devia estar radiante, aliviado, na verdade. 
Agora no existia nada nem ningum para atrapalhar sua vida. Agora estava livre para fazer o que bem entendesse!
       CAPTULO XV
       E voc, vov? David logo reconheceu a voz de Amlia ao atender o telefone. Eram nove e meia da manh, e ele e Honor haviam terminado o desjejum quando a neta 
ligou.
       - Sim, querida, sou eu.
       - Acho que a mame no est boa - Amlia contou-lhe com a voz chorosa. - Eu e Alex no conseguimos acord-la. Ela no abre os olhos e fica chamando papai 
o tempo todo.
       - No se preocupe, Amlia - David tentou acalm-la, sem revelar o prprio nervosismo. - Voc e Alex j se aprontaram?
       - No - ela respondeu, incerta.
       - Ento, por que no trocam o pijama e escovam os dentes? Quando terminarem, eu j estarei com vocs.
       - O que houve? - Honor perguntou depois que David desligou o telefone.
       - Olvia no est bem. - Rapidamente, ele contou  esposa o que Amlia havia dito.
       - Talvez ela tenha pego o vrus da gripe que anda rondando a cidade - Honor concluiu. - Um dos sintomas  febre alta.
       - Disse a Amlia que estaria indo para l - David acrescentou.
       - Vou com voc - Honor prontificou-se. - Ontem mesmo preparei um composto que  timo para baixar a febre.
       - Acha mesmo que deve ir? - David objetou. - No quero que pegue esta gripe. No seria bom nem para voc nem para o beb.
       Honor estava prestes a pontuar que o marido corria o mesmo risco de contrair o vrus e, por conseqncia, transmiti-lo a ela, mas se deteve. Talvez aquela 
fosse a oportunidade ideal para que David e Olvia se reconhecessem como pai e filha.
       -  Bem, eu prometi a Freddy que o ajudaria a escolher os mveis para sua estufa. Enfim, ele obteve a permisso de celebrar casamentos em Fitzburgh Place, 
e resolveu decorar aquela estufa imensa para oferecer recepes. Tive vrias idias para transformar o local.
       De repente, Honor parou de falar e encarou o marido.
       - David, este vrus  particularmente tenaz. Talvez voc precise chamar um mdico para Olvia. Ouvi dizer que muitas pessoas precisaram ser hospitalizadas 
por causa dessa gripe.
       - Prefere que eu no v, Honor?
       - Certamente que no. Olvia  sua filha. Sei como eu me sentiria se uma de minhas filhas ficasse doente e voc tentasse me impedir de v-la. No. Voc tem 
de ir, mas no quero que se sinta desleal a minhas "poes", caso seja necessrio chamar um mdico.
       Meia hora depois, quando Amlia abriu a porta para David, ele pde perceber que ela e Alex haviam chorado.
       Ele as abraou com carinho.
       - Agora quero que fiquem aqui em baixo, enquanto vou ver sua me. Assim, se o telefone tocar, uma de vocs poder atend-lo - ele improvisou, ao notar que 
Amlia fez meno de protestar.
       As cortinas do quarto de Olvia ainda estavam fechadas. O corao de David disparou quando reconheceu imediatamente que a filha encontrava-se delirante e 
semiconsciente. Quando tocou-lhe a face sentiu-a arder sob a mo, o travesseiro achava-se molhado, e o corpo tremia  medida que ela se mexia sob as cobertas.
       Honor tivera razo ao avis-lo de que talvez precisasse chamar um mdico.
       A secretria que atendeu ao telefonema de David disse-lhe que levaria horas para o mdico chegar  casa de Olvia.
       - H algo que eu possa fazer nesse nterim? - ele perguntou. - Ela est ardendo em febre. No pra de delirar e...
       - O senhor pode umedecer a pele dela com gua fria para fazer a temperatura baixar - a mulher o aconselhou. - E certifique-se de que ela tome bastante lquido.
       - D a ela quatro gotas da poo que lhe dei diludas em um copo de gua a cada meia hora - Honor o havia orientado, quando David telefonou-lhe para explicar 
a situao. - A mistura ajudar a diminuir a febre. Enquanto eu escutava o rdio, soube que os hospitais esto atendendo tantos casos de gripe que tiveram de cancelar 
outros atendimentos, menos as cirurgias urgentes.
       Mentalmente abenoando Honor por ter insistido que ele levasse a nova fita de vdeo da Disney que ela comprara para dar de Natal s meninas, David certificou-se 
de que as netas estavam tranqilas na sala de televiso, antes de voltar ao quarto de Olvia. Ambas assistiam ao desenho, completamente entretidas.
       No cmodo, Olvia achava-se ainda deitada, mas de olhos arregalados.
       - Pai - ela murmurou, irritada, quando o viu.
       - O que faz aqui?
       - As meninas estavam preocupadas com voc - ele respondeu, sincero. - E me telefonaram.
       - Preocupadas comigo... - Ela comeou a tremer e levou a mo ao pescoo. Sua garganta ardia demais, a cabea parecia explodir e, nos instantes em que achava 
que iria queimar de tanto calor, de repente sentia tanto frio que o ar parecia fugir de seus pulmes.
       - Est com dor de garganta? - David deduziu.
       - Vou preparar-lhe uma bebida quente. Voc sempre sofria de dores de garganta quando criana. Sua me queria tirar suas amdalas, mas...
       - Mas voc no deixou - Olvia terminou a frase.
       - Porque eu teria de faltar na escola por trs semanas e voc queria participar de um torneio de golfe na mesma poca. Sim, eu me lembro.
       - No! - David negou, chocado. - De onde diabos tirou essa idia? No quis que voc se sujeitasse  operao porque eu a tinha feito e sabia quo penosa era. 
Pensei que a dor nunca fosse passar e a ausncia das amdalas no eliminou as dores de garganta. Eu no admitiria submet-la a tanto sofrimento. Olvia o encarou, 
confusa.
       - No  verdade! - exclamou, furiosa. - Mame me disse... - Ela se ..calou quando lhe faltou ar.
       David correu para despejar no copo um pouco de gua da jarra que havia colocado ao lado da cama.
       -  Que gosto ruim. - Olvia fez uma careta ao beber o lquido, -  to amargo.
       -  uma das poes de Honor - David confessou. - Ela vai ajudar a baixar a febre.
       - Febre? Peguei um simples resfriado. No  nada de mais - Olvia teimou.
       -  uma gripe muito forte, Olvia - David a corrigiu, firme. - J liguei para a clnica e o mdico passar aqui mais tarde.
       - Voc fez o qu? No tinha o direito. No o quero aqui... - A voz de Olvia comeou a falhar quando a febre retornou.
       Sentia-se to doente que lhe era impossvel continuar a falar, quanto mais pensar. At a rstia de luz que penetrava em seu quarto ardia-lhe os olhos e seu 
corpo parecia fragmentar-se. No se lembrava de ter ficado to mal.
       - As meninas... - murmurou, enfraquecida.
       - Esto timas - David assegurou.
       Embora lutasse, Olvia aos poucos perdia a conscincia. A respirao tornou-se difcil e arquejante quando ela finalmente entregou-se ao cansao.
       Ela assemelhava-se mais a uma criana desprotegida que a uma mulher, David concluiu ao observ-la. Comovia-o v-la to frgil e vulnervel.
       To logo certificou-se de que a filha dormia, desceu para ver as netas e preparar algo para comerem.
       Quando entrou na sala para cham-las, Amlia o encarou, sria.
       - Vov, a vov saber fazer feitios mgicos como Harry Potter?
       David sorriu. Ele lia o livro para as meninas todas as tardes, depois da escola.
       -  Vov mexe com plantas medicinais - tentou explicar.
       -  o mesmo que ser uma bruxa? - Alex e Amlia perguntaram juntas.
       - Quero que ela seja uma bruxa - Alex prosseguiu, animada. - Porque, se vov for uma bruxa, ela poder...
       - Fique quieta - Amlia ordenou, mas Alex recusou-se a obedecer.
       Pensativo, David observou o olhar ansioso de Amlia e a atitude beligerante de Alex.
       - Ela poder o qu? - ele encorajou-as.
       Ignorando a agitao da irm, Alex prontificou-se a responder.
       -  Ela poder fazer uma mgica poderosa para nosso pai voltar.
       David no sabia se ria ou se chorava. Por fim, concluiu que lgrimas no resolveriam a questo.
       - Vocs sentem muita falta dele, no? - indagou, sentando-se com as netas.
       Ambas o fitaram com olhar triste e assentiram.
       De qualquer forma, no havia necessidade de terem respondido  pergunta. Era visvel que as duas morriam de saudade do pai. No conhecia Caspar, seu genro, 
mas, de acordo com que escutara, David supunha que Caspar era considerado pela famlia um pai bom e amoroso.
       - Ele e Olvia estavam to apaixonados - Jon lhe dissera, meneando a cabea, inconformado. - Nunca imaginei que poderiam se separar.
       O mdico chegou no final daquela tarde, parecendo exausto e preocupado.
       - Sim, ela contraiu o vrus - o especialista confirmou.
       - Olvia tambm est com muita dor de garganta - David informou-lhe.
       -  Terei de prescrever uma medicao para isso - o mdico avisou. - Ela precisar permanecer na cama por trs ou quatro dias. Se fosse uma mulher mais idosa, 
eu sugeriria intern-la no hospital, embora no haja vaga atualmente. Mas  jovem e poder se recuperar com o tratamento adequado. Esse vrus se espalhou feito uma 
praga. Parece no haver uma residncia na cidade que no abrigue um enfermo. Se algum estiver disponvel para cuidar dela... o marido, talvez.
       - Sou o pai dela. Ficarei aqui at que ela se recupere - David prontificou-se.
       Por fim, o regime que o mdico prescrevera era muito semelhante ao que Honor havia recomendado. David, ento, ligou para ela e relatou as ltimas novidades.
       - Preciso ficar aqui esta noite. No posso deix-la sozinha.
       - Claro, David - Honor aceitou na hora. - Alis, eu ficaria muito brava com voc se no o fizesse.
       - O mdico disse que a gripe pode demorar uns trs ou quatro dias para sanar - David acrescentou. - E sua consulta pr-natal est prxima.
       Honor respirou fundo. No havia confessado ao marido que temia o exame de ultra-som, caso este revelasse alguma anormalidade no desenvolvimento do beb que 
ela gerava. Por mais que tentasse se convencer de que o feto era saudvel, sua idade e os riscos que corria a apavoravam.
       Era evidente que queria David a seu lado na hora da consulta, apesar de saber que a presena do marido no faria a menor diferena durante o procedimento 
e que os resultados levariam alguns dias para chegar. Mas Livvy tambm era filha de David e agora precisava do pai.
       Quando teve certeza de que as emoes e a voz estavam completamente controladas, ela voltou a falar o mais confiante possvel.
       - No se preocupe com isso. Concentre-se em Livvy.  ela quem precisa de voc, David.
       -  Tem certeza, Honor? Devo confessar que no me sentirei tranqilo, caso precise deix-la.
       - Tenho certeza absoluta - Honor replicou, odiando-se por mentir. - Fique o tempo que for necessrio com Livvy.
       - Sara, minha querida. Que surpresa agradvel!
       Ela sorriu para o av. Francs no ficara espantada quando Sara lhe dissera que teria de partir, tampouco mostrara indignao ou revolta ao saber quem era 
Sara e o que a levara a aceitar o emprego.
       - Eu devia ter contado tudo para voc desde o incio - Sara admitira. - Mas foi muito difcil.
       - Eu entendo perfeitamente - Francs a confortara. - Conflitos de lealdade sempre existiro. Mas lamentamos perd-la, Sara.
       - Preciso ir - Foi tudo que Sara pde dizer.
       Tnia reclamava porque a visita inesperada de Sara os atrasava para o jantar que haviam marcado com amigos. Enquanto testemunhava as tentativas do av de 
aplacar a esposa, Sara, pela primeira vez, percebeu por que seu pai no era f da segunda mulher do sogro.
       - Est tudo bem. No pretendo ficar. - Sara forou um sorriso a Tnia. -  uma visita rpida. Vou me encontrar com papai e mame no Caribe.
       -  Oh! voc  uma garota de sorte - Tnia exclamou, invejosa. - Eu gostaria de ter sua idade, Sara querida. Seu pai  to privilegiado por ter adquirido um 
apartamento em um local to abastado. Todos aqueles homens milionrios... Se jogar direito, estou certa de que voc acabar fazendo um timo casamento.
       Sara fechou os olhos para conter o mal-estar que o comentrio de Tnia havia suscitado. S de pensar em qualquer homem que no fosse Nick ocupando sua cama, 
sentia-se arrepiar de horror. Seu corao sofria de tal forma que quase a obrigava a gritar para o mundo que nunca se casaria com outro.
       Sabia que seus pais eram contra sua vontade de trabalhar para uma instituio de auxlio aos necessitados.
       - Ir arruinar seu esprito - o pai alegara, veemente. - Acredite-me, Sara, voc  sensvel demais. Mesmo que consiga suportar algum tipo de molstia terminal, 
ainda assim estar sujeita ao trauma emocional que essa carreira pode proporcionar.
       No entanto, ela tinha de fazer alguma coisa para esquecer a dor que a dilacerava, e a nica sada que podia encontrar era engajar-se no pior e mais insalubre 
trabalho que poderia existir.
       O motivo de estar voando para o Caribe no era simplesmente persuadir os pais a aceitar seus planos. Se permanecesse em casa, no mnimo, sucumbiria  tentao 
de contatar Nick. Imploraria, suplicaria de joelhos para que ele a tomasse nos braos e a levasse de volta a sua cama...
       - Jenny,  voc?
       -  Caspar. - Jenny, por um instante, perdeu a fala ao escutar a voz do marido de Olvia. Por que telefonava para ela?
       - Estou ligando para saber como vo as meninas e Livy -"Caspar explicou-se, antes de Jenny perguntar.
       -  Esto bem, pelo que sei - Jenny respondeu, cautelosa, e acrescentou: - Por que no telefona para Olvia, Caspar?
       - No - ele rebateu de pronto. - E, Jenny, no conte a Livy que telefonei, por favor. No quero que ela pense que estou...
       - Preocupado com ela? - Jenny completou, gentil.
       - Interferindo em sua vida - Caspar a corrigiu." - Tenho de desligar agora - ele apressou-se e interrompeu a ligao antes que Jenny dissesse algo mais.
       - Quem era? - Jon perguntou, ao entrar na cozinha quando Jenny recolocava o telefone no gancho.
       - Caspar. Ele ligou para saber se Livy e as meninas esto bem.
       -  E mesmo? Fico triste s de pensar naqueles dois. - Jon meneou a cabea, inconformado, e aproximou-se da esposa. - Temos tanta sorte em nosso casamento, 
Jenny. Ou melhor, eu tenho sorte por estar com voc. Detesto imaginar o que seria de minha vida, caso no fssemos casados.
       De sbito, Jenny comeou a chorar.
       - O que foi, querida?
       - No sei - ela admitiu. - Tudo pareceu desmoronar nos ltimos dias que passei a ter medo de... - Ela calou-se.
       - Passou a ter medo de qu, Jenny?
       - Desde que David voltou sinto que voc prefere estar com ele a ficar comigo.
       Enfim, Jenny confessava o medo que tanto a atormentara.
       -  Como pde pensar nisso? - Jon indagou, incrdulo.
       -  Ora, David  seu irmo gmeo - Jenny argumentou.
       - E voc  minha mulher, meu amor, minha melhor amiga, minha alma gmea - Jon listou, emocionado. - Sim, eu amo David. Estou feliz que ele tenha voltado e 
aprecio que estejamos redescobrindo nossa relao to estreita. Porm, o que sinto por meu irmo no chega aos ps do que sinto por voc. Nosso amor e nossa vida 
juntos significam muito para mim, Jenny. E minha esposa e sem voc...
       Ele se deteve, indignado.
       -  Sabia que havia algo errado, mas pensei que estivesse preocupada com Maddy.
       -  E estava - Jenny admitiu. - Senti-me to idiota por ter cime a essa altura de minha vida,
       Jon. Comecei a pensar que talvez voc tivesse inveja de David. Ele se casou novamente e agora ter outro filho.
       Em outras circunstncias, o semblante perplexo de Jon a faria rir.
       - Inveja de David? Eu? Que absurdo, Jenny. Na verdade, s vezes sinto pena de meu irmo. Sei que ele ama Honor, vejo como esto felizes juntos e estou radiante 
porque vo ter outro filho, mas eu e voc realizamos tudo isso, partilhamos essas experincias.
       Jon soltou um suspiro profundo.
       - Agradeo a Deus por nunca termos passado pela culpa que a relao entre David e Olvia est causando a ele. Sei que no vou sofrer como meu irmo est sofrendo. 
Voc  a ddiva mais preciosa que um homem pode receber, Jenny... Voc e nossos filhos.
       Uma declarao to comovente, vinda de um homem que, em geral, mostrava-se reticente quanto a revelar os sentimentos, transmitiu a Jenny a veracidade das 
palavras.
       - Fui to ridcula - ela murmurou, arrependida.
       - No. Eu fui o ridculo dessa histria por no perceber o que voc sentia. Mas agora que sei, pretendo apagar todas a dvidas que a atormentaram.
       - Jon - Jenny protestou, ofegante, quando ele a tomou nos braos e beijou ardentemente. Mas o protesto foi nfimo diante da impossibilidade de ignorar o que 
o marido demonstrava.
       David acordou, sobressaltado, e, em um gesto automtico, virou-se para abraar Honor. Contudo, ela no estava l, fato que o fez lembrar-se de que se encontrava 
na casa de Olvia, dormindo no quarto de hspedes.
       Sonolento, verificou o relgio. Era quatro horas da manh. Achou estranho escutar um rudo repentino na casa silenciosa. Algum estava chorando.
       Jogando as cobertas de lado, ele se levantou e correu  porta. O choro vinha do quarto de Olvia. Aflito, atravessou o corredor e entrou no cmodo escuro.
       O sono de Olvia estava agitado, ela murmurava enquanto se mexia e virava na cama. Ansioso, David debruou-se sobre ela. Mesmo antes de toc-la, pde perceber 
que a filha ardia em febre. Livy, ento, comeou a tossir, um som to rouco que ele sentiu o peito se apertar de preocupao.
       Os olhos de David queimavam devido s lgrimas que no havia derramado durante o crescimento da filha, quando estivera ausente e alheio s necessidades de 
Olvia.
       Uma das mos de Livy jazia sobre as cobertas. Muito delicadamente David envolveu-a entre as suas. A despeito da febre, a me estava fria. Carinhoso, comeou 
a massage-la. Como conseguira ser to falho como pai? Como cegara-se para a singularidade dos filhos, sem conscientizar-se de quo especial eram e tampouco notar 
a magnitude do amor de uma criana pelos pais? Um filho era, quase literalmente, uma ddiva de amor.
       E Olvia era sua filha, assim como Jack... e como seu filho que ainda iria nascer seria. Cada um possua a prpria unicidade e era amado por ele tambm de 
forma nica. Havia causado tanto sofrimento a Olvia, tantas mgoas...
       Seriam os danos irreparveis? David rezava para que no fossem.
       Olvia passou a relaxar quando o pesadelo comeou a fenecer e dar lugar a um sonho muito mais alegre. Estava com Caspar. Eles caminhavam de mos dadas, e 
s de estar ao lado dele sentia-se plena de amor e felicidade.
       - Caspar...
       David franziu o cenho ao escutar Olvia dizer o nome do marido. Ela sorria e sua agitao tinha passado. Ele at pensou que a temperatura houvesse baixado.
       - Caspar.
       Notou que ela apertava sua mo sempre que repetia o nome do marido em um tom terno, um suave suspiro que revelava a David como a filha se sentia. De sbito, 
Olvia abriu os olhos, fitou o pai e, ao perceber que no era Caspar, a expresso tornou-se sombria.
       -  voc - disse, desapontada, e tentou remover a mo, virando o rosto.
       Olvia sentia o calor das lgrimas que furiosamente tentava suprimir. O significativo contraste entre o sonho e a realidade era dodo demais para conseguir 
suport-lo. O que aquele sonho quisera lhe mostrar? Que Caspar era mais importante para ela do que se permitia admitir?
       Irritada, moveu a cabea no travesseiro.
       Mas o casamento tinha terminado, no haveria volta. Ambos sabiam disso.
       - A ltima vez em que fiquei  cabeceira de sua cama, voc tinha seis anos e estava com catapora - David comentou, emocionado. Olvia ficou tensa.
       - Sim, tive catapora com seis anos. Mas voc no estava comigo.
       - Estava, sim, Olvia - David retificou, calmo.
       - Voc viajou com vov para no sei onde - ela insistiu.
       - Mas voltei. Jon me telefonou e disse... - Ele calou-se.
       - Tio Jon lhe disse o qu?
       - Disse que voc chorava muito e me chamava.
       - Eu chamava voc? - As faces de Olvia tornaram-se vermelhas de raiva. - Mesmo aos seis anos, eu j era esperta. No que lhe dizia respeito, eu era barulhenta 
e no possua o sexo certo... Voc nunca me amou, jamais me quis.
       David ficou agoniado. Muito do que ela afirmava era verdade. Se ao menos pudesse encontrar um jeito de se aproximar dela...
       Sobre a mesa de cabeceira, ele divisou a foto de Caspar carregando Alex, um bebe lindo, com Amlia sentada em seu colo.
       - Ainda me lembro da noite em que voc nasceu - David contou  filha. - Sua me... - Seus olhos ficaram anuviados.
       Tiggy ficara furiosa porque haviam se mudado para Cheshire e, por um motivo nada lgico, responsabilizara o beb que carregava. No dia do parto, ela recusara-se 
a aceitar que a dor que vinha sentindo era Olvia que estava prestes a nascer. Naquela noite, porm, tinham planejado jantar com outro casal, um rico financeiro 
e sua esposa, que pertencia  alta sociedade de Cheshire. Tiggy alegara a importncia de comparecer ao evento.
       No final, precisaram faltar ao jantar. A bolsa rompera e ela fora forada a admitir que seria impossvel sentar-se  mesa do restaurante, como se nada houvesse 
acontecido.
       -  Droga de beb! - Tiggy perdera a pacincia.
       -  tudo culpa sua, David Crighton.
       Ela havia proibido o marido de permanecer na sala de parto, e David ainda se recordava da longa espera at, enfim, ser informado de que Olvia nascera.
       - Ela est um pouco sem cor - o obstetra dissera a David. - Mame parecia relutante em dar  luz.
       - Ele rira como se o fato fosse motivo de piada, mas David chocara-se ao ver o rostinho plido de Olvia.
       Quisera acalent-la, no entanto a enfermeira do berrio o impedira, fazendo-o sentir-se uma presena intrusiva.
       - Tiggy o qu? - A voz de Olvia interrompeu-lhe o devaneio. - Tiggy tambm no me queria? Sei que fui um acidente de percurso. Surpreende-me o fato de voc 
no ter sugerido um aborto.
       Ao ver o brilho indignado nos olhos de David, Olvia enrijeceu.
       - O que foi? - ela o desafiou. - Chegou a pensar em aborto?
       - No - David negou, triste por escutar aquela acusao, por ter noo de como ela se sentira a vida toda. - Nenhum de ns considerou essa possibilidade, 
Olvia. Nunca.
       -  Mas quando nasci voc no me quis, no me amava!
       Era uma afirmao, no uma pergunta.
       Incapaz de explicar o que sentira, David meneou a cabea.
       - No fui um bom pai para voc, Livy, e por isso... - David respirou fundo. - Por isso, jamais aliviarei minha culpa. Mas  minha filha e sempre foi muito 
preciosa para mim.
       Enquanto ela o encarava, David prendeu a respirao. Olvia no sabia o que pensar. De alguma maneira, conversar com ele havia modificado o foco de seus sentimentos. 
No podia dizer que o perdoava ou que o entendia. Contudo, o amargor e a sensao de dor haviam diminudo, desatando as amarras das emoes. Percebia que era capaz 
de olhar o passado de forma mais gentil e leve.
       - O amor nem sempre se manifesta do jeito que esperamos - David argumentava, devagar. - As meninas sentem saudade do pai - revelou quase abruptamente. - Voc 
ainda o ama, Livy?
       Livy. Pela primeira vez, desde que se tornara adulta, Olvia no se afogou naquela familiar onda de ressentimento quando o pai a chamava pelo apelido de infncia.
       - No... No sei... Sim - ela balbuciou e as lgrimas voltaram a brotar. - Mas no estava dando certo. Caspar no me entendia. Sempre me acusava de estar 
mais ligada ao passado, a voc e ao vov. Dizia que eu no me importava com ele e as meninas. No  verdade.
       Por um instante, Olvia fechou os olhos, cansada.
       - Eu queria que ele entendesse, que me ajudasse e no me criticasse. - Livy desviou o olhar, mas, lentamente, descobriu que estava desabafando, revelando 
ao pai os problemas do casamento, seus temores, sua dor, e tudo isso lhe pareceu a atitude mais natural do mundo.
       Um pouco antes da aurora, ela adormeceu, exaurida. David inclinou-se e beijou o rosto da filha.
       O amor que sentia por ela acelerava-lhe o corao. E, como pai, tinha necessidade de consertar o mundo para ela.
       Caspar encontrava-se a um telefonema de distncia. Sem sombra de dvida, como marido, tinha o direito de saber que ela estava doente, que as filhas precisavam 
dele. E quanto ao fato de Olvia ainda o querer?
       Essa, David ponderou, era uma deciso que poderia tomar to logo falasse com o genro.
       Sempre metdica, Olvia anotara o nmero do celular de Caspar na agenda telefnica. David certificou-se de que ela dormia profundamente antes de fazer a ligao.
       Caspar assustou-se quando o celular comeou a tocar. J era tarde da noite, e Molly dormia no prprio quarto.
       Ao ver o nmero de sua casa piscando no visor do celular, o sentimento foi to intenso e agudo que o pegou de surpresa. Porm, quando escutou a voz desconhecida 
de um homem, a sensao emotiva evaporou.
       -  Caspar?
       - Sim - ele respondeu com certa hostilidade.
       - Sou David Crighton, o pai de Olvia.
       O pai de Olvia! Caspar sentiu-se relaxar um pouco, mas voltou a ficar tenso quando David continuou.
       - Achei melhor entrar em contato com voc para lhe dizer que Olvia no est muito bem.
       O pavor de escutar a notcia to cedo, aps ter conversado com Jenny, deixou Caspar ansioso.
       - O que houve com ela? - perguntou e, por um momento, o impensvel o apavorou. - Foi um acidente? Livvy...
       -  No foi nada disso - David apressou-se em dizer. - Ela contraiu uma gripe virtica e o mdico decretou que Livvy deve ficar de cama por alguns dias.
       -  Ficar de cama... Olvia! - A voz de Caspar transmitia certo espanto e cinismo, j que algum conseguira obrigar Olvia a deixar o trabalho.
       David sorriu.
       -  Bem, ela no gostou da idia. Mas, para ser sincero, no foi difcil for-la a repousar. Olvia fica a maior parte do tempo inconsciente, embora a pior 
fase da febre j tenha passado.
       Enquanto ouvia o relato de David, Caspar viu-se mergulhado em emoes conflitantes. O fato de Olvia estar doente o bastante para permanecer de cama o aborrecia 
mais do que podia imaginar. Para no examinar de perto o sentimento, ele perguntou ao sogro:
       - E as meninas?
       Nem o nascimento das filhas mantivera Livy na cama por mais de vinte e quatro horas.
       - Suponho que estejam com Jenny e Jon - Caspar respondeu  prpria pergunta.
       - Na verdade, elas esto em casa comigo. E no param de perguntar de voc, Caspar. Sentem sua falta - David contou-lhe, antes de prosseguir: - Eu me mudei 
para c a fim de cuidar de Olvia.
       - Livy deixou voc se instalar em casa? - Mais uma vez, Caspar revelou o espanto.
       - Bem, ela no teve alternativa - David confessou. - No havia ningum mais - ele acrescentou, aproveitando o ensejo. - Maddy passou muito mal e precisou 
do auxlio de Jenny. Portanto, Livy no tinha a quem recorrer.
       David sabia que estava sendo injusto e percebeu, atravs do silncio que se seguiu, que havia atingido o alvo.
       - Como ela est? - Caspar perguntou, de repente.
       O cenrio que David lhe descrevia era to antagnico a Olvia que ele sentia a ansiedade aumentar a cada palavra.
       - Se os leitos do hospital no estivessem cheios... - David explicava.
       - Hospital! - A doena de Olvia era to grave a ponto de requerer internao? - Por que esperou tanto tempo para me telefonar? - Caspar explodiu.
       - Talvez porque eu precisasse ter certeza de que Livy o queria - David respondeu.
       Caspar fitou a parede do quarto, incrdulo.
       - Livy pediu para voc me telefonar?
       - E o marido dela, Caspar, o pai das meninas.  to surpreendente assim saber que ela precisa de voc? - David pontuou.
       Em geral, a inteligncia aguada de Caspar encontrava-se subordinada s emoes, logo ele no percebeu que David respondera de maneira evasiva.
       Livy o queria. Livy precisava dele!
       - Estou no meio do nada no momento - Caspar disse a David. - Mas pegarei o primeiro vo internacional que puder conseguir. E, David...
       Era estranho dirigir-se ao sogro pelo primeiro nome, mas David estava aliviado demais para se importar.
       - Sim? - Ele, enfim, sentiu a tenso se dissipar. Olvia jamais o perdoaria por ter manipulado o genro e interferido em sua vida. Porm, se no o fizesse, 
nunca perdoaria a si mesmo. Livy era sua filha e a felicidade desta era de fundamental importncia para David. Muito mais importante do que Livy podia imaginar.
       - Obrigado - Caspar agradeceu, por fim.
       Quando desligou o celular, ele fitou a porta do quarto. Do outro lado estava Molly. Fazia apenas algumas horas que ela manifestara a relevncia de conversarem 
sobre o casamento e Caspar...
       Fechou os olhos e alongou os ombros a fim de eliminar a tenso. No podia partir sem explicar-se, e tampouco queria deix-la sem se despedir.
       Quando abriu a porta do quarto aps ouvi-lo bater, Molly estava to linda que Caspar teve de se controlar para no tom-la nos braos. Seria possvel um homem 
amar duas mulheres?
       - Posso entrar? Preciso conversar com voc. Molly soube na hora que o assunto da conversa envolvia a esposa de Caspar. Para que ele no visse o medo em seus 
olhos, ela se virou. Conhecia-o to pouco e sempre estivera ciente de que o casamento ainda vigorava, embora Caspar tentasse negar.
       - Olvia est doente - ele comeou. - Tenho de voltar para casa... as meninas, minhas filhas, tm perguntado por mim - acrescentou, sem coragem de fit-la.
       Enquanto o ouvia, uma sensao de perda a invadiu. Mas Molly recusava-se a sucumbir. Afinal, no sabia que aquela despedida estava fadada a acontecer? No 
percebia que, pelo modo com que pronunciava o nome da esposa, ele ainda amava sua Olvia, por mais que insistisse em dizer o contrrio?
       Recorrendo  coragem e ao profissionalismo, Molly tocou-lhe o brao.
       - Est fazendo o que  certo - ela garantiu. - Um casamento to bom quanto o seu merece uma segunda chance,
       - Como sabe? - Caspar perguntou, intrigado. No fundo, sentiu-se aliviado e grato por ela no conden-lo ou dificultar a situao. Mas havia tambm uma certa 
tristeza e culpa.
       - Apenas sei. - Molly sorriu.
       Observando-o partir, ela continuou a sorrir. Entretanto, em voz baixa, tal qual uma prece, advertia Olvia:
       - Dessa vez, vou deix-lo voltar para voc. Mas se cometer a tolice de perd-lo de novo, no serei to generosa da prxima vez.
       CAPITULO XVI
       Voc parece contente com a vida esta manh - Maddy disse  sogra, quando Jenny foi visit-la a fim de saber se a nora precisava de algo.
       -   verdade. - Jenny corou ao se lembrar do jeito doce e passional com que Jon demonstrara seu amor por ela. - E voc me parece muito disposta - comentou, 
sorrindo para Maddy.
       - Sinto-me tima. No entanto, Max me preocupa. Ele no anda dormindo bem e est agitado.
       -  Talvez ele esteja apreensivo em relao s ameaas do av de modificar o testamento - Jenny sugeriu.
       - No creio que seja essa a razo - Maddy negou. - Temos de viver nesta casa, claro, mas ao final do dia, ns nos comportamos como dois conhecidos, no como 
um casal.
       O tom ansioso da voz de Maddy comeou a perturbar Jenny. O obstetra fora absolutamente claro ao prescrever repouso para ela, e Max organizara a vida de ambos 
de tal forma que nada e ningum poderiam causar  esposa o menor grau de preocupao.
       - J perguntou a Max o que o incomoda? - Jenny inquiriu.
       - Tentei diversas vezes. E Max insiste em dizer que no h nada de errado. Mas sei que h, Jenny. Ele tem tido pesadelos terrveis noite aps noite e parecem 
estar piorando. Contudo, ele no discute os sonhos comigo. - Maddy deteve-se, incerta quanto a expor mais detalhadamente que Max se distanciava dela tambm.
       - Ele passou por um perodo muito estressante - Jenny ponderou. - Nunca o vi to transtornado como nos dias em que ficou no hospital, Maddy. Foi um alvio 
saber que sua presso sangunea voltou ao normal, mas para Max o tempo de espera foi insuportvel, especialmente... - Jenny calou-se, arrependida.
       -  Especialmente o qu, Jenny? - Maddy pressionou-a.
       Jenny suspirou. Devia ter ficado quieta, porm o filho' mostrava-se alterado demais e ela tinha de terminar o que havia comeado a dizer.
       - Max teve medo de perd-la, Maddy. O mdico explicou-lhe o que poderia acontecer a voc e ao bebe na pior das hipteses, caso no respondesse ao tratamento.
       Jenny respirou fundo antes de citar a pior parte do problema.
       - Max me disse que no suportaria perd-la e, se a deciso dependesse dele, teria instrudo o mdico para interromper a gravidez a fim de salvar sua vida, 
Maddy.
       Ao escutar a exclamao da nora, Jenny aproximou-se, gentil.
       - Max a ama profundamente, querida, e estamos nos referindo a uma situao na qual ele temia que, se no respondesse ao tratamento, sua vida e a do bebe estariam 
correndo um grave risco. No entanto, o mdico alegara que voc teria de ser consultada antes de qualquer providncia. Max, no fundo, queria tomar a deciso sozinho 
para poup-la.
       Quando Jenny viu a expresso angustiada de Maddy sentiu-se culpada.
       - Lamento, Maddy. No devia ter dito nada.
       - No, Jenny. Ainda bem que me contou tudo. Eu no sabia de nada. O Dr. Lewis nunca disse...
       Nem Max!
       Maddy sentiu um arrepio glido e tocou o ventre em um gesto protetor. A possibilidade de algum, ou qualquer coisa, ameaar ferir seu beb estimulava seu 
instinto materno com toda a fria.
       Meia hora depois que Jenny saiu com a lista de compras - embora Maddy estivesse recuperada, Max insistira para que no cometesse excessos - ela dirigiu-se 
ao estdio do marido.
       Quando ele a viu entrar, os olhos que outrora brilhavam de prazer agora pareciam sombrios de cautela.
       - Sua me acabou de sair - Maddy informou. Caminhando at a janela e permanecendo de costas para Max, ela prosseguiu:
       - Eu contei a ela quanto estou preocupada com
       voc.
       - Para qu? J lhe disse que estou timo, Maddy.
       Era estranho o que a conscincia de algum fato podia causar. Agora, sob a superfcie irritada da voz do marido, ela pde ouvir o tom das emoes turbulentas.
       - No est, no, Max. Por que tudo estaria timo se... - Maddy o encarou com os olhos cintilantes de raiva e dor. - Jenny me falou o que poderia ter ocorrido 
a nosso beb. - Ela jamais conseguiria pronunciar a palavra que trazia tanta angstia e sofrimento a seu corao.
       - O qu?!
       No mesmo instante, percebeu que Max entendera o que Maddy tentava dizer.
       - Ela no tinha o direito - Max esbravejou, irado. - No havia necessidade...
       -  No havia necessidade? Voc preferia minha vida  do nosso filho e vem me dizer que no havia necessidade de eu saber?
       - Maddy, por favor, tente entender - Max suplicou, desesperado.
       Levantou-se e fez meno de se aproximar, mas Maddy recuou, ignorando a mo que ele lhe estendia.
       - Eu no agentaria pensar na possibilidade de perd-la, mesmo que tivesse... - Agora foi ele quem no suportou encar-la, e virou-se, sufocado pelos sentimentos.
       - Mesmo que tivesse o qu, Max? - Maddy exigiu saber.
       - Mesmo que eu tivesse de sacrificar nosso filho para salvar sua vida, Maddy - Max confessou. - As crianas que j temos precisam de voc e eu... Eu no conseguiria 
viver sem voc.
       Max passou a mo entre os cabelos, angustiado.
       - Acha que tem sido fcil para mim? - perguntou. - Acha que no sofri, que no me amaldioei centenas de vezes, que no me odiei? Nos piores momentos, imaginei... 
- Ele calou-se, incapaz de revelar a verdade contida nos pesadelos assombrosos.
       Max fechou os olhos. Se j admitira tanto, teria de continuar sem vacilar.
       - Para ser franco, Maddy, se eu tivesse de passar por isso de novo, ainda assim faria a mesma escolha. Pensei que eu fosse forte, mas no sou. Sou egosta 
e fraco. Voc  minha vida, Maddy.
       - No diga mais nada - ela implorou.
       Max esperou, lutando contra a possibilidade de ela abandon-lo, por saber que havia destrudo o amor que partilhavam. Mas, para seu espanto, Maddy caminhava 
em sua direo. Quando ergueu a mo para tocar-lhe o rosto, os olhos se iluminaram de emoo.
       Atemorizava-a saber que ele havia suportado tanto sofrimento sem queixar-se uma s vez. Tinha certeza de que Max amava a prpria famlia, contudo a crua intensidade 
das emoes que testemunhou tornaram-se uma revelao para ela.
       - No suporto a idia de que quis assassinar nosso filho - ele continuou, emocionado. - No vou recrimin-la, caso passe a me odiar por isso, Maddy.
       - No odeio voc - ela alegou, carinhosa. - E, Max, no era nosso filho que voc queria destruir, era a mim que queria salvar!
       Enquanto o observava, Maddy reparou que no o tinha convencido ainda.
       - Cheguei a pensar... - Max murmurou e cobriu o rosto com as mos. - Desejei que essa criana nunca tivesse sido concebida. - Ele respirou fundo. - E agora 
estou atormentado, Maddy, porque nosso filho, quando nascer, ir me odiar por eu t-lo rejeitado.
       - Max! - Maddy exclamou, compadecida. - No deve pensar assim.
       -  Era eu quem devia proteger vocs dois, mas no consegui aceitar a probabilidade de perd-la, Maddy. E agora nem sequer durmo direito s de imaginar que 
essa criana...
       - Pare com isso, Max! - Maddy ordenou, firme. Abraando-o com toda intensidade de seu amor, ela sussurrou: - Est se torturando sem necessidade. Olhe para 
mim.
       A surpreendente ordem de comando na voz de Maddy obrigou-o a obedecer-lhe. As lgrimas haviam sumido dos olhos que ele tanto amava e agora refletiam calma 
e serenidade.
       - Prometo a voc que este bebe, se um dia descobrir o que houve, saber que foi concebido com amor, e ser criado com a emoo maravilhosa que nos une.
       -  Tive tanto medo de que voc deixasse de me amar ao saber o que eu sentia... o que eu teria feito... - Max confessou outra vez, sentindo que as palavras 
de Maddy comeavam a amenizar a angustia e a curar a ferida de sua alma.
       Ela o fitou nos olhos a fim de mostrar-lhe a sinceridade de seus sentimentos.
       - No h nada que possa fazer para eliminar o amor que sinto por voc.
       - Maddy...
       Ao erguer o rosto para beij-lo, ela sentiu o sabor das lgrimas que o marido vertia.
       - Estamos salvos, Max. Estamos todos, seguros agora, e esse beb ir am-lo de mesmo jeito que eu o amo!
       - Ovos mexidos e torradas!
       Olvia riu quando o pai, solene, colocou a bandeja sobre a cama.
       - Oh! pai - ela protestou, causando imensa satisfao em David por escut-la pronunciar a denominao com tanto afeto. - Agora sei que estou invlida. Lembra-se 
de quando servi o caf da manh para voc e mame na cama? - Seu sorriso estremeceu e ela desviou o olhar.
       Aquela nova relao que estavam explorando a remetia  fase adolescente, quando a avalanche de incertezas e dvidas misturava-se a momentos de euforia to 
intensos que chegaram a ser mgicos.
       -  Como posso esquecer? - David riu, saudoso. - Os ovos cozidos estavam to duros quanto balas de canho e o ch...
       Olvia soltou uma gargalhada.
       -  Eu confundi o pote de sal com o de acar e no sabia que era preciso abrir os envelopes dos saquinhos de ch para coloc-los na gua quente. Mame ficou 
furiosa comigo - ela finalizou, um tanto pesarosa.
       David a observava, quieto. Embora Olvia no soubesse, Tiggy havia se esbaldado em uma de suas farras na noite anterior e passara a maior parte da madrugada 
expelindo a comida que tinha ingerido.
       - Acho melhor dar uma olhada nas meninas - David anunciou. - Do contrrio, elas vo se atrasar para a escola. Sua despensa est um pouco desfalcada. Portanto, 
passarei no supermercado na volta. E no saia desta cama at eu retornar - ele ordenou, sorrindo. - No est forte o suficiente para cometer desatinos.
       Olvia no discordou. Ainda sentia-se fraca, o que justificava o fato de deix-lo assumir o comando sem reclamar. Era evidente que devia estar sem foras, 
pois, do contrrio, nunca aceitaria, como fazia naquele instante, a satisfao de ser mimada e muito bem tratada.
       S de saber que o pai estava presente ela sentia um peso gigantesco sair de seus ombros.
       - Preciso ligar para o escritrio, pai. Tenho vrias reunies que devem ser canceladas e...
       - Quando eu voltar - David a interrompeu, resoluto, e sorriu com amor.
       Ele estava prestes a retirar-se quando Olvia lembrou-se de um detalhe importantssimo.
       - Pai?
       - Sim, filha? - David correu para atend-la. - No se sente bem? O que ?
       - Estou bem melhor, pai. Mas me lembrei de algo. No  hoje que voc e Honor vo ao hospital para fazer o primeiro ultra-som do beb?
       Atravs do semblante de David, ela obteve a confirmao.
       -  Honor tentou postergar a consulta, mas no conseguiu. Ela no v problema em ir sozinha e entende que no quero deix-la acamada em casa, sem ningum para 
cuidar de voc.
       Por um momento, Olvia perdeu a fala, enquanto assimilava o que o pai havia declarado. Ela era mais importante que Honor e o bebe... David optara por ficar 
com ela... priorizara as necessidades dela.
       A medida que os pensamentos tomavam forma, a alma da criana que fora emergiu do passado, incitando sentimentos mais maduros agora. Olvia tambm era me. 
Tambm conhecia a ansiedade que cada mulher vivia em relao  sade e segurana do filho em gestao. Sabia que Honor desejaria ter David a seu lado... mesmo que 
sua idade no fosse um agravante.
       Decidida, ela meneou a cabea e sorriu para o pai.
       - Estou me sentindo melhor, pai. E no me perdoaria por impedi-lo de estar com Honor na hora da consulta. Ela precisa de voc, apesar de negar. - Livy notou 
a hesitao de David. - V encontr-la - insistiu. - Por favor, quero que v.
       Conforme argumentava, Olvia tinha a ntida impresso de estar cruzando uma trilha obscura/como se estivesse envolta por um antagonismo desconhecido e houvesse 
alcanado a mo poderosa e firme a qual nunca soubera estar ali pra segur-la. De repente, sentiu-se segura, amada, certa de seu lugar no mundo e do amor paterno.
       -  Muito bem. Mas no abuse de sua sade - David mais uma vez ordenou e aproximou-se para abra-la e beijar-lhe a testa.
       Sabia que estava prximo ao choro. Ele e Olvia possuam um longo percurso pela frente e muito problemas a resolver, mas agora, pela primeira vez, sentia-se 
otimista quanto ao desenrolar daquela histria.
       Ben recolheu a correspondncia acumulada em sua porta. No tinha de fazer aquilo. Era tarefa de Maddy ou de Jenny. Elas no podiam t-lo deixado  merc da 
prpria sorte. Ora, ele lhes ensinaria um lio. Iria modificar os termos do testamento e depois...
       Ficou intrigado ao divisar uma carta endereada a ele. O envelope era leve demais. Um tanto inseguro, apoiou-se em uma cadeira e abriu a carta.
       Antes de levar as crianas  escola, Maddy havia acendido a lareira de seu estdio. Ela tentara persuadi-lo a adquirir um daqueles modernos aquecedores a 
gs, mas Ben preferia o calor real.
       Resmungando improprios, ele comeou a ler o contedo da carta e gelou. O aquecimento a gs foi completamente esquecido quando uma imensa onda de fria engalfinhou 
seu corpo. Aps ler e reler o texto diversas vezes, Ben tremia tanto que mal conseguia permanecer em p.
       Colrico, rasgou a carta e jogou-a no fogo. Seu corao disparava em um misto de raiva e pnico. Era tudo mentira, tinha de ser. Ele jamais...
       Ben gemeu quando, de sbito, uma dor aguda o atingiu, envolvendo-o em uma intensidade to mortal que nem sequer podia gritar.
       A dor parecia cort-lo ao meio, tal qual punhaladas precisas com total fria. Ben tentou conter o sofrimento fatal, mas este o dominava. As peas que compunham 
seu estdio comearam a escurecer, conseguia divisar apenas uma luz fortssima que ardia-lhe os olhos.
       Ento, de repente, ele apareceu diante de Ben, rindo, enquanto se aproximava. Os olhos eram de um azul intenso, os dentes, brancos e a postura, ereta. Ben 
reparou na expresso terna e compassiva, como tambm em algo mais que no pde ver.
       - No - Ben protestou, tentando evitar o toque dele.
       - Ben, sou eu - o outro dizia, suavemente.
       - Max! - Ben exclamou, confuso. - Eu no...
       - No  Max - o outro o corrigiu, paciente. - Voc sabe quem sou, Ben. No h nada a temer. Vim lev-lo para casa.
       - Estou em casa - Ben alegou. Porm, ao notar o pesado corpo cado no cho, ele ficou paralisado. - Matthew - sussurrou, tremulo, enquanto seu irmo gmeo 
esperava e observava.
       - Sim - ele confirmou, aguardando que Ben segurasse a mo que lhe estendia. Vamos. E hora de irmos embora.
       - Matthew - Ben murmurou, perplexo. - Meu irmo...
       - Quer conversar a respeito?
       Sara enrijeceu, quando seu pai caminhou at a extremidade do deque, onde ela permanecia sentada, admirando o azul do mar.
       - No h nada sobre o que conversar - ela negou.
       Richard Lanyon fitou a filha, pensativo. Sara havia chegado dias antes, plida e com os olhos repletos de tristeza.
       -  um homem - a me havia deduzido quando Sara recusara-se a explicar a sbita deciso de passar o Natal com os pais no Caribe.
       - Que homem? - Richard havia perguntado, sem conter a impacincia.
       - Um Crighton - a me de Sara adivinhara novamente.
       Sendo racional demais, Richard tinha ignorado a intuio feminina da esposa. Mas agora...
       - Nada ou ningum? - ele desafiou a filha, observando o semblante desta modificar-se como se ela fosse vtima de alguma dor. - Sara - implorou.
       - No adianta, pai - Sara alegou. - Conversar no resolver nada. Ele no quer...
       Sara levantou-se e tirou os gros de areia das pernas bronzeadas.
       - Eu o amo, mas ele no me ama. No sou mais uma criana - ela o lembrou, soberba. - E, dessa vez, voc no conseguir fazer a dor ir embora. Gostaria que 
pudesse.
       Pesaroso, Richard observou-a adentrar a praia. No era mais sua menina, mas uma mulher.
       Aps o choque inicial, eles se uniram na dor da perda como qualquer famlia faria. David preferira um enterro simples, somente com a presena dos parentes 
mais prximos. No entanto, Jon mantivera-se firme e o dissuadiu.
       - Talvez ns queiramos assim, mas no  o que papai teria apreciado - Jon explicara ao irmo gmeo. - Ben gostava de cerimnias pomposas. Se fizermos algo 
simples demais, tenho a impresso de que ele pensaria que no estamos tristes com sua morte.
       - Nada menos que um enterro digno de um chefe de Estado, se puder ser arranjado - Max havia concordado e David, enfim, aceitara.
       Seu corao enchera-se de orgulho e amor ao testemunhar o modo tranqilo com que Jon havia se encarregado dos trmites normais, depois que Jenny encontrara 
o corpo de Ben estirado no cho de seu estdio. E David ficara ainda mais que contente em conceder esse direito ao irmo.
       Toda a famlia havia sido convidada, inclusive os parentes de Chester.
       - Voc sabe como papai sempre foi competitivo em relao a eles - Jon recordara ao mostrar a David os convites negros que encomendara para o evento fnebre. 
-  o que ele teria preferido e ns devemos isso a Ben - Jon completara, sempre gentil.
       - Quando chegar a minha hora, no se esquea de que quero uma cerimnia humilde. Na verdade, jogar-me em uma fogueira seria timo e mais prtico.
       Jon rira.
       -  Claro, David. Se pensa que vou cavar um buraco de seu tamanho, est muito enganado.
       A agitao de Caspar aumentou sobremaneira quando o txi adentrou a rua de sua casa. Pedira a David para no dizer a Olvia que ele estava voltando. Embora 
relutante, o sogro concordara.
       - Como ela est? - Caspar perguntara a David ao telefonar do aeroporto para avisar que havia desembarcado.
       - Muito melhor - o sogro confirmara. Enquanto conversava com ele, Caspar ouvira as vozes das filhas e logo a saudade apertara-lhe o peito.
       Olvia havia entendido perfeitamente quando David dissera que estava voltando para casa. Sentia-se bem melhor, apesar de Jon ter insistido para que ela no 
se apressasse em retomar o trabalho.
       A morte de Ben fora um choque para todos, a despeito de sua sade ter estado debilitada nos ltimos tempos.
       Escutou Ally latir e divisou as luzes de um txi desaparecerem no fim da rua. Entretanto, nem sequer presumiu quem seria o visitante ao caminhar at a porta 
da frente. Por essa razo, levou um susto enorme quando viu Caspar em p diante dela, logo no teve tempo de disfarar a emoo.
       O longo vo para Manchester dera-lhe tempo suficiente para refletir, no somente acerca do que estava fazendo, mas tambm do que ele e Olvia tinham feito, 
juntos e separados, para o bem e para o mal.
       Sentia falta das filhas e de Olvia. Mas foi necessrio grande esforo a fim de agentar as batidas frenticas de seu corao ao ver os sentimentos que Olvia 
no teve tempo de camuflar por ter sido pega de surpresa. Naquele instante, constatou a fora do amor que ainda nutria pela esposa.
       - Caspar...
       Olvia conseguiu apenas sussurrar o nome do marido. De sbito, Amlia e Alex desceram correndo a escada para se jogarem nos braos do pai. Abraando-as, Caspar 
no fez o menor esforo para conter as lgrimas. Apertou-as contra si e fitou Olvia.
       Vrias horas se passaram, antes que ambos pudessem finalmente se sentar e conversar.
       - As meninas esto dormindo - Caspar avisou ao descer a escada.
       - Elas sentiram saudade - Livvy comentou.
       -   mesmo? - Caspar a encarou, duvidoso. - Seu pai parece ter realizado um excelente trabalho ao prover-lhes sua presena masculina. Elas no param de falar 
do vov.
       - Esto animadas porque ganharam outro av - Olvia ponderou. - Mas nenhum av pode ocupar seu lugar na vida delas, Caspar, ou... - ela se calou.
       Agora que a surpresa de t-lo outra vez em casa havia passado, existiam outros detalhes que precisavam ser esclarecidos antes que Olvia admitisse que ela 
tambm no conseguiria substitu-lo.
       - Que motivo o fez voltar para casa? - indagou, apesar da insegurana.
       - Vrios motivos - Caspar respondeu. - Voc,-eu, nossas filhas... Por que no me ligou para dizer que estava difcil conciliar as atividades rotineiras, Livy? 
Por que fiquei sabendo que havia adoecido atravs de seu pai?
       -: Meu pai telefonou para voc? - Olvia pensou por alguns segundos. - Por isso voltou? Porque...
       -  Voltei porque esta  minha casa. Voc  meu lar... voc e as meninas. O telefonema de David ofereceu-me a desculpa de que meu orgulho precisava-- Caspar 
confessou. - No sabe quantas vezes tive vontade de ligar, quantas vezes desejei...
       Arrependido, Caspar aproximou-se dela ao ver lgrimas nos lindos olhos da esposa.
       -  Livvy, no, por favor, - Ele chegou a erguer os braos para toc-la, mas desistiu.
       Ainda era cedo para intimidades entre ambos, como Caspar pde perceber atravs da expresso defensiva de Olvia. Contudo, no ser capaz de superar a distncia 
que os separava, tom-la nos braos e mostrar-lhe tudo que queria, parecia duro de suportar.
       -  Se preferir, irei procurar outro lugar para ficar - ele sugeriu, mas Olvia sacudiu a cabea em negativa.
       - No, as meninas ficaro arrasadas. - Sem olhar para Caspar, ela apressou-se em dizer: - Vou preparar o quarto de hspedes para voc.
       Caspar entendeu o que ela quis insinuar.
       - Se  assim que deseja - ele aceitou.
       - Acho que ns dois precisamos de tempo, Caspar. Tambm temos de conversar.
       - Certo. Eu compreendo.
       -  O que aconteceu conosco, Caspar? - Olvia, enfim, perguntou, incapaz de se conter.
       -  No sei. Talvez no valorizssemos o que j tnhamos.
       Ele havia mudado, Olvia reconheceu, tornou-se mais calmo, gentil e... Uma nuvem de medo tocou-lhe o corao. Poderia outra mulher ser a responsvel pela 
mudana que via nele?
       Caspar tinha voltado para casa, disse a si mesma em pensamento. Para ela e as filhas. E no era o nico que havia mudado, descoberto e aprendido. A antiga 
Olvia teria exigido uma resposta a sua suspeita, iria desafiar e exumar tudo que podia, movida pelo pavor de perd-lo e pela insegurana.
       No entanto, agora sentia-se mais sbia e fortalecida. Por enquanto, bastava saber que Caspar estava ali'e que ambos acreditavam valer a pena resgatar o relacionamento.
       Conversaram durante boa parte da noite a respeito dos problemas do casamento e dos sentimentos relacionados ao passado e s esperanas do futuro.
       -  J  tarde e voc parece cansada - Caspar disse a Olvia. - Esqueci que esteve doente.
       - Estou recuperada - ela garantiu. Subiram a escada juntos e se separaram para cada um recolher-se ao prprio quarto, sem que Caspar realizasse qualquer tentativa 
de beij-la, Olvia reparou.
       A casa inteira parecia diferente agora que ele estava l. Havia um clima de calor, segurana e completude. Ou seria ela que sentia tudo isso?
       A princpio, quando Olvia acordou sozinha na cama que ela e Caspar haviam comprado, no entendia por que se encontrava em um estado de ampla felicidade. 
Ento, lembrou-se de que o marido havia voltado. Tal qual uma criana que ansiava por abrir um presente, ela saboreou a doura do que estava para acontecer.
       No quarto de hspedes, Caspar tambm achava-se acordado. A alegria das meninas ao rev-lo e o olhar de Olvia quando abrira a porta eram imagens a ser guardadas 
como um tesouro. Estava ciente da tremenda sensao de proteo para com a mulher e as filhas, um sentimento que se potencializava com o amor que nutria por elas.
       Pensou em Olvia dormindo sozinha no quarto. Queria ir at ela, mas temia ser uma atitude precipitada.
       Olvia olhou o relgio de cabeceira. Eram trs horas da manh e estava desperta o bastante para ter cincia do que queria fazer.
       Quando ela abriu a porta do quarto de hspedes, Caspar a encarou, emocionado. Olvia caminhou at o marido e sentou-se na cama, estendendo-lhe as mos.
       -  Talvez eu esteja cometendo um erro e talvez seja cedo demais - Livvy explicou-se. - Mas senti tanta saudade de voc.
       Ela estremeceu quando Caspar deslizou as mos sob o penhoar e acariciou a pele nua da cintura. O toque era, ao mesmo tempo, reconfortante e excitante.
       -  Tambm senti saudade - Caspar respondeu, absolutamente sincero.
       - Talvez seja isso uma parte do problema - Livvy sugeriu. - Acho que ns dois sentimos tanta falta um do outro que acabamos nos confundindo. No quero que 
nosso casamento termine, Caspar. O que tnhamos era to especial...
       Ele acariciava a pele macia com movimentos to gentis que Olvia teve vontade de fechar os olhos e ronronar de prazer. Enquanto o fitava nos olhos, ela traou 
as linhas do rosto que tanto amava.
       Ento, Caspar beijou-lhe a ponta dos dedos, causando aquela familiar onda de desejo em Olvia. Um tanto temerosa quanto ao que experimentava e queria, tentou 
amenizar a fora dos sentimentos, provocando-o.
       - Meus ps esto gelados.
       Imediatamente, Caspar levantou as cobertas, convidando-a a juntar-se a ele na cama.
       Os ps gelados sempre tinham representado uma brincadeira entre eles, mas Olvia jamais imaginara que um dia precisaria recorrer a algo to juvenil.
       Aceitando o convite, ela tirou o penhoar e acomodou-se sob as cobertas. Extasiada, fechou os olhos enquanto Caspar aquecia seus ps.
       - Pensei que no fssemos fazer isso - ele brincou, carinhoso, envolveu o corpo convidativo da mulher e beijou-a.
       -  Se no se sente  vontade, podemos esperar mais um pouco - Olvia sussurrou entre beijos.
       Caspar sorriu, maravilhado. Nunca esteve to certo de que queria algum como naquele instante.
       - Agora sinto-me em casa de verdade - murmurou, puxando-a para si.
       Era o mesmo que recapturar a magia dos primeiros anos de casados, Caspar concluiu, regozijando-se com as respostas de Olvia a cada carcia que empreendia. 
A necessidade urgente os pegou de surpresa, a intensidade da unio amorosa chegou a patamares que Caspar imaginara tivessem permanecido no passado.
       O dia amanhecia quando Olvia finalmente adormeceu nos braos do marido. Seus lbios se curvaram em um sorriso quando ele declarou, segundos antes de ela 
conciliar o sono, que a amava profundamente.
       -  Depressa, meninas, ou chegaro atrasadas  escola.
       Ajudando Amlia e Alex, Caspar e Olvia se entreolharam. Ambos sabiam o motivo de quase terem perdido a hora de levantar.
       Ainda havia muitas arestas a aparar, mas durante o interldio daquela madrugada, juraram que a partir de ento a vida conjugal viria em primeiro lugar.
       -  Eu poderia trabalhar somente no perodo da manh - Olvia havia sugerido, hesitante, aps o intenso ato amoroso.
       - No tem de fazer isso por mim, Livvy - Caspar protestara.
       - No ser por voc - Olvia o corrigira. - Ser por todos ns... Refiro-me a voc, a mim, s meninas e a outros filhos que podemos ter um dia.
       - Outros filhos? - Caspar ficara pasmo.
       - Claro. Que tal mais dois? - Olvia perguntara, pensativa. - Trs me parece um nmero considervel, se nascerem um aps o outro. Seria timo ter meninos, 
mas no me importo.
       Os dias de convivncia com o pai lhe haviam proporcionado tempo para pensar no apenas nos eventos do passado, como tambm no futuro. Estava convicta acerca 
do que queria da vida e, acima de tudo, o que desejava para aqueles que amava, as crianas que j tinha e as que esperava conceber.
       - J pensou em como vamos sustentar uma famlia to grande? - Caspar perguntara, rindo.
       Ela o abraou e beijou.
       - Daremos um jeito.
       Enquanto acariciava o corpo esguio da esposa, Caspar pde jurar que aquela nuvem negra que os assombrava comeava a se dissipar. Via Olvia como a mulher 
com a qual havia sonhado, livre das dores do passado, livre para amar.
       Agora,  espera de Amlia e Alex, ele sentia-se grato ao destino por ajud-lo a reencontrar o amor e agarrar a segunda chance que Olvia lhe dava, aberta 
e honestamente, sem segredos. Em silncio, tambm agradeceu a Molly.
       To logo as meninas surgiram na sala, munidas com suas mochilas e casacos, Olvia tambm vestiu o dela.
       - Vou com vocs - informou a Caspar, sorridente.
       - Agora estamos parecidos com uma famlia de verdade - Alex declarou quando todos saram.
       Uma famlia de verdade! Ao segurar a mo de Caspar, Olvia degustou o som adorvel daquelas palavras.
       O cortejo de Ben seguiu lentamente at a igreja. Com a anuncia de todos, as crianas da famlia no precisaram comparecer ao enterro. Olvia sentira-se grata 
e aliviada quando Jenny lhe pedira para ficar em Queensmead com os mais jovens.
       - Obrigada, tia querida - Olvia agradecera a Jenny. - Creio que eu no conseguiria participar da cerimnia. Seria muita hipocrisia de minha parte. Afinal, 
no estou sofrendo com a morte dele.
       Olvia tinha a mais absoluta certeza de que Jenny compreendia seus sentimentos.
       Jack, sentado em- um dos carros que acompanhavam o cortejo, aproximou-se da janela ao passar pelas ruas de Haslewich. Seria quase impossvel ver Annalise. 
Ela devia estar .na escola, mas, ainda assim, sentia esperana. Tentara ligar para ela diversas vezes. Porm, Annalise no respondera s ligaes ou s cartas. Jack 
agonizava por t-la perdido e por ainda desej-la.
       Annalise sabia tudo sobre o enterro de Ben. A morte dele tornara-se o assunto principal da cidade. Incapaz de se concentrar na aula, ela olhou pelas largas 
janelas. Jack devia estar em Haslewich. Lgrimas comearam a despontar. Furiosa, ela enxugou os olhos. No iria chorar por ele. No valia a pena. Jack havia mentido 
e ela nunca mais iria se apaixonar ou confiar em homem algum. Jamais.
       Hugh, o meio-irmo de Ben e pai de Saul e Nick, foi quem leu o testamento. Havia doaes para todos os netos e Jon, mentalmente, rezou em agradecimento. Ainda 
lembrava-se com clareza da furiosa briga que tivera com o pai para garantir que Olvia fosse includa no testamento junto com suas filhas.
       Louise e Katie no se importariam, caso no tivessem herdado nada. Mas Olvia entenderia o gesto como mais uma rejeio em sua vida, o que, na realidade, 
seria verdadeiro.
       Havia uma doao para Ruth, a irm de Ben, de algumas peas antigas da famlia. Ruth lanou um olhar lamentvel a Jon e meneou a cabea, como se o estivesse 
censurando. Outras partilhas foram distribudas, no entanto a maior parte do legado ficou para o filho mais velho, David, com exceo de Queensmead, o qual Ben deixara 
para o neto, Max.
       Jon escutou o suspiro de alvio coletivo da assemblia de ouvintes quando o ltimo desejo de Ben foi lido. Contudo, em vez de mostrar-se satisfeito, Max levantou-se 
com a expresso sria. Ergueu as mos a fim de pedir silncio aos presentes.
       - No  segredo para nenhum de vocs que, antes de morrer, Ben mudou de idia quanto a deixar Queensmead para mim. Eu era, afinal, sua segunda escolha. Na 
verdade, ele desejava que Queensmead ficasse com meu tio David, e receio que eu o tenho enfurecido de tal maneira no fim da vida que ele decidira passar Queensmead 
a uma instituio de caridade, qualquer instituio seria melhor que eu. O fato de que Ben tenha falecido antes de realizar as modificaes em seu testamento no 
altera meu ponto de vista. Penso que ele queria mesmo me privar da propriedade e me sinto moralmente obrigado a recusar a doao em tais circunstncias.
       Todos pareciam atnitos ante as palavras de Max.
       - Entretanto - ele prosseguiu -, minha esposa ama aquele casaro. Portanto, proponho-me a mandar avaliar Queensmead e, quando possvel, comprarei a propriedade 
e passarei o dinheiro ao principal herdeiro de Ben.
       David levantou-se e caminhou at Max.
       - Obrigado, Max. Todos ns agradecemos sua honestidade, mas, em se tratando de obrigaes morais, sabemos quanto meu pai devia a Maddy pela devoo incondicional 
que ela dedicou a ele.
       Assim que todos assentiram e murmuraram, David sorriu.
       -  O que Max diz a respeito de meu pai querer modificar o testamento  correto. Porm, penso que a ao mais justa a ser feita seja - ele olhou para Max e 
depois para Jon - transferir a propriedade, a casa e todo o seu contedo para o nome de Maddy.
       Por um momento, pairou no ar um silncio profundo. Ento, algum - David no sabia quem - bateu palmas e, em segundos, a sala inteira aplaudia e assobiava. 
E Max, que se encontrava ao lado do tio, fitou David com os olhos repletos de lgrimas.
       - David, foi uma deciso sbia e generosa - Jon o cumprimentou, sem conter o entusiasmo.
       Por sua vez, Jack observava o pai cheio de orgulho e afeto.
       - Sem dvida, uma deciso sbia e generosa - Honor concordou, mais tarde, quando David descreveu a cena para ela.
       Satisfeito, ele a abraou. No dia anterior, haviam recebido o resultado do ultra-som. O beb estava saudvel e seguindo seu desenvolvimento normal.
       Nick deixou a taa de vinho sobre a mesa, sem ao menos provar a bebida.
       Nada na vida tinha sabor para ele... sem Sara. Acordava durante a noite tentando toc-la almejando estar com ela. E o ferimento, que devia estar cicatrizando, 
tinha desenvolvido outra infeco, a qual espantara o mdico que questionara a eficincia do sistema imunolgico de Nick.
       A dose cavalar de antibiticos, prescritas para a infeco, no removia o sofrimento que dilacerava sua alma.
       - Se ela significa tanto para voc, por que diabos no faz alguma coisa?
       Nick ficou furioso com a colocao de Saul.
       - Voc no sabe do que est falando - esbravejou, rude.
       Saul recusou-se a levar a grosseria como ofensa.
       - Acha mesmo? Pois saiba que j passei por isso, Nick - Saul rebateu, impaciente. - Entendo que est doente de amor e  covarde ou tolo demais para tomar 
uma atitude.
       Saul sabia o risco que corria, mas Nick era seu irmo e no podia ficar parado, vendo-o sofrer por causa de um orgulho idiota.
       Nick fuzilou o irmo com o olhar. Saul manteve-se firme, mas Nick virou-se e foi embora.
       - Teve sorte? - Tullah perguntou ao marido, horas depois.
       - Eu no chamaria de sorte - Saul confessou. - Mas tenho certeza de que atingi o alvo.
       -  Voc acha que o palpite de Bobbie  vlido? Seria a garota que trabalhava no restaurante?
       -  Oh! no sou tolo o bastante para perguntar a Nick. - Saul riu. - Ele tem um punho de ao. - Ele esfregou o queixo ao recordar as brigas que haviam tido 
quando crianas. Tullah suspirou, resignada.
       Choveu sem cessar durante todo o trajeto a Bournemouth. Logo, Nick chegou duas horas depois do previsto e, irritado ao extremo, praguejou contra o irmo e 
a prpria idiotice.
       Fora Olvia quem lhe dera o nome e o endereo do av de Sara. A bem da verdade, ela havia estranhado o fato de Nick tentar contatar sua me e ficara ainda 
mais intrigada quando ele precisou explicar por qu.
       - A neta do marido de Tnia esteve em Haslewich? - Olvia exclamara, franzindo a testa. - Mas...
       -  Livvy, por favor, no faa mais perguntas - Nick tinha implorado a ela. - E no conte a ningum por que estive aqui - pedira, por fim.
       Tnia provou ser to ftil e egosta quanto Nick havia esperado. Ela oscilara entre o flerte e a seduo enquanto queixava-se dos filhos.
       - Livvy passou muito mal - Nick no resistiu  vontade de contar-lhe.
       - Verdade? - O av de Sara parecera preocupado. - O que houve exatamente?
       - Ela contraiu uma gripe virtica fortssima - Nick explicara-lhe.
       -  Gripe? Oh! vivo gripada - Tnia reclamara. - Meus pulmes so to frgeis. Meu mdico avisou-me que preciso ser cuidadosa para no me expor a esse tipo 
de vrus.
       Nick sorrira por educao sem tecer nenhum comentrio. Seus sentimentos por Sara o deixavam enlouquecido de dor, e, por conseqncia, almejava dizer a Tnia 
tudo que pensava dela e recrimin-la por ter envenenado Sara contra os Crighton.
       De incio, o av de Sara mostrou-se relutante em informar o paradeiro da neta. No final, ele cedeu.
       Era poca de Natal, portanto cada vo para o Caribe estava lotado. Mas a determinao de Nick era tamanha que voaria at l de qualquer maneira, mesmo que 
tivesse de embarcar em um avio de carga.
       Felizmente, no foi preciso chegar a tanto. Um telefonema a um antigo cliente que lhe devia um favor o conduziu ao dispendioso jato particular que pertencia 
a um amigo de um amigo.
       Para sua surpresa, quando desembarcou no aeroporto, havia uni homem a sua espera, portando uma placa com seu nome.
       Desconfiado, Nick aproximou-se dele. Era alto, de cabelos grisalhos e olhos hostis. Aps recusar-se a apertar a mo de Nick, o homem se apresentou:
       - Sou Richard Lanyon, pai de Sara.
       Nick gelou na hora. Comparado  formidvel aparncia do homem em roupas tropicais, Nick sentia-se confuso devido ao fuso horrio e em total desvantagem.
       -  O av de Sara nos telefonou para avisar que voc estava chegando - Richard explicou. - O que quer com minha filha, Crighton?
       Por um momento, Nick ficou tentado a no responder. Mas j havia ido longe demais e no podia retroceder agora
       - O que um homem quer da mulher que ama? - respondeu com a mesma brutalidade.
       - Voc a ama? - Richard perguntou, incrdulo. - De acordo com Sara... - Ele se calou.
       Recomear..,
       - De acordo com Sara o qu? - Nick o desafiou.
       - Creio que seja melhor voc perguntar a ela - o homem aconselhou.
       Agora Richard sorria para ele. Segurou-o pelo brao e o conduziu at o estacionamento do aeroporto.
       - Sara resolveu passar o dia no iate de uns amigos nossos. A me dela preparou-lhe um quarto. Espero que esteja pronto para o interrogatrio que ela pretende 
fazer. - Richard comeou a rir.
       Assim, a tenso de Nick evaporou-se aos poucos. Mas no completamente!
       No final, a me de Sara no lhe perguntou nada. Apenas o recebeu com todas as honras, instalou-o em um quarto arejado e insistiu para que ele ficasse  vontade.
       - Ah, sim - ela murmurou, por fim. - Agora eu entendo...
       Sara no aceitou a carona que os amigos lhe haviam oferecido. Preferia caminhar do ancoradouro  cidade, j que o trajeto era curto e ao longo da praia.
       O ar da noite comeava a ficar refrescante. Segurando as sandlias, deixou que a areia envolvesse seus ps. Estava fisicamente cansada, mas nada podia amenizar 
a constante agonia mental por causa de Nick.
       Richard dissera a Nick que Sara voltaria a p para casa e pela praia. Ele quase havia desistido de procur-la quando a avistou.
       Ela caminhava lnguida sobre a areia, com a ateno voltada ao oceano. Levantando-se do tronco em que se sentara para esperar, Nick andou at Sara.
       Sara sentiu sua presena antes de v-lo. Tensa, reparou que um homem dirigia-se a ela entre as sombras. O corao saltitava, enquanto o crebro recusava-se 
a assimilar o que os olhos lhe diziam.
       - Nick? Nick!
       To logo pronunciou o nome, viu-se envolta por aqueles braos fortes. Ele a beijava, apaixonado, e Sara correspondia a cada beijo emitindo gemidos de prazer.
       Beijaram-se com frentico desespero, tal qual amantes que temiam se separar, roando-se, tocando-se, murmurando o contentamento e a descrena sem parar.
       - O que faz aqui? Por qu...? - Sara perguntou, quando conseguiu falar coerentemente.
       - No suportei ficar longe de voc - Nick admitiu, sincero. - Mesmo que no quisesse meu amor, eu tinha de vir.
       -  Seu amor? Mas foi apenas sexo - sussurrou Sara.
       - Por favor, no diga isso - suplicou, passional. - Sara, o que ns vivemos no representou apenas sexo. Acredite-me. Deixe-me mostrar a voc, provar-lhe 
que  verdade. Eu... - Ele se deteve ao senti-la estremecer. - Desculpe-me. No devia pression-la.
       - No. No pare - Sara protestou. - Oh! Nick, tem idia de quanto desejei escutar isso? Quantas vezes me odiei por fantasiar que voc me fazia declaraes 
de amor, como uma adolescente sonhadora. Oh! Nick, Nick... - Ela o agarrou, saudosa.
       -  Seus pais esto nos esperando - ele avisou quando Sara desabotoou a camisa e deslizou as mos sobre o trax musculoso. Ela ofegava de excitao  medida 
que o tocava.
       - No posso esperar. Alis, j esperei tempo demais. Oh! Nick... - O nome soava como um gemido extico, enquanto Sara colava-se ao corpo viril, sentindo  
a resposta imediata.  Haveria problemas   frente que teriam de resolver, em especial empecilhos relacionados ao trabalho de Nick. Mas, de alguma maneira, encontrariam 
o jeito de permanecerem juntos.
       - Seus pais me convidaram para ficar com eles - Nick contou-lhe. - Mas me arrependo de no ter ido a um hotel.
       - Quem precisa de hotel? - Sara o provocou. -
       H um belo barco vazio logo ali.
       Olhando sobre o ombro, Nick avistou o barco que ela citara, preso a um deque.
       - No podemos - ele protestou. Contudo, os olhos de Sara brilhavam de malcia e muito, muito mais.
       - Que gostoso - Sara murmurou, meia hora depois quando, nus nos braos um do outro, apreciavam o gentil balano do barco.
       - To gostoso quanto isso? - Nick brincou, movendo-se de propsito.
       - No to gostoso assim - ela retrucou, com a voz rouca de desejo. - No consigo imaginar o que seria de mim, se voc no me encontrasse, Nick.
       - No pense nisso - Nick ordenou. - No pense em nada que no seja ns dois - ele sussurrou, sensual. Quando beijou-lhe os lbios e depois os seios nus, o 
suspiro de prazer de Sara ecoou pelo ar calmo da noite.
       No apartamento, Richard Lanyon verificava o relgio a cada minuto.
       - Nick j deve ter encontrado Sara a essa hora.
       - Claro que sim, querido - sua esposa concordou com um sorriso de falsa ingenuidade que o fez bufar de impacincia.
       EPLOGO
       Tem certeza de que  isso que quer? Ainda h tempo de mudar de idia - Max reforou, fitando .Maddy.
       - Tenho certeza - ela confirmou, serena, e sorriu para ele.
       Ao entregar o filho de poucos meses ao pai, Maddy observou, encantada, os olhos de Max iluminarem-se. J existia um lao muito forte entre aqueles dois. Desde 
o nascimento, o beb se apegara a Max e ele, em troca, adorava a criana. Era como se o recm-nascido soubesse, de alguma forma, que o pai necessitava reassegurar-se 
de seu amor.
       Atrs deles, na congregao, David, orgulhoso, encontrava-se sentado com sua famlia. Honor e Olvia trocaram olhares quando David, Amlia e Alex comearam 
a discutir para ver quem carregaria a filha de dez dias do casal.
       Ainda era cedo para Olvia revelar a Honor que esperava anunciar a vinda de mais um membro da famlia. Mas ao ouvir Caspar dizer s filhas que era a vez do 
av carregar o beb, Livy segurou-lhe a mo. Afetuoso, Caspar sorriu para ela.
       Com freqncia, naquelas ltimas semanas, ele sentia como se estivesse vivendo com uma nova Olvia, uma mulher que havia superado as sombras da infelicidade. 
s vezes, doa-lhe o corao s de pensar em como ela tinha sofrido.
       Por sugesto dela, haviam decidido passar o vero com a famlia de Caspar.
       - Est certa disso? - Max perguntou novamente a Maddy ao ver o vigrio se aproximar.
       - Estou. - Ela riu.
       Quando o vigrio pegou o bebe, Max respirou fundo a fim de preparar-se para escutar o nome completo do filho.
       - Benjamin Matthew Crighton.
       Benjamin Matthew! Os olhos de Max se arregalaram no instante em que Maddy lhe dissera, logo aps o nascimento, como gostaria de chamar o beb.
       - O nome de Ben? - ele a questionara, duvidoso. - O de Ben e o de seu irmo gmeo - Maddy havia confirmado.
       E agora que o vigrio oficializava o nome do beb, ela pressentiu a onda de amor e paz que invadiu a velha igreja. Fora Leo quem casualmente lhe contara sobre 
os dois meninos que ele vira brincando no estdio do bisav Ben.
       - Eles usavam roupas engraadas - Leo comentara com a me. - Como as da fotografia.
       Maddy avisara-o apenas que, se os visse de*novo, deveria contar-lhe.
       Mas, quando mencionara o ocorrido a Honor, esta suspirou, misteriosa.
       - Voc tambm os viu? - Maddy perguntara-lhe.
       - No. Mas pensei t-los escutado enquanto voc e eu empacotvamos os pertences de Ben.
       Sem dizer nada a Max, Maddy cuidadosamente caminhara pelo casaro, conversando com Ben e assegurando-lhe que sua memria e sua casa estavam bem guardadas.
       - Eles se foram - Honor afirmara, ao visit-la outra vez.
       - Pobre Ben -Maddy suspirara. - Ele estava sempre to sozinho e to triste.
       -  Ele no est mais triste - Honor garantira, convicta.
       Maddy sorriu ao receber o filho do vigrio. Os nomes que lhe dera eram um presente a Queensmead por todas as ddivas que ela ali recebera... ddivas de amor 
e esperana na humanidade.
       
       
       PENNYJORDAN nasceu em Preston, Lancashire. Agora mora com o marido em uma linda residncia do sculo quatorze, na regio rural de Cheshire, Inglaterra. Seus 
livros so um sucesso quase to estrondoso quanto as faanhas de personagens que ela sabiamente retrata. Com mais de 50 milhes de cpias editadas e traduzidas em 
dezenove lnguas, ela  lder em sua extraordinria competncia como escritora.
       



Penny Jordan                Recomear




1

